Piscou sem saber como reagir com o contato alheio; segundos atrás era incapaz de sentir coisa alguma e repentinamente um conhecido lhe segurava os ombros, quando o sentiu não fora somente o toque: arregalou os olhos, o queixo trêmulo, e se sentiu mais desperto que havia se sentido em muito, muito tempo. Fitou os braços para se certificar de que ninguém lhe jogara um balde de água gelada, era essa a sensação em seu corpo insalubre, enquanto divagava com os olhos avermelhados e distantes.
Repentinamente o efeito entorpecente da cannabis se dissipou, mas não tardou a voltar: — Estouótimo — e tratou de sublinhar o vocábulo forçando um bocado o tom da voz — para uma conversa agora.
Estava bastante confortável escorado no muro, então não disfarçou um franzir de sobrancelhas quando se viu obrigado a se levantar, mesmo que um tanto quanto cambaleante — suas pernas estavam tão leves! —, para manter uma conversação com o rapaz de máscara. Aquele excesso de proteção alheia incomodava a Émil, ele não negaria, queria mesmo saber o porquê de tantos adornos. Era enfermo? Sofria de qual injúria, afinal?
— Não me lembro da última vez que comi, deve ter sido ontem ou anteontem, não mais do que isso… — soltou uma risada que demorou mais do que gostaria que houvesse demorado, mas depois de fumar um baseado o estadunidense não possuía mais total controle de suas risadas. Era como se alguém em seu subconsciente estivesse lhe contando piadas sujas e ruins sem cessar, e sua única resposta era rir. — Não é sempre que tenho o luxo de me alimentar…
Émil piscou mais uma vez, orbes focados na placa d’um estabelecimento próximo: — ‘Tá na hora de comer, Taylor. Vamos?
‘A falta de uma singela pausa na frase poderia metamorfosear todo o seu sentido’, pensou o interiorano ao aguardar uma resposta.
Retirou as mãos dos ombros do rapaz assim que este começara a se mexer, não era do tipo que gostava de manter toques, por mais necessário que fosse, e aos poucos se arrependia de ter chegado perto de Émil a tal nível; era impossível pegar a doença por culpa dele, não estava em risco, mas de qualquer forma o medo de toques perseguira-lhe por tanto tempo que já era comum não desejar o toque de ninguém além do próprio.
Enterrou ambas as mãos nos bolsos do sobretudo que vestia assim que o outro conseguia se manter estável no local, ouvir suas palavras fez que arqueasse uma das sobrancelhas. — Quantos anos tem mesmo? É um problema que não coma com frequência. — o tom carregava preocupação, mas não o suficiente para que parecesse um pai para o rapaz ou algo semelhante, mas não podia dizer muito para ele, afinal, já havia feito algo do tipo diversas vezes anos antes e não é como se sentisse arrependimento.
— Ah... Claro. — falou assim que ouviu a sugestão, desviando o olhar para o estabelecimento próximo, uma pizzaria, antes de voltar a atenção para o mais novo, apenas começando a andar quando tivera certeza de que ele estava bem o suficiente para andar, até porque o resto não poderia garantir muito bem. — Prefere algum sabor de pizza ou...?