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quiero a alguien q se atreva
Richard Thorn, British artist, "Busy Morning in the Bay"
Ser livre é, muitas vezes, ser só.
— Ecos do infinito
“Bem no fundo, há coisas que são só minhas. E embora me assustem às vezes, é delas que mais gosto.”
— Caio Fernando Abreu
“Eu faço carinho na sua foto como se estivesse te tocando, te sentindo… Mesmo distantes, fecho os olhos e te sinto. Você está em mim, no meu coração.”
— Nessa Cross
Paul Batch
Evening Moonrise
Avenue of Plane Trees near Arles Station (1888) by Vincent van Gogh
tem algo ardendo em cada milímetro do meu peito.
Marina Abramovic: Rest Energy (1980)
quase
sonhos me acompanham. diversas vezes me questionei se estive sonhando, preso dentro de alguma fenda, travado numa realidade distinta.
um lugar que não é meu, nunca foi meu, mas está aqui.
por que eu ainda te protejo? fingindo que nada disso é sobre você.
a dor não melhora, nada melhora. tudo apenas continua acontecendo. enquanto te escrevo, tudo persegue seu próprio caminho.
eu me pego sorrindo, dando gargalhadas, conhecendo lugares novos, me encontrando com as pessoas, trabalhando, estudando e vivendo. mas tudo isso apenas circula aquela cadeira que um dia você ocupou.
eu não sabia que iria me doer. não tinha dimensão do quanto me machucaria, mas machucou. ainda dói, mas, como disse previamente, a dor apenas existe rodeada de todas as outras coisas que constroem a vida e o meu caminhar.
por algumas vezes, me peguei pensando em te ligar. eu poderia, nada me impediria. mas você não responderia, e, se não vai me responder, de nada adianta a força mecânica de pegar o celular e te ligar. eu sei o desfecho… mudo, silencioso.
eu pensei: me ligue quando chegar, seja lá onde for, só me ligue. na hora, no minuto, no segundo em que você chegar aí… só me ligue.
enfim, várias coisas me perturbaram recentemente.
levarei comigo a sensação de ter sido visto. meu jardim nunca foi tão bem regado. eu não era só um corpo. eu era corpo, alma, coração e espírito. a carne era saborosa para o teu paladar, mas você queria mais do que isso. a carne que um dia ficará enrugada, flácida e eventualmente necrosará e putrefará não era seu grandíssimo interesse. seus olhos eram famintos pela excitação de me ver vivendo. em coisas tão sucintas, sambas antigos, cantoras de soul oriundas de raízes gospel, até você me flagrar folheando seu livro de cartas da clarice lispector, tudo estava semeado com cuidado, com detalhes. você era assim: detalhes.
coincidentemente… quase.
o ato de entender esse falecimento não foi muito ligado a compreender os caminhos da morte, nem o sentido de tudo. para onde vamos, com o que ficaremos ou ter absoluta certeza sobre os anais da vida. na verdade, a partida dele me trouxe a ideia de que o tempo é impiedoso. estou aqui e, por enquanto, continuarei por aqui. não tenho mais tempo para vaidades, para meios-termos, acordos mal escritos, nada que traga um amargo sabor de incerteza.
já não me interesso mais por loucuras banais. um surto de adrenalina que estremece o corpo e depois te esvazia, como uma mulher grávida que acabou de dar à luz e, subitamente, vê todos os hormônios despencarem; não sobra mais nada. naqueles poucos segundos, enquanto os enfermeiros ajeitam a criança para levá-la ao encontro dos braços da mãe, aquela mulher permanece deitada, com as pernas abertas e o sexo exposto. o corpo umedecido por suor quente, resultante das constantes puxadas para trazer aquele pequeno ser ao mundo. os lençóis cirúrgicos do leito, encharcados de fluidos e sangue. a luz branca e fria cega constantemente os olhos daquela mulher, e tudo o que percorre seu corpo é a busca; há um desejo adicto por tudo o que ela sentia. quem sou, quem eu era, quem eu fui há horas, quando a primeira contração me arrancou o fôlego e eu sabia que dali em diante aquela dor seria o início da minha morte em direção a uma nova vida.
