Como minhas amigas me veem
Sinto que não sei quem sou, talvez eu saiba mais sobre mim do que sabia alguns anos atrás mas continuo sem saber quem sou. Minhas amigas sempre me falam sobre como eu sou.
Jen diz que sou cuidado, poesia, e leveza no meio do caos. Que sou o tipo de pessoa que faz ela levantar da cama em dias ruins. Alguém que faz o caos parecer habitável, que segura o mundo com delicadeza.
Ela fala que eu sou casa, abrigo, um lugar seguro pra existir. Eu sempre achei que fosse uma tempestade ambulante, pedaços de caos colados, alguém que muda de humor como o mar, meio instável. Talvez ela também veja o mar que eu vejo em mim. Enorme e assustador. Ela mesma lembrou da metáfora que eu fiz sobre o oceano, uma mistura de profundidade e medo.
Ela diz que eu sou leve, que torno o mundo mais suportável mesmo quando tudo está desmoronando. Que eu rio alto, que falo demais, que penso demais, que me importo demais. Que eu sou curiosa e inteligente.
Ela fala de mim com uma devoção que me desconcerta. Ela fala que eu sou empoderada, inteligente, gentil, curiosa, determinada, extrovertida, genial. Eu leio e não acredito muito bem nela, como se ela me visse com uma gentileza suave demais. Mas eu não falo nada porque é bom ser vista gentilmente. O jeito que ela me descreve é suave, não tem nada sobre perfeição ou fazer as coisas bem. É sobre o que ela sente quando eu existo.
Quando Jenn fala de mim, ela fala com a fé de quem acredita que o amor pode consertar o mundo. Ela me pinta como um tipo de milagre cotidiano, alguém que chega e transforma o caos em poesia.
Anna evelyn diz que tenho magia, que meu jeito de ver o mundo é quase um feitiço, transformando o comum em algo digno de filme. Como quem existe entre a realidade e o sonho, entre o racional e o encantamento. Ela diz que eu deixo o mundo mais bonito.
Ela me descreve como alguém que transforma tudo em conversa, que fala sobre sentimentos sem nunca fingir ou esconder. Ela fala de mim como se eu fosse uma personagem de livro misturada entre introspecção e curiosidade.
Mas a verdade é que, às vezes, eu me sinto só uma criança tentando encontrar a saída de um labirinto. Essa mania de romantizar tudo (o sofrimento, a saudade, as conversas, as pequenas dores) é uma forma de sobrevivência. Quando eu não sei lidar com o real, eu transformo ele em narrativa. Quando o mundo dói, eu invento um enredo pra dor. E talvez seja isso que ela chama de “magia”.
E é curioso: às vezes eu me sinto muito comum, muito pequena, muito presa na própria cabeça e em tudo que eu gostaria que eu fosse e que a vida fosse. Mas de repente, alguém olha pra mim e vê encanto. Vê magia.
A verdade é que eu falo demais, e penso mais ainda.
Jen chama isso de reflexiva, Anna chama de “tagarela mágica”, e eu só chamo de “não consigo calar a boca”.
Minha mente trabalha em círculos, sempre cogitando novamente, sempre dissecando um pouco mais. Nunca chegando a uma conclusão mas lapidando os pensamentos pouco a pouco. Um fluxo contínuo de pensamento, as palavras que transbordam, o impulso de analisar tudo até o limite e um pouco mais.
Jennifer disse que eu interpreto as pessoas tão bem que parece que eu as conheço mais do que elas mesmas. As vezes eu duvido disso, ou não sei oque fazer com esse conhecimento. Eu sei muito sobre mim e sobre os outros mas é difícil saber exatamente, vizualizar claramente essa bagunça em algo útil. As vezes olho demais pra os outros e é fácil esquecer sobre mim mesma, é uma forma silenciosa de se perder.
Mas há algo bonito nesse perder-se também. Porque, se eu pensar bem, talvez eu esteja me encontrando exatamente nesse processo de ser vista. De ser perdida. De se encontrar de novo.
Quando eu leio o que elas escrevem, eu percebo que há uma versão minha que escapa de mim. Uma versão bem mais bonita do que vejo. Uma versão que não é moldada pelas minhas inseguranças, mas só por mim mesma. Eu posso duvidar de mim, mas elas não duvidam.
Não sou simples, não sou boa nesse negócio de entender quem sou porque eu amo vermelho por ser intenso mas o odeio pelo mesmo motivo. Eu amo o mar por ser grande e o odeio pelo mesmo motivo. Eu amo e odeio como quem respira. Gosto de flores por serem bonitas e suaves e as odeio por serem frágeis. Eu me amo e odeio também. Sou sempre dividida entre tudo.
Entre querer desaparecer e querer ser vista, entre o silêncio e o grito, entre o real e o imaginário. Anna Evelyn acertou quando disse que a gente sempre quis mais do que o mundo oferecia. Que a gente sonhava com Nárnia, com a Terra do Nunca, com qualquer lugar onde a vida fosse mais poética. Mais viva. Menos séria.
E, talvez, por isso, eu transforme tudo em metáfora. É mais fácil entender tudo quando não é dito diretamente A vida pra mim só faz sentido quando vira história. Quando tem começo, meio e fim. Quando tudo sem um significado por trás. Eu não sei existir sem narrativa.
Jenn fala do meu sorriso, da minha gargalhada, da minha voz cantando, do meu entusiasmo quando descubro algo novo. Ela fala disso como quem descreve algo fascinante e lindo. E, por um segundo, eu acredito nela. Eu lembro de momentos em que rir era fácil, em que falar parecia respirar, em que o mundo, por mais caótico, ainda tinha cor.
Talvez essa seja a parte de mim que as pessoas mais sentem falta quando eu desapareço: a versão minha que se ilumina e ilumina o que toca.
Eu nunca fui previsível. Sou o tipo que fala de sentimentos como se fossem personagens, que vive de metáforas, que muda de humor conforme as cores do céu, E, ainda assim, tem gente que me ama.
Elas me veem como alguém forte, mesmo que eu me sinta frágil e quebrada metade do tempo.
Jennifer me chama de “mulher brilhante”. Anna me chama de “pessoa sensacional”. E eu fico aqui, tentando juntar todas essas palavras e ver se, no meio delas, encontro alguma coisa que se pareça comigo.
Eu sou Thayná, mas às vezes sou Emi pra alguns ou Emilly ou Tatá ou qualquer um dos meus apelidos e pseudonimos.
Sou a que escreve e a que estuda. Sou a que vive e a que imagina. Sou a que tenta se definir e a que se perde nas definições. Sou a que ama o oceano porque ele parece comigo e tenho medo dele pelo mesmo motivo, lindo e assustador ao mesmo tempo. Sou a que acredita no milagre dos encontros, como Jennifer disse. Sou a que ainda quer acreditar que a vida é mágica, como Anna disse.
Eu sou feita de vozes, de ecos, de memórias, de textos, de playlists. Sou feita de pessoas que ficaram, de palavras que ficaram, de sentimentos que se recusam a ir embora.
Tem dias em que eu sou pura fantasia, que acredito em mundos paralelos, em poesia, em finais bonitos. E tem dias em que eu mal acredito que o amanhã vai valer a pena.
Lendo o que elas escreveram, eu percebo que as pessoas me veem por ângulos diferentes, mas todas enxergam algo que eu mesma esqueço: o quanto eu me importo

















