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serratalhada
nova olinda | cariri 2018
viajo porque te amo volto porque te amo | dia 2
painho | 1980 | 17 anos
cor e fé
16 de novembro 2018
lua crescente em peixes
villa real é o nome do hotel que to hospedada na antiga travessa califórnia que faz esquina com a rua grande ou rua do comércio, a principal rua do centro do crato. saí a zanzar depois de uma prova de figurino coloridíssima como o sertão - gabi e marcela arrasam. adivinha? catei cuscuzeira de peitinho! descobri o shopping popular onde tem uma praça de alimentação deliciosa longe do esquema fastfood-foodtruck-gourmetaria, dessas coisas cafonas das cidades grandes que pasteuriza tudo. parece que aqui tem tradição de comércio desde metade do séc. XIX com a construção dos mercados das frutas, armazéns e a tradicional feira do crato onde tudo se vendia. de perto, muitas panelas de alumínio nos fogões, doze tipos de cuscuz, macaxeira, feijão com macarrão (mistura essencialmente matuta afetiva), letreiros pintados com tinta na parede e fontes de pintores de banner, um arranjo de cor, toalhas de mesa estampadas, rosa, verdinho, vermelho. e cara, em absolutamente todos os boxes tinha um adesivo haddad13. aí depois soube que aqui foi 85% pro professor no segundo turno.
você quer marmita ou merenda? perguntou o batom roxo. logo eu perguntei: qual a diferença?
uma vem com mais e custa 7 reais, a que vem menos custa 6.
eu escolhi a merenda pois sabia que mesmo dela deixaria um tanto. ni qui eu levanto pra ir pagar, uma senhora que tava ao meu lado me olhando e rabiscado um sorriso tímido tinha alguns minutos, com uma marmita vazia na mão, recolhe a comida que me tinha sobrado, tampa sua vasilha com carinho e parte. fiquei de longe vendo a sutileza dela ao fazer todo movimento. silenciosa como o cariri.
é doido não pertencer mais.
hoje acordei com painho me dizendo que veio a juazeiro com vovó joana quando ele tinha 16 anos pra ela pagar uma promessa. me descreveu tudo. que ficou subindo a torre da igreja pela escada caracol pra ver o sino. que vovó ficou horas rezando perto do padi ciço. que vieram em romaria de serra talhada até aqui num típico pau de arara. que todos os caminhões de romeiros ficavam numa espécie de galpão aberto com banheiros comunitários que a prefeitura oferecia. que na igreja tinha uma muralha suspensa que chamava caminho das almas. eles caminhavam sobre ela. fiquei imagino painho aos 16 com os zoião verde e a pele vermelho terra dele, junto a dona joana, com seus cabelos negros escorridos e longos… me fez bem. ainda não fui a juazeiro nessa parte da igreja.. domingo pego esse trem, vovó!
sempre achei muito comovente esse negócio de romaria.. acho que já comentei contigo, amor, que tia vita, anos atrás, falou que tem gente caminha por um mês pra pagar promessa aqui em juazeiro. a primeira vez que fui no morro da conceição no dia da padroeira, chorei copiosamente ao presenciar a fé das pessoas. saquei elas. falamos outro dia no teatro sobre os espaços de catarse. que se tem uma coisa que aproxima fé e arte é essa moça de bochechas coradas e coração palpitante. nem sei distinguir uma coisa da outra. acho que o que me levou pro teatro foi a catarse da fé. ela que preparou terreno aqui dentro pro divino.
hoje tem ensaio corrido no teatro e eu não estarei. é sempre doido não estar. mas continuo me sentindo calma com o vento daqui. porque tem fé que me liga até o rito daí. re-ligados, nós, sudeste-nordeste. tem sempre algo de confuso nos meus textos… se acostumasse, já?
sem mais..
merda!
viajo porque te amo, volto porque te amo
cariri | triângulo crajubar
quinta 15 de novembro, 2018
cheguei
amor,
o crato é a cidade que gonzagão chamava carinhosamente de cratinho de açúcar e princesinha do cariri, princesinha que cresceu aos pés da chapada do araripe ou chapada dos exus pernambucanos. laroiê!.. aproximadamente 136mil habitantes; terra abençoada do padim padi ciço; um oásis em pleno seco sertão porque é a mais úmida das cidades da região e favorece os líquidos semeadores do plantio. a tekoha dos kariris. kari.ri no tupi quer dizer silencioso. é nesse silêncio que deságuo meus pensamentos, a danada mente tagarela. o kariri a recebe, refrescada…
refrescou porque desci e puf! bafo dos mais quentes! baFo com Fzão! num aeroporto que tinha somente um avião no estacionamento, o nosso: GRU-JDO. desci e eis que a paisagem se impôs em poesia surda, estado real. cerca de 27 pessoas no desembarque, todas esperando ansiosamente os que chegavam, como eu. refrescou, ainda, talvez porque eu não tinha ninguém me esperando, então esperei eu, desagoniada. meu bip tocou, atendi alexandre, motorista que estranhou mas não recusou o meu pedido de deixar o ar condicionado do carro desligado. me disse que hoje começa um festival de música na cidade e que vai ter geraldo azevedo na praça pública amanhã. geraldo, deu alaf! refrescou..