fecho os olhos, o mundo está preto. vultos, pequenos feixes de luz assustam as pálpebras. as imagens vibram com a luz. eu me espremo, me retorço, me arrebento e me arrasto. estou chegando. da mesma forma que você é capturado pela imagem fantasmagórica da lua na janela do seu quarto nas noites de ápice lunar. são 00h42 e, dentro daquele infinito manto negro que cobre o céu, lá está ela. brilhando, incandescente. logo mais nascerás. a mulher, de repente, recebe em seus braços a sua prole. o fruto de toda a sua grandeza como pessoa. ali reside todo medo, mas também toda a esperança que um dia ela sentiu. o que ficou, ficou. e tudo o que se foi, consigo foi embora.
tenho me deparado, com certa frequência, comigo mesmo apavorado. tudo o que disse pode não ter sentido. mas, para mim, faz e fala muito. todo o resto é apenas resto. e tudo o que sobra tornou-se sobras.
por enquanto, é tudo o que tenho a dizer.
eu ainda continuarei. quem sabe, em algum outro momento, tenha mais coisas a serem ditas. por agora, é o que deixo.
Bordighera, Italy (1884) by Claude Monet
Rendição
Me sinto amaldiçoado. Esse pensamento ecoou na minha cabeça durante todo esse tempo. Parte do meu sofrimento nasceu de algo sobre o qual, honestamente, não tive tanto controle quanto esperava ter.
É aterrorizante viver com um eu que já não lhe pertence, enquanto um outro eu toma posse. Você descobre o mundo, mas o mundo é mais duro do que você imaginou. “Viver é melhor que sonhar”, já diziam, mas, para quem sempre precisou sonhar para conseguir sobreviver, começar a viver a realidade de repente não era apenas um obstáculo bobo, mas uma mudança drástica em algo que não consigo mensurar.
Nos últimos dias, os tijolos da casa caíram. Os palácios tinham teto de vidro, e tudo se despedaçou como um infantil castelo de cartas. Eu me sentia como se estivesse afogado no rio Styx. Todo o sofrimento que cada alma miserável que já existiu sentiu dentro de si estava grudado em mim como uma doença pestilenta.
“Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus”, assim pensei.
Porém, apesar de tudo isso, existe a grande graça. Na verdade, o único ponto vantajoso disso, pelo menos para mim, é a possibilidade de renascer. Essa travessia me custou encarar alguns medos de perto. Precisei beijá-los, abraçá-los e até me deitar com eles. Custou-me o opróbrio; senti-me desonrado.
Eu senti medo. Talvez como nunca antes na vida. Os inimigos não eram os mesmos, eram diferentes. Eram inimigos doces, verdadeiros, e não alguma representação maligna que me afrontava. Eram antigos companheiros.
Eu senti medo. Eu tinha uma amizade arruinada, uma atuação sem propósito, uma cara inchada sem verdade alguma e um cadáver no meu armário.
Tentei manter meus pés firmes, mas meus joelhos estavam fracos demais para que eu conseguisse ficar de pé. Desabei, e desabei tão facilmente como se meus ossos fossem feitos de areia.
No fim, precisei lidar com isso. Era mais simples do que parecia. Sem poderes, sem magia, sem sensualidade, sem felino. Apenas um homem lidando com o inevitável.
Ali foi o mais honesto que consegui ser em muito tempo. Deixei que tudo se quebrasse: paredes, muros, janelas, portas, tudo.
Como vou reconstruir? Não sei. Como vou reorganizar? Não sei.
Não estou muito preocupado em reestruturar tudo. Ainda estou saboreando o alívio de tudo ter caído. Mesmo depois das lágrimas que derramei, ainda assim me sinto aliviado.
É um clarão como nunca vi. Um milagre.
Deixarei fluir, assim como as águas dos rios.
Vou até você, pois tenho sede e sei, com toda a convicção de todas as dimensões do tempo e do espaço, que rios de água viva correrão do meu ventre.
Sunflower III by Joan Mitchell 1972