And I wish I could run to you // @JerleyEpherd
Há quem diga que as pessoas escutam música para passar o tempo, há quem diga que escutam para se sentirem inspirados, mas, naquela noite, a música que Jeffrey Shepherd escutava era simplesmente uma lembrança do que foi uma das melhores noites de sua vida.
Estava sentado no sofá da sala, com uma taça de vinho tinto na mão, havia sido um dia complicado e ele novamente tivera de lidar com tudo com aquele sorriso aberto demais para alguém reclamar. Mas, agora…Bem, agora ele estava sozinho. Podia afogar a frustração do dia, se sentir chateado ainda pelo que um de seus colegas havia dito em um jantar do trabalho, podia se sentir irritado pelo fato de nos últimos meses sua vida inteira ter ido por água abaixo, no entanto, o que Jeff realmente sentia agora era uma leve nostalgia, misturada com o gosto do álcool.
Aquela casa parecia gigante quando ele estava sozinho dentro dela, o que era uma pena, já que ele passava a maior parte do tempo sozinho. O eco do lugar espaçoso fazia a voz de Jack Johnson parecer mais alta enquanto ele cantava Upside Down, ou talvez ela estivesse alta demais apenas na cabeça de Jeff. Aquela música em especial o fazia lembrar de Harley, era a música que tocava quando ele a pedira em casamento, num pub de New York, devia ser um vinte e cinco de março ou coisa parecida.
Sem pensar duas vezes, Harley Edwards era a mulher mais bonita daquele lugar inteiro. Qualquer um que estivesse ao lado dele poderia ser considerado o cara mais sortudo do mundo, bem, Jeffrey Shepherd era o homem mais sortudo do mundo aquele dia. Ele estava lá com sua camisa de linho branca, as mãos enfiadas nos bolsos como tinha com frequência e o sorriso mais bobo que alguém poderia ter e ela? Ela dançava ao som de Jack Johnson como se fosse a última coisa que faria na vida. E talvez, sem parecer exagero, se aquela realmente fosse a última coisa que faria na vida, Jeff estaria feliz em poder estar do lado dela.
Os olhos, o cabelo, o vestido preto e os lábios vermelhos de Harley, você não poderia acreditar se não visse. Ela era como…Ela era como um personagem de livro que mente humana nenhuma poderia criar, ou pelo menos era assim que Jeff a via enquanto a garota tentava lhe puxar pelos braços para dançar enquanto ele apenas recusava a proposta com alguns selinhos.
-Qual é, Captain? Vamos dançar. – ela brincava com os quadris mantendo um sorriso nos lábios se aproximando dele.
-Farei isso quando desenvolver minhas habilidades com dança, sweet. Acho que deveríamos ir lá para fora. O lugar aqui é meio barulhento. – ele falava passando a mão no cabelo. – Devíamos ter ido no restaurante que eu falei…está tão cheio aqui.
-Jeff, será que você pode parar de reclamar um pouquinho? – ela fez um bico sutil. – Todo mundo está aqui, o que tem de tão ruim com o lugar estar cheio?
-O fato de eu não poder me ajoelhar aqui.
-E por que diabos ia querer se ajoelhar aqui?
Jeff deu um passo a frente e encheu o peito de ar, aquele devia ser o refrão de Upside Down e o auge da coragem dele aquela semana.
-Porque é isso que os caras fazem quando vão pedir as namoradas em casamento. – falou como se fosse algo comum, tirando uma caixinha preta do bolso e a abrindo, expondo o solitário de ruby. – Eu queria fazer isso em um lugar reservado, não tão cheio onde eu conseguisse me concentrar nos seus olhos e eu achei que não conseguiria fazer isso em um lugar lotado. Mas, a verdade é que eu estava errado, Harley, eu consigo me concentrar nos seus olhos mesmo aqui, porque eu não consigo ver mais ninguém quando estou com você e talvez eu esteja me precipitando, talvez isso seja loucura e um tiro no escuro mas, você quer saber? Não acho que eu possa passar mais um dia sem gritar por ai que você é vai ser minha esposa então…Eu seria o homem mais feliz do mundo se você me desse a honra de mudar seu último nome.
