Dias de Insônia - Parte 2: Corpo
Me viro como um idiota no colchão, coloco o travesseiro debaixo da cabeça, depois o travesseiro por cima, fecho os olhos com força me concentrando no preto, certo está tudo preto agora dentro da minha cabeça. Não estou pensando mais em nada, não importa mais os problemas do dia a dia, chega não vou pensar na porcaria do meu nome que está sujo novamente. SPC não. Tudo preto.
Tudo preto, estou quase lá mais um pouco e eu durmo, quase posso espreguiçar, estou com sono porra, to me concentrando em não pensar em nada. Que se foda a vida de bosta que levo, já deve ser umas duas da madrugada agora eu mereço dormir, esquecer da merda da faculdade que você inventou de fazer porque se achava artista e depois descobriu com pesar que ela não vai te levar a nada. Porra pensa em preto, preto... Pera. deve ser duas ainda, minha bexiga ta apertada, mas eu já fui ao banheiro duas vezes, não vou levantar de novo, a cama ta quentinha, lá fora ta frio, daqui a pouco tenho que trabalhar. Vou estar um bagaço humano amanhã. Que amanhã que nada, me viro novamente na cama, que range vagabundamente. Cama velha desgraçada, esse barulho é que não me deixa dormir. Se eu não me levantar agora vou acabar molhando o coxão, melhor levantar logo, que não deve ser nem duas e meia ainda, eu vou correr para o banheiro, no caminho bebo água assim evito de levantar novamente.
Me levanto carregado, o corpo pesado e dolorido, mas acordado, acordado pra cacete, corro para o banheiro já sentindo as primeiras gotinhas começarem a molhar a cueca.
Termino o que fui fazer no banheiro.
Me olho no espelho de relance, e quase sinto ódio de mim mesmo por estar acordado até essa hora, me encarando no espelho e sentindo vergonha de existir digo para o nada.
- Que se dane, não vou até a cozinha agora.
Tomo água na pia fazendo uma conchinha com as mãos, caralho que cede, bebo muita água já imaginando que isso poderia me arrastar para o banheiro mais uma vez. Foda-se não quero mais pensar sobre isso. Não vou mais pensar em preto.
Se o meu corpo não quer mais dormir, eu decido que não quero mais também.
Volto para o quarto, e ouço a porcaria da minha geladeira na cozinha dando um estralo que me assustou, não sei por que, ela sempre fazia esse maldito barulho, só que como a casa estava vazia e escura o barulho me tocou na espinha.
Antes de me deitar novamente ligo a TV, dane-se vou assistir qualquer coisa que estiver passando, me jogo debaixo das cobertas segurando o controle remoro.
Mudo de canais passando bem rápido pelo maior numero de programas e filmes, espero achar algo bem entediante que me de sono o mais rápido possível, mas parece que o ato de apertar os botões do controle deixam uma pessoa ainda mais acordada. Passo por um canal onde tá passando algo religioso, mudo rapidamente de canal, o próximo era um filme legendado, que pela trilha sonora saco que era algo do gênero terror, sou covarde admito, e alias queria apenas dormir, e essas merdas nos acordam de vez, chega de sustos por hoje. Odeio esportes, passo ainda mais rápido pelos canais de esporte não, nada de pessoas com corpos perfeitos e saúdes de dar inveja, correndo, lutando e nadando me lembrando que sou um merda, poxa esportes são deprimentes na madrugada. Canais adultos, porra isso não deveriam ser os nomes de canais de sacanagem, devo ter pelo menos uns cinco canais de sacanagem na TV a cabo, não que eu seja um pervertido nem nada, mas aceitei uma promoção de pacote de canais de filmes. Nada haver, ok passo devagar por esses canais, mas acabo não deixando em nenhum, mas passo de vagar por eles enquanto abaixo o volume no zero, porque esse povo de filmes adultos gritam muito, me pergunto como eles capturam esses áudios, droga tempo demais nesses canais e eu já estou viajando, nossa tenho a nítida sensação de que estão repetindo a cena do cara metendo na mina porque percebo os mesmos movimentos, cortes lentos de tomadas reprisam a mesma cena, esses filmes estão cada vez mais decadentes. Mudo de canal quando já estou excitado com a merda do filme.
