And you know, we're on each other's team | Kendra & Dirk
Ela estava tão, tão nervosa. Kendra mal podia conter a tremedeira em suas mãos, coisa que sempre acontecia quando sua irritação chegava a níveis cavalares. Raramente acontecia. Na verdade, basicamente, só acontecia em uma ocasião e ela estava bem na frente dela, sendo tipicamente… Bem, tipicamente nada. Porque o típico de Dirk não era ajudá-la, ou oferecer palavras de conforto e muito menos jogá-la na parede a fim de salvá-la de cometer um grande erro (coisa que Kendra só ia ponderar sobre ser um erro mais tarde quando estivesse de cabeça fria, mas era). Então ela não conseguia entender. Porque ele estava ajudando?! Dirk não podia nem odiá-la como uma pessoa horrível e ser um pouco ruim por isso, até a odiando ele conseguia ser melhor - É sempre sobre eu não ser tão inteligente quanto vocês, e você sabe disso! - Kendra gritou, sem a menor pretensão de ser discreta. Ela e Dirk eram conhecidos por batalhas de gritos no salão, na sala de aula (quando ela ainda ia à aula), nos corredores, até uma vez que ela fora no dormitório falar com Benjy e tivera uma discussão ali mesmo com Dirk. E ela duvidava que alguém fosse entrar num corredor vazio só pra parar uma briga dos dois - Claro que você não é o vilão, você nunca é o vilão porque você é perfeito! - Kendra exclamou, sem os comentários velados, sem cochichar, sem guardar o que pensava no mais profundo de sua mente, sendo pela primeira vez tão direta sobre como se sentia sobre Dirk, e melhor, porque se sentia assim.
- Talvez eu devesse ter ido, então! - Exclamou exausta daquela discussão sem sentido. As discussões com Dirk sempre perdiam sentido uma hora ou outra, e chegava um momento que ela nem se lembrava mais porque tinha começado. E tinha a impressão que nem ele, mas nenhum dos dois ia parar até ganhar - Talvez eu devesse ter assumido o risco não calculado e deixar Macnair me jogar da torre da astronomia, por que que diferença ia fazer?! - Sentiu um aperto característico na garganta, e uma ardência leve nos olhos que indicava que ela ia começar a chorar e isso não era bom. Porque Dirk Cresswell não veria seu ugly crying mode nunca - Se eu desaparecesse agora, eu tenho certeza que ninguém ia notar. Exceto você, que ia dar graças a Deus - Riu pelo nariz, em tom de deboche.
- Eu não vejo seu lado ruim, eu procuro o seu lado ruim! E olha, não está sendo muito fácil, se quiser me ajudar com isso eu aceito - Kendra prensou seus lábios um no outro, e tombou a cabeça para trás, encostando-se na parede para recuperar as forças e voltar a gritar. Mas seus pensamentos ainda estavam presos na frase anterior de Dirk. Ele se importava se ela desaparecesse? É, claro que se importava. Quem mais ele ia poder ficar importunando? Kendra ocupava uma boa parte do dia de Dirk, e ele do dela, e ela só havia percebido isso agora. Gastava pelo menos uma, as vezes duas horas implicando com ele entre pausas pra conversas pacíficas em tom ácido (o único que os dois conheciam um para o outro), e ainda dividiam o salão e os amigos. Abriu a boca para rebater o argumento dele, mas nada saiu. Era sempre tão automático responder Dirk, por que nada vinha em mente? E ele ficava gritando, o que deixava as coisas ainda mais difíceis de entender, porque ele nunca gritava. Era sempre ela. E a ideia de que Dirk se sentia só um nascido trouxa normal nunca nem havia passado por sua cabeça. Na verdade, como Dirk se sentia nunca fora algo em que pensara muito - Eu sinto falta do meu celular. O sinal aqui é horrível, nunca entendi como usar - Disse de repente, franzindo a testa. Talvez ele se sentisse como ela. Amava o mundo bruxo, mas sentia falta do mundo trouxa e achava que ninguém o entendia por isso. Kendra não tinha nada a perder, mesmo - E do meu facebook. Eu gosto de redes sociais, o que você acha delas? Aliás, não tem nada a ver, mas você dirige? - Perguntou, voltando-se para Dirk - Eu dirijo muito bem, se você quer saber - Sorriu fraco, quase que imperceptivelmente, mas Dirk saberia porque ele nunca nem havia visto sorrir de verdade para ele. Era sua forma de oferecer uma trégua. Se ia ser duradoura ou não, era outra história.
Dirk e Kendra já haviam discutidos inúmeras vezes, mas o fato da discussão ter começado com uma tentativa do menino de salvá-la o deixava completamente frustrado e esgotado daquilo. Ele sempre tivera a certeza que o esporte favorito de Kendra era ver e exibir todos os seus defeitos, contudo como todas as outras certezas que ele costumava ter em sua vida, ela acabara de mostrar o quão ele estava enganado. Não conseguia acreditar que a morena acreditava mesmo que ele era perfeito, talvez o que os trouxas chamariam de Ken Humano, nunca havia passado pela sua cabeça que ela tentava procurar seus defeitos por não conseguir ver nenhum na maior parte do tempo. Não a culpava de forma alguma, na verdade talvez culpasse mais a si mesmo do que os dois em conjunto por aquilo que ela pensava dele, pois era um reflexo daquilo que ele mostrava à ela todo o tempo. Nunca dera abertura suficiente para que ela conseguisse ver algo bom dele ou até mesmo pensar que ele era capaz de realizar tal ato, os dois passavam a maior parte de seu tempo brigando e quando não o faziam estavam se ignorando ou até conversando com várias provocações. Por isso, quando Kendra abandonou a discussão e começou a conversar normalmente Dirk achou que tinha ficado louco e sua mente estava reproduzindo cenas impossíveis.
“Eu acho que essa é a ideia. Imagine quantos problemas a mais Dumbledore ou os professores teriam se o sinal fosse incrível, até os eu-odeio-coisas-trouxas iriam se sentir tentados a usar um celular.” Sua voz saia meio desconfiada pela repentina vontade de trégua da menina, o loiro esperava que a qualquer momento ela voltaria a gritar com ele. “Eu nunca fui muito ligado com redes sociais, mas até que gosto de usar já que é bem mais prático que uma carta. Isso deveria ser algo aproveitado, sabe? A facilidade de se comunicar no mundo trouxa é incrível.” Respondeu um tanto quanto pensativo ao imaginar como seria se realmente aceitassem a ideia. “Dirijo sim e gosto muito, claro, não é nada como estar em cima da vassoura, mas é bom também. Aposto que dirige sim, só espero que não seja estressada no trânsito. Pior coisa que poderia acontecer.” Aos poucos sua guarda ia baixando e Dirk sentiu-se extremamente tocado pelo sorriso fraco de Kendra, era o primeiro que ele via em seis anos e respondeu com outro em direção a ela. “Você, por acaso, assistia ou gostava de futebol? Eu sinto falta de ver os jogos, ás vezes. Acho que é bem típico de qualquer menino nascido-trouxa.” Riu brevemente de si mesmo por ter trago futebol à tona, patético, já passara tanto tempo no mundo bruxo, mas ainda se parecia tanto com um garoto trouxa comum.















