Soltou uma leve lufada de ar, nasalada, que quase poderia ser confundido com uma risada. Talvez Benjamin não entendesse nada de moda, mas as roupas pareciam perfeitamente normais para ele. Bem, ele não entendia nada de moda ou dela, mas ao seu ver, ela ainda estava esteticamente perfeita. Uma coisa, entretanto, da qual entendia era de cor, e realmente as cores poderiam ser pálidas em comparação a personalidade vibrante de Amaia. Porém, Ben duvidava que ele precisasse das cores para se fazer aparecer, ou entendida. Ele iria apenas acreditar que seria uma das suas formas de expressão. “Se a senhorita diz,” levantou as mãos em um gesto de redenção. Não pretendia convencê-la de que estava certo, ou que era mais sábio, mais vivido. Não, Benjamin não tinha essa pretensão. Nem ele mesmo sabia se ainda acreditaria nisso. “Apenas tome o conhecimento de alguém que passou a vida obedecendo o dever, e não deixe que ele dite as regras por você,” ela parecia obstinada e capaz de fazer o que colocasse em sua cabeça, porém algumas vezes era mais fácil levar as coisas porque queria, do que por dever. Algumas vezes, quando Benjamin pensava na sua vida, era aquilo que ele mais pensava em mudar ─ talvez tivesse seguido o seu coração. “Percebe que eu nunca falei em amor, senhorita Jones?” Depois de Rebecca, amor certamente não era algo que Benjamin tinha em grande estima. Todas as juras de amor, de ambas as partes, soavam tão falsas em seu ouvido. Assim como ele pode se manter afastado, mesmo que por seus motivos, ela conseguiu abrir mão dele, pelos motivos dela. E Ben não sabia quais eram aqueles motivos, mas não faria tamanha diferença em sabê-los. Sabia o que era importante ─ o amor havia lhe escapulido entre os dedos, como água corrente, e ele não pretendia lutar contra a maré. “Falei em querer-me,” aquilo, entretanto, já era algo mais palpável, tangível. Desejo era algo que dava para ser sentido na pele, ou nos seus calções. Benjamin acreditava que as pessoas ainda confundiam muito o pulsar do coração com amor, quando até mesmo no claro desejo o coração pulsa contra as costelas, parecendo que vai escapulir, e os ossos doem. Amor não era desejo ou valentia, e ele não sabia se seria capaz de conquistar alguém naquela carcaça de pessoa que era. “Não tenho a ilusão que faria qualquer moça me amar, porém conheci uma dama que parecia estar no debute apenas por anseios de sua mãe, e nesse caso não desejo me casar com a mãe de ninguém,” disse em tom quase cômico. Não conseguia se ver pedindo alguém em tais circunstâncias, sem o desejo expresso para tal. A última coisa que queria era que alguém se sentisse obrigada a passar o resto da vida com ele. “Nem meus pais, nem meus avós são daqui,” disse quase distraidamente. Benjamin havia sido o primeiro a nascer no novo mundo. Então veio Theo. E depois as moças. De certa forma, ele também era um externo olhando para dentro. “Acho que a senhorita está sendo muito sonhadora, senhorita Jones── e aqui eu pensava que a senhorita seria mais prática.” Benjamin poderia ter dito que ele já tinha tido a experiência de encontrar a pessoa mais bonita do salão, e já tinha tido seu coração. O problema era que ele mesmo havia deixado escapar, então o que lhe restava era seguir a sua vida sem olhar para trás e esperar que um dia tivesse escapatória da memória que era Rebecca. Não pode deixar de, novamente, soltar o ar de forma quase cômica, “vosmecê fala como se tudo que eu estivesse procurando fosse uma dama inglesa de bom tom, senhorita Jones. Tenho a vantagem de ir e vir em círculos quando me convêm, e no momento eu preferiria muito mais estar em uma taverna.”
Amaia suspirou em resposta ao comentário dele encarando as fitas que prendiam os laços em seu vestido. Era simples ele dizer, não era o mais velho de cinco irmãs! Mas cada um com seus problemas: --- Tentarei usar vosso comentário da melhor forma, milorde...” Falou colocando um sorriso um tanto cansado nos lábios, não pela conversa, mas por ele estar parecendo sua mãe falando, os dois não entendiam muito bem em que sociedade estavam, era a conclusão que Amaia chegava. Ela engoliu seco, deixou os olhos se arregalarem levemente: --- Desculpe-me, Senhor Kent... Mas pareceu-me que era isso que buscava... Digo com a forma que colocou as palavras...” Ela tombou a cabeça confusa, soltando um riso sincero em seguida: --- E porque uma senhorita não o desejaria? A família do senhor tem dinheiro... Militares, pelo que minha avó falou...” Ela olhou de lado à avó: --- Além disso, é bem apessoado, para não dizer que o senhor é um senhor atraente e parecer deselegante!” Completava pontuando com calma. --- Fique tranquilo... Pela minha mãe eu viajo o mundo todo só com María me acompanhando!” O tom saiu risonho, mas era a verdade. --- O que me impede é que possuo um senso de preocupação com minhas irmãs e não vou permitir que elas passem pelo mesmo que passei em meu debute! Elas não vão ouvir os comentários que eu escutei! Assim me casarei nessa temporada, nem que eu tenha que sair do país para isso! Eu preciso de um casamento de prestígio para minhas irmãs terem uma chance de viverem nessa sociedade!” Agora seu tom era cortante, sincero e um pouco irritado, não com o Kent, claro. Mas com o fato de não poderem viver suas vidas graças aos comentários de velhas fofoqueiras. --- Querido, senhor Kent... Mais prática que eu o senhor não conhecerá! Contudo eu acreditei que o senhor fosse o sonhador, então lhe dei motivos para sonhar! Mas se quer a realidade eu a coloco como cartas na mesa: eu vou me casar com alguém que possa esfregar na cara dessa sociedade e todos me respeitarem! Por bem ou por mal!” Ela falou em um rosnado. --- Então... Eu recomendo que diga-me que deseja se retirar nós nos despedimos, o senhor vai para sua taverna! Eu falo para meus pais que o senhor não é para mim! Eles não vão insistir! E assim evitamos novos encontros... Enquanto isso eu posso ir até meu quarto e soltar a mierda de espartilho que está me tirando o ar!” A essa altura já estava irritada! Tinha sido educada com ele e ele vinha falando que prefere a taverna, então vai, pela madre!” Pensava consigo: --- Mas também podemos fingir que tudo está ótimo o senhor vai até meu pai e diz que voltará a conversar com ele em outra oportunidade, e nunca mais conversa! E pronto!” Um pretendente a menos, e daí? Já estava ferrada mesmo! Melhor que aguentar aquele reclamão!