No outro canal passa um documentário da vida animal selvagem na áfrica, ótimo vou deixar ai, e vou torcer pelo leão, na noite passada torci pela zebra, que acabou devorada, dessa vez aposto no predador.
Como ainda estou excitado resolvo bater uma, para sentir sono, fecho os olhos para não ver a zebra morrendo, mas enquanto me distraio comigo mesmo escuto a voz do narrador descrevendo a caçada, e a corrida da zebra com seus movimentos lindos na natureza, mas hoje seria o dia do rei da floresta, hoje o leão não ia voltar para a casa de barriga vazia...
Meus olhos estão quase totalmente fechando agora, não estou mais pensando em preto, nem em nada, talvez apenas tivesse um rosto em minha mente, não sei não me viro mais no colchão. Não me lembro como o leão alcançou a zebra.
Dou um salto no chão com um jato de água que cai sobre mim. não reconheço o lugar onde estou, só sei que está tudo muito escuro e sujo. Um homem estranho se aproxima, me da um soco no estomago que me faz cair no chão, brigando para sentir o ar novamente em meus pulmões.
O cara estranho aproveita de minha fraqueza e me arrasta para uma outra sala, o lugar era um pouco mais claro, porém era igualmente estranho, outro homem entra na sala, eles se unem para me amarrar, amarram minhas mãos para traz com uma corda, depois fazem o mesmo com meus pés, eu não tento reagir pois acho que de alguma forma já estava morto, não estou com medo, só quero que tudo acabe rápido.
Sou dependurado pelos pés em uma corrente no teto, sinto o meu corpo balançar como um pêndulo, sinto vontade de vomitar, estou tonto e enjoado, estou perdido não sei onde estou nem como vim parar aqui, mas de certa forma não queria mais morrer e grito.
- Hei, o que que e isso? Me soltem me soltem!
Os homens não dizem nada, eles tinham facas em suas mãos.
- Não! Pelo amor de Deus, eu não quero morrer!
Um deles se aproxima de mim e começa a rasgar a minha carne de vagar, passando com força a faca da altura do meu peito até chegar ao meu umbigo, eu apesar de acordado e de sentir a faca me rasgar não sinto nada, não estava doendo absolutamente nada. O sangue começa a correr até chegar ao meu rosto, a minha boca e em meus olhos. Meu sangue estava saindo como uma fonte.
O outro homem se aproxima de meu corpo dilacerado pelo corte e começa a abrir minha carne com as mãos, arrancando meus órgãos e minhas tripas sem piedade ou misericórdia, nem mesmo pudor de ser tão violento e cruel quanto se poderia ser.
Porque eu ainda estou vivo depois daquele procedimento, será que estou morto agora, porque não durmo nem depois de morto, essa insônia vai me seguir até depois de estripado? Não grito mais, não sinto dor, eu só queria poder dormir.
Depois de remover minhas vísceras, sou liberto da corrente e desamarrado, e costurado em um processo cirúrgico bem porco pelos mesmos homens.
No final do processo de tortura estava vivo de algum modo, me levanto de vagar, passando a mão em minha barriga costurada até o peito.
- Precisamos de seus órgãos.
- Esperávamos que você já estivesse morto.
Responde-me o único cara que me respondia, e eu pergunto meio atordoado.
- Para que vocês precisam desses órgãos? Porque os meus?
- Para a sua mãe, vamos levar para ela.
Minha cabeça da muitas voltas em torno dela mesma, isso era improvável, volto a passar a mão pelas costuras em meu corpo, e começo a chorar e dizer como um bebê:
- Cadê a minha mãe, eu quero a minha mãe... espera cadê ela, eu quero a minha mãe!
Abro os olhos me levanto se sentando na cama, passo a mão na barriga, não tinha nada nem uma costura, nem um relevo, estava tudo certo. Me abraço assustado, ninguém tirou os meus órgãos. A TV estava ligada passava um desenho animado, olho para o relógio que marcava seis e meia da manhã, meu celular dispara o alarme para que eu acordasse, mas eu já estava acordado, antes de me levantar confiro com desconfiança mais uma vez o meu corpo. Eu estava bem. Meu corpo estava bem, eu dormi afinal das contas. Eu dormi, dormi e sonhei.