alto, quem vem lá? oh, é emilia montenegro di savoia, a princesa / rainha consorte da itália de vinte e oito anos, como é bom recebê-la! está gostando da frança? tenho certeza que será muitíssimo bem tratada por nós aqui, sendo tão animada e disposta. só não deixe transparecer ser emotiva e sarcástica que sua estadia será excelente. por favor, por aqui, estão todos lhe esperando!
Emilia teve a sorte de vir de uma família com boas condições, boas terras e bons títulos. Nunca enfrentou dificuldades nesse ramo, embora não pudesse dizer o mesmo quando o tópico era afeto —não só de seus pais, mas de todos ao seu redor. Por mais que se esforçasse, não parecia compreender o que havia em si que impedia que os outros a amassem, mas decidiu que não se importava: tinha à si mesma e se amaria mais do que qualquer um deles.
Sua autossuficiência tinha limites, é claro, e por mais que houvesse sobrevivido anos e anos sem depender de outras pessoas, queria provar para sua família — e para si mesma — que era capaz de conquistar o amor de alguém, vendo na Seleção italiana a oportunidade perfeita para isso. Com o passar dos meses, parecia ter adentrado um sonho infantil de contos de fadas, a proximidade com o príncipe (e futuro rei) apenas intensificando a cada momento passado juntos. Cada olhar, cada toque. Talvez por isso, não se surpreendeu quando foi sua escolhida, preenchida pelo orgulho de seu feito e pela felicidade de ser reconhecida pelo que era, finalmente.
Infelizmente, seu final feliz durou bem menos do que esperava. Assim que os primeiros meses do casamento passaram, ficou evidente que tudo era uma grande farsa e Emilia era a única, possivelmente, a não ter enxergado desde o primeiro momento. Brigas se tornaram frequentes pelos corredores do castelo, muitas sobre as mulheres que deixavam o aposento do marido com roupas bagunçadas e cabelos desgrenhados. Depois de certo ponto, qualquer mínima inconveniência era o suficiente para estourar a bomba entre eles e Emilia passou a ser vista como inconsequente, mimada, egoísta por toda a família real. Precisava deixar de ser tão imatura, era o que diziam, não era o fim do mundo!
Mas, ao contrário do que esperavam, recusou-se a abaixar a cabeça para tê-la decepada pela lâmina real. Quando achavam que tinham-na sob controle, Emilia mostrava que não orquestrando algum grande evento que o devolvia para si. Se o protocolo era evitar abordar certos tópicos em entrevistas, fazia questão de mencioná-los toda vez. Se tentavam lhe proibir de fazer aparições públicas, confirmava ela mesma sua presença em eventos beneficentes. Com a pressão aumentando cada vez mais, passaram a pintar-lhe como instável para a mídia, afirmando que estavam buscando tratamento para que voltasse a ser a rainha amável que conheceram em primeiro lugar.
A viagem para a França tinha como objetivo, para a família real, tirá-la do foco midiático e abafar todos os últimos meses da melhor forma possível. Para Emilia, no entanto, tinha um propósito ainda maior: denunciar como o sistema de Seleção era uma farsa e apenas uma falsa fantasia de ser mais democrático, romântico até. No final do dia, o casamento continuava sendo apenas uma farsa, um show a ser mantido aos olhos do público e queria que todos soubessem antes que outra pobre menina acabasse no mesmo lugar que ela, infeliz e abandonada pela família que prometeu lhe acolher.












