Porque justamente ele? Ele era um vagabundo, ordinĂĄrio. Um lindo ordinĂĄrio. O jeito de andar era despojado, jogado. Era verdadeiramente um charme. Arrogante, estressado, idiota, com aquele olhar cativador, aquele sorriso de lado, que era assustadoramente perfeito. Perfeito. Mas porque ele? NĂŁo poderia ser o filho do açougueiro? Do padeiro? Do pedreiro? Mas era ele, aquele retardado, bobo e chato. AtĂ© o jeito de falar era diferente, cheio de gĂrias, palavrĂ”es. PalavrĂ”es atĂ© mesmo desconhecidos por ela. Porque nĂŁo podia ter sido uma garota normal? E gostar de um garoto bonzinho, estudioso, bonito apenas. Sem aquele olhar tentador, aquele charme absurdo. E aquela pegada que ninguĂ©m mais tem. Arrepiou-se. Como ela podia gostar de alguĂ©m como ele? NĂŁo fazia nada pra agradar ninguĂ©m. Preguiçoso, estĂșpido, aquele tipo que nĂŁo levava desaforo pra casa. NĂŁo era o tipo dela. Arrumada, maquiada, com suas roupas de marca. Perfumada, educada, toda perfeita. Ele era um vagabundo. âDeveria ter ouvido mamĂŁe, nĂŁo fique com ele!â, discutia com si mesma em pensamento. Com raiva, levantou-se da cama. Olhou novamente para ela, nĂŁo iria retirar aquilo dali. Ele colocou, ele que a tirasse. Mas quantas vezes ela teria que falar? NĂŁo podia ser ao menos organizado? Atento e menos chato? Ele nĂŁo era nada disso, ele era chato, e ao mesmo tempo carinhoso, mas nĂŁo deixava de ser chato. Mas ela adorava isso. Sorriu abertamente, deixou-se aprofundar os pensamentos. Lembrou-se de quando ia ao seu apĂȘ, aos finais de semana, e ao chegar estava tudo jogado pelo chĂŁo, desarrumado, nĂŁo sujo, mas desarrumado. Ele era desorganizado! Riu ao lembrar-se de como ele ficava desesperado quando ela chegava de repente e encontrava aquela bagunça toda, e ele catava tudo desesperadamente. âAgora nĂŁo, tudo sou eu!â , pensou novamente, cruzando os braços. Era absurdamente desorganizado e chato. Um bico abriu-se em sua face. Respirou e sentou-se novamente na cama. Mas era dele o seu amor, foi com ele que viveu os momentos mais felizes de sua vida atĂ© entĂŁo. TĂŁo diferente dela, ele a completava. Era ele seu porto seguro, seu protetor, o mais chato de todos, mas era ele, quem lhe dava conselhos _ âque sĂŁo uma porcaria!â , pensou aceitando os fatos, para logo sorrir. NĂŁo podia reclamar tanto assim. Deixou de se lamentar pela estupidez do amor, ela haveria de aceitar. A gente nĂŁo escolhe quem amar. Ela o amava, olhou novamente para lateral da cama, levantou-se e recolheu o que tanto odiava. Todo santo dia era assim. Era aquela bendita toalha molhada sobre a cama. Sorriu. Afinal, sempre sonhou com isso. NĂŁo com a tolha molhada, mas em estar casada com ele. Dividindo o mesmo teto, o mesmo quarto, a mesma cama. Sabia que seria assim, entĂŁo sorriu. Ele poderia ser o cara mais desorganizado do mundo, o mais chato, o mais besta, o mais imbecil, mas era o amor da vida dela.