Jeff conseguia lembrar exatamente do momento do sim, como os lábios dela se abriram em surpresa e depois aquele sorriso incrédulo se abriu, tão espontaneamente que era como uma ação involuntária. Aquela foi uma noite memorável, tanto que anos depois o médico ainda não conseguia esquecer. A verdade é que Harley fora uma parte grande e feliz de seu passado, mas, era passado e ele tinha de superar aquilo.
O telefone tocou tirando Jeff do seu transe, ele tateou o sofá um pouco tonto e olhou a foto de sua ex mulher na tela, engraçado como é força de pensamento, não?
-Ei… O que houve? Alguma coisa com a Alice. – perguntou um tanto preocupado assim que atendeu o telefone.
-Não…Jeff, não é nada com a Alice. Eu só… Estou indo com ela para Hamptons esse fim de semana, tudo bem por você?
-Claro…Mas…Aconteceu alguma coisa?
-Sim, aconteceram muitas coisas nos últimos tempos mas, não é sobre nada. É só…Eu quero conversar com você. Preciso falar com você.
Harley Edwards ainda tinha aqueles olhos claros e a clássica Chanel, ela usava a mesma blusa que naquela noite, e ele conseguia se lembrar perfeitamente daquela noite, do rosto dela naquela noite. Devia estar escuro e era perto das duas da manhã, ele ainda conseguia se lembrar do cheiro da chuva ainda fresca sobre o pavimento e de todas as palavras que ela sussurrou. Agora eles estavam ali, sentados naquela cafeteria aconchegante dos Hamptons, encarando um ao outro como se nunca tivessem acontecido todos os gritos, todos os adeus, como se não fosse estranho nem perturbador estar naquele silencio.
Ela arrumou os cabelos loiros os prendendo em um coque, antes de tomar mais um gole do seu frapuccino, ele mantinha os olhos sobre cada um dos movimentos dela, esperando que em alguma hora a mulher que o olhava, finalmente quebrasse o silencio, mas, isso não aconteceu e ele teve de ser o primeiro a falar.
-Então…Harley, disse que queria conversar comigo, mas, até agora…você não falou muito. – Jeff estava um tanto apreensivo quanto ao que viria a seguir. A mulher tomou um outro gole de sua bebida e então a colocou de lado, focando apenas no homem.
-É um pouco complicado falar sobre isso, Jeff, porque você me conhece e sabe que eu sou um pouco orgulhosa demais. Mas…Eu posso ter cometido um erro, você sabe…Quando falei aquelas coisas sobre você. Distancia, tempo, quebras e brigas, eu estava um pouco confusa sobre tudo, nós estávamos distantes e eu posso ter me precipitado sobre todas as coisas, sobre esse divórcio. – Harley não desviou os olhos, como normalmente faria. Aquilo era difícil para ela, admitir que poderia estar errada, que poderia ter dado um passo largo demais sem pensar, que poderia estar arrependida, mas, a verdade é que depois de todo o silencio desses meses, ela tinha pensado bem.
Jeff balançou a cabeça negativamente, torcendo para ele ter ouvido errado, mas, ele tinha certeza que não. Os lábios agora prensavam um contra o outro e havia muitas coisas que ele queria dizer, como por exemplo que por muito tempo ele realmente tentou, que meses atrás ele teria voltado sem pensar duas vezes, mas, agora não.
-Você disse que o passado está no passado, que não há um motivo para insistir nas coisas que não funcionam mais, Harley…Acho que está confusa agora. Talvez você não esteja pensando bem no que está falando…Sabe quantas vezes me disse para ir embora? Bem, foram muitas. – Quinze para ser exato, isso tudo em uma noite só, depois de ele ter feito a cirurgia mais complicada de sua vida.