ah ser tão tão sem ser sertão…
na quentura da noite pousei emocionada num quarto de hotel barato, emocionada, com a paisagem de brasil que há anos não sentia. tava com saudade, brasil! sou recifense, jaboatonense, sou sertaneja também, de serra talhada, terra de vovô. perto de exu, perto daqui. a caravana me levou pra paulicéia onde vivo misturada de brasis. ê país doido danado! voltei no tempo de relógio, aqui não tem horário de verão, o ano todo é verão. não é como no sudeste que passa por todas as estações definidinhas e o corpo sente cada uma, não! aqui, o corpo tá sempre quente! sempre alerta! um sol de torrar os miolos, seu chico.
não é romântico, amor
é bonito mesmo
e é triste também
é triste porque esse brasil daqui é o brasil maior e não se sabe, não se vê e continuam tentando fazer com que seja invisível. o museu nacional guardava fósseis de diversas espécies cretáceas de dinossauros que foram achadas neste solo daqui. pegou fogo. queimou. mas ele é forte, né, o sertanejo é antes de tudo um forte... há aqui ainda, vivinha da silva, a bacia sedimentar que forma aquíferos em toda região.. águas espalhadas por toda área da chapada, as fontes que há na terra são infinitas! orayêyê o!
é.. que tem força demais, tem! senti pelo axé que recebi no baFo quente, amor. vi na força das linhas das testas. vi na vida lazer dos copos cheios de cerveja e da carne de carneiro com macaxeira no boteco com mesa na rua. verão! é precioso. tem que cuidar.
juntei as camas do meu quarto e liguei o ar condicionado. deitei numa cama só. o outro lado tá aqui do lado. eu não vou ocupar os dois, mas estão juntos. eu inteira dividida em duas metades. uma é o sangue quente correndo rios, a outra é a cabeça livre voando solta.
carta a otto ou um coração em agosto, Paulo Mendes Campos
[Rio de Janeiro, agosto de 1945]
De onde venho, meu velho, para onde vou? Mas nenhum traço de comoção dramatiza minha voz. Estou calmo, lúcido, fumando. Nem careço rigorosamente de escrever uma carta: ninguém me chama, ninguém me espera, ninguém me denuncia. Iluminando melhor, não é o sentimento para que me sevicia, mas os sentimentos intransitivos, os inumeráveis sentimentos que recolho, pescador das almas das coisas, em mil acontecimentos cotidianos, em cada fase, cada gesto, em cada minuto que vem substituir o minuto que foi. Entretanto, tudo é. O coração pesa e se refugia silencioso entre possibilidades e apreensões. Dir-se-ia um coração cansado. Entretanto, meu velho, esse é um valente coração.
Se minha vida se explicasse, amigo, se minha vida se explicasse como as sementes amargas se explicam em flores, haverias de receber por via postal, irmão triste e terno, as consolações mais razoáveis, as palavras arrumadas em sua ordem perfeita e definitiva. As melhores sabedorias desse coração valente. Porque você há de ter notado que os olhos aprendem imagens, mas ensinam palavras. A paciência é o dicionário dos poetas. Meus olhos aprendem o mar; mas a tranquilidade (anestesia do sofrimento) ensinam outras praias, os navios circulando na escuridão, os hipocampos, as algas, a imagem desse gosto de sal, desse infinito de sal.
Irmão e amigo, não posso dizer honestamente que estou só. Meu coração em agosto triunfa sobre seus desertos mais intensamente que em outras temporadas de seu calendário sentimental. Não fosse a maior fatalidade para sombra, de minhas mãos escorregaria o sol e seria week-end em mim. Me lembro pra lhe contar as solidões de abril. Era tanta ingenuidade boba lá fora, tanta luz lavando as folhas, os pássaros, as ideias, mas um conjunto excessivo e inútil, impotente para libertar-me o medo, o vazio acorrentado à minha poesia despaizada. Em abril havia muitas solidões. Eu a possuía em minhas mãos, em meus olhos ávidos, eu a amava suave, e ternamente. E do amor me vinha a solidão, a raiva infinita dos braços lutando contra milícias de bruma, de nada. O amor, meu velho, apaga a tentação dos caminhos, resolve todas as estradas em uma única estrada, inventa a teoria dos olhos, simplificando os tormentos. Não mais os céus implacáveis, mas um céu implacável, desoladoramente azul, o céu desesperadoramente azul de que fala o nosso Mallarmé; não mais de ventos tristes, mas o vento triste, indefinido e triste, melancolizando as galerias mal conhecidas da alma; não mais também as alegrias, mas a única e insofismável alegria, a que envolve os rostos em seus instantes menos solitários ou egoístas. Daí, meu amigo, meu velho irmão, o desespero do amar e a luz fácil e repousante que nos promete. Daí eu ter caminhado do amor para longe, para a rua que desemboca no mar, para o mar que me embarca para as ruas riscadas no dorso das águas.
