– Por que ontem fez frio aqui desse lado do peito e hoje está fazendo calor? – Perguntou ao avô, que fez olhar desconfiado cheio de história pra contar.
– Acontece que ontem os passarinhos cantaram diferente, as árvores dançaram de outra forma e as folhas rodopiaram no sentido contrário.
– Como assim, vô? – coçava a cabeça o menino.
O velho senhor de mãos trêmulas afagou a cabeça do neto e com um olhar de ternura começou a lembrar de tempos antigos.
– Quando eu era da sua idade, meu filho, corríamos descalço por aí, enfiando o pé em caco de vidro, desenhando com vareta no chão, fazendo guerra de torrão de terra e endiabrando a vida dos outros. Ah, coitadas de nossas mães!
Era 1937, na rádio tocava Carmen Miranda, Francisco Alves e Orlando Silva. Eu mais vivia na roça do que na cidade. Adorava pular com os sapos, prender vaga-lumes em copos, cortar ramos de cipó e pular para o outro lado do riacho. Lá no mato os cachorros eram praga, tinha uns quinze... mas de todos eles o que me acompanhava era o Gude, vira-lata cor de rapé e de olhos azuis como o oceano. Magrelo que só! Mais esperto que ele? Nem Deus! Uma vez Gude matou uma cobra sozinho só para me proteger. Ele me ajudou a subir no morro mais alto, latiu até que eu conseguisse subir no topo do pé de manga e correu atrás das galinhas comigo incontáveis vezes. Eu amava Gude mais do que qualquer amigo no mundo.
Naquela época era tudo rigoroso, tudo tinha que ser certo, tudo tinha seu lugar, mas papai e mamãe nunca conseguiram me colocar nos eixos, eu escorregava mais do que pedra-sabão! Talvez porque dos irmãos eu era um dos mais novos e enquanto os mais velhos clamavam por outro tipo de atenção eu só queria correr. Dos meus irmãos os que mais me fizeram companhia foram Júlia e Pedro José, pois se aproximavam em idade. Nós gostávamos de jogar pedra no rio e comer melancia sentados na janela que dava de cara pro quintal, de onde eu jurava que dava pra ver a imensidão do mundo. Lembro que um dia inventamos de catar grilo no meio da grama e os guardamos no baú de bonecas de Júlia. Depois de dois dias as bonecas estavam todas manchadas e feias, Júlia aprontou um berreiro tão grande que P.J. e eu apanhamos e ela nem levou parte da culpa. No outro dia já estávamos catando grilos de novo!
De todas as boas memórias que tenho daquele tempo, talvez a que mais me doa de saudade é olhar para aquele gigante pé jacarandá no meio do nada. Era ele sozinho e mais ninguém em metros de distância. Não importava se ele estava florido, apenas com folhas verdes ou pelado, ele me acolhia em todos os momentos, mesmo quando sua sombra era da finura de um dedo. Durante a noite eu fugia praquele lugar, deitava no galho mais confortável e sentia a noite me abraçar, as estrelas eram meu cobertor e a lua a mais bela obra de arte. Os animais fazendo barulho em sua própria harmonia, compondo canções que homem algum jamais conseguirá. Tinha cheiro de terra e de brisa que acalenta. O sentimento era aquele quentinho no peito que chega fazer chorar. Era esse meu pé de jacarandá.
Nos anos que se seguiram fui crescendo como acontece com todo ser que vive neste chão, os tempos foram mudando e a músicas que tocavam na rádio se tornando desconhecidas... fui aprendendo as dores de ser quem sou, conhecendo gente que cativa e que vai embora, fazendo viagens e conhecendo lugares que deixam saudade, conhecendo mais gente e respirando novos ares, dançando, festejando, desandando e desabando em angústias aqui e ali, mas continuando! Em todos estes momentos nunca me esqueci do roxo das flores daquela árvore e do sentimento de paz que ela me trazia. Aprendi que nos desandares dessa vida há sempre o que vai nos fazer bem, não importa onde. Um dia olhando pelos cantos percebemos o que vale a pena guardar, o que vale a pena integrar e os gestos que demonstram mais do que palavras e que merecem ser guardados ternamente. Tudo que consegue me fazer lembrar do céu cobrindo meu corpo naquelas noites no meio do nada eu levo comigo! Eu agarro e levo comigo! Não dá pra deixar ir embora, senão a gente sofre de amargura para sempre.
Quando terminou de falar, o velho senhor de bigode estava com lágrimas nos olhos, mas com o sorriso do tamanho do mundo... e o menino, sem entender, perguntou:
– Como assim, vô? E o calor e o frio?
– Ora menino! Não acabei de te responder? – disse o senhor, soltando a mais alta gargalhada do mundo.