Há um tempo atrás eu brinquei na rua com meus amigos e entrei pra dentro de casa. E depois, não sei, não fui mais; meus amigos não vieram mais. Um dia, fizemos esse trajeto pela última vez, sem perceber.
Minha mãe chegava do trabalho, fazia café, depois tomava banho, preparava a janta, esperava eu e meu pai chegar do trabalho pra colocar a mesa. Depois, ela ficou doente. Eu passei a chegar do trabalho e não ter cheirinho do café, e nem jantar a comidinha dela a noite... Tudo isso deixou de acontecer e eu não lembro quando foi que isso se deu pela última vez; só um dia, depois outro e outro, deixou de acontecer.
O vô do meu namorado saiu de casa para o hospital e recebeu a notícia: que não volta mais pra casa.
Quando saberemos quando será a última vez?
Não sabemos. E bem aqui que a vida acontece: nessa entrelinhas de viver e confiar... Na vida e nos seus mistérios.
Escrevo essas palavras dentro de um restaurante, por que ficar em casa — depois de receber a notícia que o avô / pai não voltaria pra casa — estava angustiante demais para o João compreender como comum para uma mensagem de texto recebida numa sexta a noite.
Pude sentir a vida e a morte nesse instante, como um ensaio agridoce: então é isso? Um dia, acaba. Acaba aqui.
Acaba para quem a gente mais ama, e a gente permanece. Acaba aquele momento bom, e a gente não percebe que ele não irá mais acontecer.
Fica a lembrança. Fica a vontade de voltar, de abraçar, de ficar mais um pouco, de sentir de novo, de não ir embora.
Fica o amor e o aprendizado de viver completamente entregue, sabendo, pretensiosamente, que a vida é assim: enorme, imponente. E que nem a morte, nem a perda, nem mesmo os momentos que não voltam, a saudade que permanece, a dor, a impotência...
A vida — a vida continua. Por hora, do mesmo tamanho que a morte.
Mas a vida é a melhor amiga do tempo, e o tempo passa, por pedido especial da vida, a morar dentro do nosso coração naquele exato instante que a morte chega a ser do mesmo tamanho que a vida. Tudo para que o tempo, com tempo, possa gentilmente nos apresentar novas saídas de felicidade, pra que a vida volte a ser do tamanho que ela sempre teve e sempre vai ter — mas que, por imensa sabedoria, se abre pra morte passar.
Contudo, a vida prevalece — imensa, doce, gentil e cheia de sabedoria. Ela se mantém inteiramente aberta a nos guiar sobre como sermos autênticos, como amar e nos deixarmos ser amados, e como viver.