Meu velho, como se torna difícil explicar as coisas quando a liberdade instala em nós seu reino de incertezas.
Agora, eu preciso distinguir cada céu, conseguir de cada um a intimidade singular, de cada vento devo arrancar o segredo, a confidência, de cada alegria é preciso que eu estabeleça os limites, organizando as paisagens que a compõem, que lembranças me vivem na alma, que tonalidade de luz me cerca, que momentos de tédio ou ansiedade precederam o prazer de colecionar conhecimentos. Agora, irmão, tudo é diferente e nada se repete. E não sei que irremediável fatalidade de conhecer, de distinguir, de aprender a tudo amar ou tudo odiar em sua fase distinta me leva para frente, sempre mais para frente até a incerta fronteira em que o pudor desmente a intimidade das coisas, obrigando as palavras a se dirigirem para os domínios da poesia.
Escute irmão: sou de índole fragmentada e dispersa. Quando não me engole a tragédia, me apaixono a todo instante: uma lembrança, um rosto, uma faixa de areia branca suavizando a visão de edifícios e quintais. A entrega, entretanto, jamais humanizou meus amores. Eu me apaixono pelas possibilidades, isto é, as nuanças, as entregas arrependidas, indecisas ou inconscientes, isso que promete negando ou nega prometendo, tudo isso me encanta e reclama.
Ora, frequentemente acontece que eu tome um ar de imparticipação e ausência. As criaturas costumam acusar em mim o frio, o impassível, o árido. Devo aceitar isso na extensão total de seus compromissos? Devo explicar que atrás do impassível eu me apodero das coisas com voluptuosidade, com paixão? E que, de certo modo, me comprometo e vou ao extremo de tudo quanto me convoca, criando para minha vida um sem-número de derrotas singulares? Olhe, irmão, o que me interessa nas coisas é o que elas poderiam ser. O que me atrai nas criaturas é a disponibilidade, essa linda e trágica espera incessante, esse constante vigiar das tentações, como se torcêssemos pela circunstância, pela pessoa, pelo demônio que viesse (que sempre parece vir) nos arrancar dos trilhos para as cambalhotas da vida. Você há de ter observado, meu velho, um rosto, um olhar disciplinado e intimidado por séculos de civilização burguesa, você há de ter notado que nesses rostos costuma brilhar de vez em quando um anseio esquisito, uma luz que é bem uma sede de pecado, de desconhecido, de desastre. Instantes em que se revela em nós o pagão – o selvagem, o homem que deseja perder a própria vida e não ganhar. Vinte séculos de cristianismo não extinguiram em nós o gosto ácido do desprendimento, o amor impensado pelas coisas do mundo: sol, frutos, fêmea subjugada sobre a relva. Bem, irmão, esses momentos são tudo pra mim.
Quando conheço uma criatura qualquer, meu caro, fico a espiá-la de meu canto, brinco de provocá-la a ver até onde vai e até onde poderia ir. A contemplação do limite em que essa criatura se pertence e deixa de se pertencer, o limiar entre a unidade e a dispersão, a crista que a separa do pecado, a linha divisória que distingo entre o domínio de si mesma e mil possibilidades de ser diferente, enfim, essa fabulosa região limítrofe é o que poderosamente me afasta de pensar em mim mesmo, me afasta de sofrer. Conversando com mulheres me obstino em saber até que ponto me pertencem, ou permanecem ou me odeiam. Quanto de entrega existe entre mim e as pessoas que me rodeiam? Que porcentagens extraio das almas que me escutam? Que espécie de vida viveríamos se ousássemos mais um pouco? Talvez essa lucidez minha seja triste. Mas, mermão, a lucidez é também paixão, e a mais irremediável que eu conheço.
