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祝日 / Permanent Vacation
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@dila-cerar
drew wilson
Existência.
Passei anos achando que a vida estava em outro lugar. Na cidade para onde eu ainda não fui, na praia que nunca conheci, na versão de mim que acordaria um dia sem medo, sem cansaço e sem essa sensação constante de estar chegando atrasada para alguma coisa.
Enquanto isso, os dias passavam.
E eu nem percebia.
Porque a gente cresce acreditando que vai reconhecer a vida quando ela finalmente chegar. Como se ela viesse acompanhada de algum sinal inequívoco. Uma grande oportunidade. Uma mudança definitiva. Um acontecimento capaz de reorganizar tudo.
Mas a vida raramente entra pela porta da frente.
Ela acontece enquanto você lava a louça pensando em outro lugar. Enquanto espera o ônibus. Enquanto responde mensagens sem vontade. Enquanto faz contas para descobrir se o dinheiro chega até o fim do mês.
Eu demorei muito para entender isso.
Talvez porque sempre tenha existido uma parte de mim olhando para longe. Eu queria conhecer o meu país inteiro. Pegar estrada sem destino. Ver praias novas. Fazer trilhas longas. Dormir em lugares desconhecidos apenas pelo prazer de acordar em outra paisagem. Existia em mim uma fome quase ingênua de movimento, como se mudar de cenário pudesse salvar alguma coisa aqui dentro.
Eu acreditava que a vida acontecia longe. Depois da próxima cidade. Da próxima viagem. Do próximo horizonte.
Mas sobreviver ocupava espaço demais.
O dinheiro mal dava para o aluguel, para os boletos, para sustentar uma existência minimamente organizada. Então fui adiando. A viagem ficou para depois. As trilhas ficaram para depois. O mar ficou para depois.
Eu fiquei para depois.
E existe uma diferença cruel entre amadurecer e simplesmente abandonar partes de si para conseguir sobreviver à própria vida.
Talvez por isso eu tenha passado tanto tempo sentindo que estava sempre a caminho de alguma coisa. Como se o presente fosse apenas uma sala de espera entre quem eu era e quem eu finalmente me tornaria.
Mas o problema de viver assim é que você passa tanto tempo esperando a vida começar que não percebe que ela já está acontecendo.
Aqui. Agora. Nesse corpo cansado. Nessas vontades que resistiram. Nessa saudade de lugares onde nunca estive.
Nessa mulher que continua sonhando com o mar mesmo quando está ocupada pagando contas.
Hoje ainda olho para longe às vezes. Ainda acredito que existe alguma coisa me esperando depois da próxima curva. Mas, de vez em quando, consigo ficar.
Só ficar.
Sentar no meio de um dia comum e observar a luz mudando de lugar dentro da casa. Escutar o barulho do ventilador. Sentir o peso do próprio corpo ocupando espaço no mundo.
E nesses momentos raros, quase sem querer, percebo que passei tanto tempo procurando a vida que não vi que ela já estava aqui.
Não na próxima cidade. Não na próxima versão de mim. Aqui.
Nesse instante imperfeito, incompleto e comum. Talvez seja isso que a Existência tenta ensinar.
Que a vida nunca esteve me esperando do outro lado do horizonte. Era eu quem precisava parar de partir para conseguir encontrá-la.
- Aquarius, 1998.
@rodrigo_lopes_escritor
O Louco.
Eu costumava ser o tipo de pessoa que assustava os outros sem perceber.
Ria alto demais. Falava demais. Sentia tudo num volume meio insuportável. Entrava nos lugares como quem ainda acreditava que a vida podia acontecer ali, naquela mesa, naquela conversa, naquela madrugada específica. Existia uma pulsação violenta dentro de mim, uma urgência difícil de explicar. Como se eu estivesse sempre atrasada para alguma coisa invisível.
Eu fumava na janela pensando em quantas vidas ainda dava tempo de viver antes dos trinta. Queria conhecer o meu país inteiro. Pegar ônibus sem saber direito onde terminava a viagem. Dormir perto do mar. Fazer trilhas longas até sentir o corpo doer de um jeito honestamente humano. Eu olhava fotos de praias escondidas como quem olha para uma realidade paralela onde eu talvez tivesse conseguido me tornar alguém mais leve.
Eu acreditava muito em partir.
Talvez porque ficar sempre tenha me parecido uma maneira lenta de morrer.
Havia também o caos, claro. Os excessos. As noites em que eu me destruía só porque não sabia o que fazer com tudo que existia dentro da minha cabeça. Eu não buscava intensidade. A intensidade simplesmente me acontecia. Como febre. Como enchente. Como alguém tentando sobreviver dentro da própria mente sem manual de instrução.
E, honestamente? Às vezes era exaustivo ser eu.
Mas pelo menos eu estava viva.
Aí a vida foi acontecendo daquele jeito pouco poético que ela acontece para quase todo mundo. O dinheiro começou a faltar antes do fim do mês. Vieram os boletos, o aluguel, o cansaço acumulado, a percepção humilhante de que sobreviver ocupa um espaço absurdo da existência. E sem perceber eu fui deixando tudo para depois.
A viagem ficou para depois. As trilhas ficaram para depois. O mar ficou para depois. Eu fiquei para depois.
Porque existe uma diferença cruel entre amadurecer e abandonar a própria vida para conseguir sustentá-la.
Hoje sou uma pessoa funcional. Responsável. Alguém que responde mensagens, paga contas em dia e sabe exatamente onde o perigo começa. E talvez seja justamente esse o problema. Eu me tornei cuidadosa demais. Controlável demais. Como se alguma parte minha tivesse aprendido que sentir alto era perigoso e precisasse ser mantida sob vigilância.
Tem dias em que caminho pela casa e sinto que estou assistindo à minha própria vida de longe. Como se eu tivesse me tornado espectadora de uma mulher que um dia quis o mundo inteiro e agora comemora quando sobra dinheiro no fim do mês para pedir comida sem culpa.
E isso me assusta mais do que todas as antigas versões caóticas de mim.
Porque antes eu desmoronava. Agora eu desapareço aos poucos. Em silêncio.
Sem atrapalhar ninguém.
- Aquarius, 1998.
Rebeca Fleur Trick or Treat