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“Que fique claro: Nem tudo que chega ao fim, significa que realmente acabou, sumiu ou deixou de existir. Certas coisas foram feitas para se eternizar na memória.”
— Pedro Pinheiro.
Não vou negar.
por isso eu só amo
“Tom tem 2 anos e é autista. Ele não é diferente de ninguém. É como deveríamos ser: vulneráveis. Tom não mente, não engana, não se protege como a gente. Um menino inteligente ao extremo. Sua inteligência é sensibilidade. Não descansa um minuto de sentir. De piscar comparações. De fazer operações matemáticas e musicais. Uma pomba na janela é um terremoto. Um tombo na bicicleta é um colisão de estrelas. Mexer os cabelos é um aplauso. Não há suavidade disponível para sua absorção. O conhecimento é feito por descobertas chocantes que exigem a mobilização do corpo inteiro. É como se toda a lembrança fosse sublinhada. É como se toda a observação fosse inesquecível. Tom me encara de lado, seu ouvido é que me olha. Ele busca não interromper o ritmo das coisas. Os objetos têm sangue. Os objetos têm porta-retratos. Os objetos têm rosto. Imagine se você realizasse tarefas escutando seu batimento cardíaco? Este é o autista. Com o ouvido de dentro e o ouvido de fora, simultâneos. A porta da sala bate na sala e no coração. O vento assobia na janela e no coração. Eu amo muito o Tom porque nunca vi um pai como Godá. Godá é aparentemente desajeitado, boêmio, bagunçado. Mas se dedica ao filho com uma delicadeza disciplinada que somente existe no interior dos animais selvagens. Sua paciência é um presépio inesperado no deserto. Ele explica três, quatro vezes, sem nunca alterar a doçura do timbre. Sem jamais apresentar irritação pela repetição. Ainda que esteja compondo ou ocupado com a vida adulta, para a respiração e se põe a conversar. Usa as mãos com gestos lentos de giz. Toda resposta é nova mesmo que seja antiga. A atenção pede a mirada firme e cúmplice, com duas colheres de açúcar. Tom pega o arroz com os dedos. Godá se aproxima e mostra que o garfo é mais divertido do que a mão. Tom volta a comer com a mão. Godá insiste que o garfo é uma extensão de boneco. Uma luva de robô. Tom entende por cinco minutos, e Godá rearticula a fábula acrescentando um detalhe a mais de ternura. Naquela casa, a noite é tarde demais, a biblioteca é longe demais. As histórias estão pousando a qualquer instante. Tom beija a televisão. Godá diz que a televisão muito perto machuca os olhos. Tom beija de novo a televisão. Godá pede beijo no lugar da televisão. O pai é um televisor que não prejudica a boca. Tom ri alto. E beija o pai. Para depois voltar a beijar a televisão.”
— Fabrício Carpinejar.
“Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã. Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor, ou quando alguém ou algo não deixa que esse amor siga, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio. Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia. Não saber se ela ainda usa aquela saia. Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem comido bem por causa daquela mania de estar sempre ocupada; se ele tem assistido às aulas de inglês, se aprendeu a entrar na Internet e encontrar a página do Diário Oficial; se ela aprendeu a estacionar entre dois carros; se ele continua preferindo Malzebier; se ela continua preferindo suco; se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados; se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor; se ele continua cantando tão bem; se ela continua detestando o MC Donald’s; se ele continua amando; se ela continua a chorar até nas comédias. Saudade é não saber mesmo! Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos; não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento; não saber como frear as lágrimas diante de uma música; não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer. É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso… É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer. Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo e o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler.”
— Tati Bernardi.
“Finalmente, havia entendido que a presença de Deus está em todo lugar, em todos os momentos e é sentida, em um momento ou outro, por todas as pessoas. Deus - entendeu subitamente - era o amor em sua mais pura forma.”
— Nicholas Sparks.
A.C
(store)