-Sim. Mas, você deveria ter ficado, me mostrado que eu estava errada. Jeff, eu senti sua falta, eu sei que você sentiu a minha também, não podemos tentar consertar isso? Eu não estou dizendo que quero que volte correndo para mim, mas, você e eu sabemos onde é sua casa. Podemos consertar todas as coisas que estão erradas, eu posso tentar ser paciente e você pode tentar por sua família no topo da sua lista de prioridades. – Ela falava com o tom calmo, no entanto um pouco aflito. Ele não sabia exatamente como lidar com aquilo, pelo menos não por hora, quando sentou naquele café com Harley, esperava muitas coisas, mas, aquilo não estava nos seus planos. Então ela achava que podia simplesmente chegar e jogar tudo aquilo em cima dele dessa forma?
-Minha família é minha prioridade, Harley. Mas… eu não precisaria dizer isso em voz alta se você realmente tivesse entendido. Olhe, não vejo como podemos fazer isso funcionar. – ele balançou a cabeça negativamente.
-É por causa dela, não é? Da Lydia, vocês realmente estavam tendo um caso, ela está por aqui? Ela está aqui, foi por isso que se mudou? Para ver onde ela está? Estão juntos? – Nessa hora, o tom da fisioterapeuta mudou, ela estava mais transtornada, como quem descobre algo. Então era assim, ele se negava a algo e as acusações simplesmente jorravam dos lábios dela.
-Não, não Harley, não é por isso. – ele balançou a cabeça tentando ser paciente e se levantou do local onde estava. – É pelo simples fato de estarmos destruídos, sabe quantas vezes nós tentamos de novo? Muitas. Quero dizer, quantas vezes vamos ter de cometer o mesmo erro para entender que não vai dar certo?
-E todas as coisas que ainda pensávamos em fazer? Eu sei que me precipitei, mas, você também teve culpa nisso. Você tem essa obsessão pelo trabalho, sempre que você tem de escolher, é ele quem você escolhe. Você cuida da família das pessoas todos os dias enquanto a sua bem…
-Eu sei como isso vai terminar, por favor…Só…Não use as palavras de novo. – ele balançou a cabeça negativamente, tirando dinheiro da carteira e colocando. – Acho que não temos de continuar essa conversa, certo? Olhe, eu aprecio que você tenha vindo de Nova York para falarmos disso mas…
-Jeff, pare. – a mulher levantou. – Não espero que resolva isso agora, sinto muito, eu não queria começar a falar daquilo de novo mas…Olhe, vai ter uma reunião da nossa turma de faculdade, no próximo fim de semana, me encontre lá e vamos conversar de novo só…Não diga que não tão rápido, pense um pouco durante essa semana, okay? Bem, eu tenho um avião para pegar, Alice teve um campeonato de natação essa semana, gravei tudo para você, ela está com a fita, se cuide.
Um beijo na bochecha de despedida, foi depois disso que ela virou as costas. Jeffrey queria explicar para ela todos os motivos pelos quais aquilo não ia funcionar, e um deles era o fato de algumas vezes ele ficar acordado até tarde, depois do cansaço de um dia longo, sentado de frente para a janela de seu quarto, olhando a cidade e pensando sobre ela. Um deles era o fato de ele querer correr de volta para ela, onde tudo era conhecido e seguro, no entanto, lembrar que insistir nesse tipo de coisa era perca de tempo, que nunca daria certo. Um dos motivos era simplesmente o fato de nunca ter ocorrido a ela que a única razão pela qual ele não queria voltar para ela era o medo de ser mandado embora novamente. Eles haviam feito uma longa bagunça consigo, era provavelmente melhor daquele jeito, algumas coisas tinham simplesmente que ir, embora parte dele ainda quisesse tentar novamente com ela.
Além disso, tantas outras coisas haviam mudado na vida de Jeff, ele tinha conhecido novas pessoas e bem, talvez ele tenha conhecido uma pessoa em especial. Queria seguir em frente, começar de novo, as pessoas num geral têm visões muito românticas sobre recomeços, talvez Jeff, naquele momento, tivesse também. Voltar com Harley era quebrar o recomeço, era voltar para a velha página riscada e amassada, que ele tinha medo, porque quase o quebrou inteiro. Porque a verdade é que na noite em que Harley o mandou embora, ela quase o quebrou inteiro, de um modo que Jeff não achou que poderia consertar.