Bem, meu velho, entre essa frase e esta que começo se interpôs um intervalo bem grande. Já não quero rasgar o véu das coisas. Você, amigo, sabe como as coisas são fortes, como são duras quando sofremos, como se vendem quando há no ar qualquer ameaça de sorriso. Agora, no fim de uma tarde cansada, as coisas são neutras, mudas. São coisas – sem emoção, sem planos, sem fantasia, sem outra realidade que a das formas e das cores. O meu passado, por exemplo, não exige nada – é uma coisa. O amor, a amizade, a inquietude deitaram em mim uma resignação de bois parados – são coisas. O vento é uma coisa alva que desmancha o cabelo. O mar é uma coisa azul, enorme e salgada. Possivelmente, será também um convite dissimulado à aventura, a morte ou medida aproximada do vazio. Mas não se sabe – é realmente apenas uma coisa salgada onde à distância os navios vão sem pressa. As flores na jarra não contam nada, não sugerem imagens, símbolos – são coisas. A mesa, o retrato, um divã amarelo, tudo se dispõe na riqueza distraída das coisas. A música da vitrola é uma coisa – triste quando a gente quer. Fechando os olhos sinto que a vida circula por mim e que tenho muitos séculos, mas não choro – sinto que a vida foi um traço pra lá, pra cá, um risco indeciso, uma história em quadrinhos – uma coisa. (Já não peço piedade.) Às vezes, abrem uma janela: na penumbra da vidraça se improvisa um espelho onde meu rosto aparece sem nitidez – mas não me assusto: trata-se de uma coisa que sou eu. A infância perdida, uma coisa.
carta da maú, patrícia galvão
Não escreverei aqui sobre a morte ou sobre mortes. Quero escrever sobre a vida, pois há pequeninas flores sob esbeltas palmeiras, é uma noite com uma certa aragem respingada finíssima e fria e o visitante foi embora depois do Porto de honra em homenagem a... Devo guardar um pouco de modéstia. Lembrar, no entanto, a Visita de Vida que você me fez, com seu livro de notas da escola, os resultados de sua obstinação, depois dos sessenta dias de pregado na cama.
Agradeço,hoje, a Visita de Vida que você me fez e a sua bondade, e os seus olhos, e o seu sorriso de criança. E me fico pensando na vida das naus que partem deste porto de pedra, que se vão para os seus destinos pela costa, pelas enseadas, um amor em cada porto, um porto em cada trecho de areia, e o sonho que perseguem com suas velas brancas abertas ao vento, brancas velas de alvíssimas aves, o olhar audacioso bicando a cortina distante do horizonte. O mais, sim, o mais é a viagem.
Os ventos brancos que enfunam a esperança, a quilha que corta rápida e ligeira, a asa que agora descansa flébil sobre esta parede de vento e vai deixando levar pela onda e pelo espaço varrido, ondulado. Quem bate? Certamente é você de novo, com suas notas da escola, seu amor, seu coração e seu carinho no olhar de visita da Vida. Obrigada. Não foi agora que você veio, mas apenas a sua lembrança. Um Porto de honra, pois, ao seu esforço e `a sua serenidade.
Rasga essas ondas, vai, cheios de ares importantes de verdade, mas simples no gesto tão amigo, que eu não esperava de você tanta felicidade, minha criatura.
O mais, o mais é o estouvamento e o contraste de todos os encontrões pela rua. A mulher que ficou sozinha no apartamento do Flamengo e pensavam que tinha ido viajar. O corretor que...
Não, não quero falar de morte, hoje, pois houve uma grande visita da Vida, e uma visita de ramos de rosa pela testa olímpica, gentil, serena, fagueira. É noite e desejo para o seu sono e o seu descanso todas as aragens silenciosas da terra, as mais leves aragens, uma suave luz azul, um embalo de mar que nem uma berceuse, oleosa, sem ondas e sem dores. Recebe as minhas mãos molhadas desta água do meu mar represado nestas pálpebras, recebe-as, a essas mãos, sobre os cabelos noturnos com que dorme essa cabeça, meu filho. - Pt.
a noite é um grande mar
patriarcado
substituir
eusouhomem
por
quehomemqueroser
substituir
sermulheré
por
amulherquesou
porque não se sabe
não me matem
não me vinculem aos meus amores
sim, eu os amo
mas eu sou eu
antes deles
eu já era eu
já havia eu
eu não sou o q
um amor é
meu amor é.
mas eu
sou livre
e amor
de mim.
o que dá pra por fora da cabeça
o que dá, o domingo, uma alma espremida
o que desce pelos rios de dentro de mim
e aterra.
tenho um quê de bege, as vezes
de nude.
miúda
de saudade
moída
ariana
instante eterno
amor e vento
e a epifania do tempo
dilatado no agora
que é só
instante
presente
sem tempo, dadivoso
só corpo
e eletricidade
no agora da ethernidade
que amanhã será ontem
mas sempre vivente
o universo organismo
e suas galaxias
e suas estrelas
eterno presente
e os espaços que brilham
ofuscantemente
entre.
a minha paixão
pelas coisas é
o que me mantém
viva
e
nesse mundo
sendo eu
o mundo
e o mundo
eu
Gui e as tardes de violao..