Pequena Cecília,
bem, pra falar a verdade, eu não sei ao certo como começar isso. É estranho falar com um ser tão pequeno e frágil e que, ainda por cima, mal sabe falar todas as palavras do vocabulário comum. Você está no auge dos seus quase-três-anos-de-idade e logo terá outra visão do mundo: o jardim de infância. Uma ótima fase, devo-lhe adiantar. A escola nessa época é o segundo melhor lugar do mundo - ficando atrás apenas da categoria abraço da sua mãe. Você terá amigos com o mesmo espírito de brincar e colocar na boca qualquer coisa manuseável, com a mesma inocência no olhar e o mesmo espírito de viver. Não importa se é menino ou menina, branco ou preto, portador de alguma deficiência ou seja lá o que for: aos seus olhos todos serão iguais. Que irônico. Uma garotinha que nem sequer aprendeu a ler consegue ser melhor do que todos os outros humanos adultos juntos. Acho que você pode me ensinar muitas coisas, sabe, algo como ser uma pessoa boa e de coração que tem alma de flor. Ou você poderia me ensinar a ser cada vez menos dramática, pessimista e neurótica com o mundo. E, se não fosse pedir demais, talvez você também pudesse me dar um tapa na cara com essa sua mão minúscula e me fazer parar de escrever pra alguém que só vai ler isso daqui há dez ou vinte anos - isso sem tirar a hipótese de que nunca leia. Mas, agora, como pareço já estar na metade do caminho, guarde um conselho que lhe dou de graça: não subestime a vida. Com o tempo você vai descobrir que problema não é ter que decidir entre cobertura de morango ou de chocolate em cima do sorvete. E que decepção não se trata apenas de receber um ‘não’ vindo do seu pai, só porque você queria ir na pracinha brincar no balanço. Principalmente, você aprenderá que dor não é apenas ralar os joelhos ao andar de bicicleta. E que a sua paixão de infância continuará na infância, mesmo que você avance pra outras etapas de desenvolvimento. Essa outra etapa se chama adolescência, conhecida pela maiorias das crianças como a-fase-mais-legal-do-mundo. Pura ilusão. Você vai crescer e se deparar com um mundo totalmente oposto ao que um dia imaginou. Corações partidos, esporte, dieta, vestibular, espinhas, TPM, brigas com a mãe, mesada, crise existencial, dentre outros quesitos listáveis. Sei que tudo isso parece ser um amontoado de palavras desconexas agora: aproveite enquanto nenhuma delas faz sentido. Aproveite enquanto você pode chorar e bater o pé e fazer birra e fechar a cara e, ainda assim, vai sempre ter alguém pra te pegar no colo e calar os teus soluços. Lambuze-se de chocolate, de desenhos animados, de leite na mamadeira. Tudo é permitido. Ou quase tudo, devo ressaltar. Tome banho de chuva, suje-se na terra, deite na calçada da sua casa. Mas lembre-se da regra principal sempre: nunca falar com estranhos. Apesar do seu extinto de curiosidade estar aflorado nessa fase, aprenda desde cedo que não se pode confiar em tudo, nem em ninguém cegamente. As únicas exceções serão, no caso, os seus pais. Sinto que tenho tanto pra te ensinar, assim como tenho muito pra aprender com você. Imagina quando chegar aos cinco, dez, quinze anos de idade? Acho que poderei escrever um livro relatando todos os momentos, as lições e as descobertas que você me proporcionou, sem ao menos se dar conta disso. Nós, adultos, perdemos a essência da simplicidade que vocês, crianças, possuem naturalmente. Crescer é chato e trabalhoso. Nesse pacote de amadurecimento que todos nós precisamos - na verdade, somos obrigados - a passar, está a primeira menstruação de uma mulher, o primeiro beijo, a primeira paixonite aguda, a primeira nota baixa em matemática, a primeira amiguinha chata, o primeiro show sem os pais, enfim, os primeiros acontecimentos que se repetirão pro resto da sua vida. Por mais que eu não seja uma boa pessoa em quem se espelhar, prometo tentar te ajudar quando essa coisa toda de crescer resolver aparecer, certo? Por enquanto, quem se espelha em quem aqui, sou eu. Por mais que soe absurdo, o meu objetivo é ser tudo o que você é agora: pequena, mas, ao mesmo tempo, grandiosa. Ninguém estava lá pra me dizer essas coisas, tipo “aproveite enquanto há tempo” ou “permita-se enquanto o mundo não te repreende”. E é exatamente por isso que te escrevo agora. Eu quero ser pra você o que não foram pra mim.