"Escrevo esse texto às 22:00, dia 1 de janeiro de 2024, sentado na poltrona 21D de um avião em descida para Fort Lauderdale. Sentados ao meu lado, estão um pai e filho — americanos — brincando com um jogo de cartas da Marvel — um dos muitos detalhes que me lembram você. Hoje eu chorei e pedi pra que Deus tirasse esses sentimentos de mim. Não sei te dizer quantas vezes ouvi ou li falarem o quanto eu sou especial, que mereço ser amado e que tudo isso vai passar. É difícil acreditar.
Será que vai? Aos 30 anos, me pergunto se já não é tarde demais para sonhar com esse tipo de amor que dizem ser adolescente, o tal do teenage dream. E embora você tenha me proporcionado pequenos vislumbres daquilo que eu sempre sonhei, as feridas que ficaram também se mostram difíceis de sarar. É engraçado — e talvez irônico — refletir sobre como muitas vezes eu achei que você me amasse mais do que eu te amo. Sempre me peguei pensando sobre como seria o nosso término; como eu teria que ser cuidadoso quando esse momento chegasse. Mas a vida tem dessas de fazer a gente ver que erra, então vai aí um spoiler alert: você não me amou mais do que eu te amei e não fui eu quem terminou.
Quando você me cortou da sua vida como se nada tivesse acontecido, eu fiquei duas semanas sem conseguir reagir. Eu acho que emagreci quase seis quilos, pois não sentia — e ainda não sinto — fome. Os meus colegas de trabalho ficaram preocupados e não me deixavam sozinho em casa. Deus sabe o quanto eu sofri e quantas lágrimas eu derramei enquanto eu implorava em vão aos céus que você voltasse. Apaguei as nossas fotos, joguei a minha aliança no mar e gritei, de coração despedaçado, em cima de uma pedra em Ventanas. No meu dedo anelar da mão direita, no exato lugar que ficava a minha aliança, eu sofri um corte que nem sei da onde surgiu. Uma dolorosa metáfora. É só uma das várias cicatrizes que você deixou. Penso em desistir de tudo, voltar pra casa, chorar no colo de mainha e viver um dia após o outro em São Luís. Eu deveria estar vivendo a melhor época da minha vida, mas sinto que agora a Costa Rica se tornou um lugar para me lembrar o que eu perdi: você.
Depois de duas semanas, nós nos reaproximamos. E eu estava feliz, completo. Enquanto falava com você por telefone, deitado na rede, eu chorei de emoção. Meu coração pulava de alegria. Eu disse que te amava e que daria o meu melhor todos os dias para que superássemos a distância. Você agradeceu e disse que também me amava. Assim permanecemos por três dias, até eu notar que você estava estranho outra vez. Eu já estava na Flórida, viagem essa que fiz para estar ao lado do Breno em um momento tão difícil quanto esse. Você pediu que eu esperasse o dia acabar para que nós conversássemos. E, apesar da paciência não ser o meu forte, eu tentei ao máximo respeitar a sua decisão. Quando cheguei, por volta das 23:00, você me disse que estava com dor de cabeça e que achava melhor conversarmos no dia seguinte. E dessa vez você não me chamou de amor; me chamou pelo nome — o que fez com que meu coração se partisse outra vez. Depois de um dia inteiramente dominado por ansiedade, eu não consegui aceitar o seu pedido e acabei forçando a conversa. Você me disse que não estava certo sobre a sua decisão e que no dia que tinha aceitado voltar, estava dominado por culpa; que o sentimento que tinha por mim estava desgastado. Eu te perguntei o que eu fazia com todo esse amor que eu ainda tenho guardado e você não soube responder.
Nós decidimos nos afastar de novo. Dessa vez, até o dia 15 de fevereiro, um mês antes de eu voltar para o Brasil. Você me disse que queria ter a oportunidade de viver e de comparar as suas experiências; se seria capaz de encontrar alguém que fizesse seu coração bater tão rápido quanto eu. E isso não só me assusta, como também me deixa entristecido. Não é justo que eu te impeça de viver aquilo que eu já vivi e mesmo odiando o meu egoísmo, no fundo eu queria que você me escolhesse. Você pode achar que eu tenho muita experiência e que talvez você tenha sido só mais um, mas a verdade é que você foi o primeiro que realmente me amou por quem eu era e me dói ter que aceitar que a nossa história chegou ao fim. Acho que esse é o preço por se ter o primeiro namorado aos 26 anos. Quatro anos depois, é mais difícil ainda desassociar tudo que vivemos e conquistamos juntos. Eu nunca mais vou conseguir beber suco de cajá, comer carne de sol, assistir série da Marvel, ouvir Djavan, visitar Curitiba ou passar pela General Artur Carvalho. Essas são poucas das muitas coisas que me lembram você. Talvez, com o tempo, elas sejam ressignificadas. Até lá, me reservo o direito de sentir a perda do futuro que um dia já foi nosso."