Há muito venho tentando responder uma simples pergunta, que a cada um que me encontra, a martela mais um pouco em minha cabeça. A todo momento em que acontece parece que meu corpo pulsa diferente. Se fosse um desenho animado, todas as peças do meu cérebro estariam rodando freneticamente e fumacinhas sairiam de minhas orelhas, para no final tudo pifar e dos meus lábios sair a resposta curta, mas gentil, "foi incrível".
Provavelmente na primeira vez meus olhos brilharam e havia tanto sentimento na forma em dizer aquilo que talvez eu tenha passado a mensagem correta. Mas hoje em dia, eu só consigo pensar em que raios eu estava pretendendo ao resumir TUDO com UMA PALAVRA. Com todo meu respeito à palavra "incrível", claro. Ela é forte, gostosa de se dizer, nem todos a usam e até causa um impacto em quem recebe. Mas, perdão, descobri que o que sinto não é exprimível, representável, ilustrável, por nenhuma palavra ou expressão vinda de qualquer língua nesse mundo.
Eu lutei muito para encarar essa realidade. Como poderia ser, eu, justo eu, que sempre encontrei conforto em me expressar pelas palavras escritas, que sempre soube bem o que dizer e como dizer, que acho tudo justificável e plausível de uma resolução. Eu, justo eu, fiquei sem palavras. Fiquei sem chão. Assim como quando entrei naquele avião ao voltar. Literal e psicologicamente. Eu saía de uma realidade alternativa e retornava ao filme em preto e branco que julgava minha vida. Nada havia mudado. Até os buracos nas ruas eram os mesmos. As pessoas seguiam com suas mesmas rotinas. Meus amigos falavam dos mesmos assuntos ou então, pior, de coisas que não me interessavam.
O meu luto foi grande, intenso e estressante. Eu havia perdido algo. Um sonho, uma experiência, talvez até eu mesma. Ver minhas fotos daqueles meses até hoje me doem um pouco na alma. Eu sempre acreditei que a verdadeira felicidade se mostra quando sorrimos com nossos olhos. E, meu Deus, como eu era feliz! É como se em toda foto eu me sentisse linda, não pela beleza física, mas pelo sentimento que ela passa. Eu realmente fui muito feliz.
E sabe, é esse verbo no passado que me incomoda. Por que essa mania louca de sempre achar que o que já passou é melhor do que o que estamos vivendo no presente? Eu tenho diversas épocas na vida em que eu daria um rim para voltar e viver tudo de novo. Não quero mudar nada, só ter o prazer de brincar na rua quando criança, de ir aos shows de minhas bandas preferidas na adolescência ou de rir dos meus amigos que não lembram de nada da festa na noite anterior durante a faculdade. Até os momentos ruins me ensinaram o que sou hoje. Aqueles que, como agora, eu reclamava de boca cheia, torcendo o coração para voltar no tempo. Somos muito injustos com nossas vidas.
Percebi que aquela pergunta que me enforcou por tanto tempo poderia ser relacionada a qualquer lugar. Talvez a qualquer situação, evento, momento da vida. E eu que achava que quando começasse a falar sobre ela, desataria a contar todas as memórias que apertam o peito e me fazem querer voltar. Literalmente assim, pegar um avião e partiu. Mas na verdade eu só precisava desabafar o que eu já sabia: eu fui muito feliz. E não sei como continuar sendo.