When a heart breaks, it don't break even. | @Hooks
Se já estava muito mais que raivosa no momento em que adentrou aquele dormitório, conseguiu ficar ainda pior. Como Edward conseguia mentir com tanta facilidade? Ainda pior, como Edward conseguia mentir com tanta facilidade com Grace? Pensava em todas as conversas que tiveram pelo telefone enquanto não estava em King’s ainda, em todas as mentiras que lhe foram contadas. Nos dias que não atendia porque estava muito ocupado com os estudos. Desde quando ele realmente ligava mais para os estudos que para a própria namorada? Ela realmente estava num estado de consciência fora do comum, ninguém conseguiria ser tão ingênua. Aparentemente, Grace conseguia. Por um momento pensando que o namorado era nada mais nada menos que um anjo derrubado na terra, considerando suas coordenações motoras, não teria outra explicação plausível. E agora tendo a mais plena certeza de que ele não passava de um babaca que gosta de se aproveitar da vulnerabilidade de meninas como ela. Será que ele enganava todas elas? Será que ele dizia que era perfeitamente solteiro para toda e cada uma delas? Apenas pensar na ideia deixava-a ainda pior. Não conseguia mais imaginar Edward Brooks como uma pessoa normal, ele era um mentiroso, Edward Mentiroso Brooks. Aquilo era, com certeza, um mal de família, já não tinha mais a mínima dúvida. Como conseguiu ser tão burra? A raiva maior não era dele, de suas mensagens ridículas ou das suas mentiras, mas de si mesma. Como conseguiu acreditar em cada vírgula que ele dizia? Como conseguiu engolir tanta coisa em tão pouco tempo? O sangue corria nas suas veias na velocidade da luz, ainda surpresa que não estivesse desmaiada de infarto. Bem, não seria uma má ideia, ele seria o culpado e se ali mesmo ela caísse mortinha, ele levaria aquilo para o resto da vida.
Encheu o pulmão, tinha muito o que falar e todo o ar que havia naquele quarto não lhe parecia suficiente. Seu primeiro reflexo foi encher sua mão livre de fúria e dar-lhe um belo de um tapa na cara. Era um alívio, mas não chegava perto do que realmente queria fazer com ele. — Edward Anthony. — Sua voz estava embargada, tentou o seu melhor para escondê-la, mas já não era tão possível como imaginava. — M-me dá nojo de ouvir seu nome depois de tudo que eu li aqui. — Tomou mais um bom fardo de ar. — Você sabe o que eu li, não é? Sim, eu tenho certeza que sim, afinal, você digitou cada palavra que me fez sentir nojo de você. — Não sabia o que estava acontecendo consigo e sua personalidade doce e sinceramente, não queria saber. — Eu te dei uma oportunidade única de falar toda a verdade e poupar esse meu discurso, ou ao menos metade dele e nem isso você conseguiu. Cínico. Como eu consegui ser tão idiota, Edward? Me diz, por favor, eu quero muito entender. Como você conseguiu ser tão filho da puta? E o pior nem é isso, claro que não, você sempre consegue se superar, não é mesmo? Como você conseguiu calcular cada uma de suas mentiras? Escondendo uma atrás de outra, e mais outra e mais outra. — Uma risada escapou de seus lábios. Era, com certeza, um reflexo do seu nervosismo. — Eu tive que aguentar incontáveis piadinhas nas minhas costas já que, pelo jeito, todo mundo sabia menos eu, não é mesmo? Cada alma desse colégio rindo da minha cara porque o meu incrível namorado estava me traindo desde o momento que saiu de Londres. Ou não? Você conseguiu ser pior que eu imaginava? Você me trai desde o momento em que me pediu em namoro? Eu juro que não sei por que eu ainda estou te perguntando esse monte de coisa, já que eu sei a resposta. Seu caráter é tão baixo que já deixa tudo explícito. Eu queria, ah como eu queria estar errada. Eu queria que você fosse o Ed que eu conheci, que eu namorava. Aquele personagem é incrível, você daria um ótimo ator, Brooks, fenomenal. — Não conseguia mais conter, uma lágrima escapou de seus olhos. Inferno.
Deixou as lágrimas simplesmente escorrerem em seu rosto, afinal de contas, elas sairiam de um jeito ou de outro, ou provavelmente explodiria. Não se lembrava do momento em que conseguiu tanta audácia, Grace não era assim. Mais uma vez, lá estava ele despertando um lado nela que ninguém conhecia. O lado rejeitada, o lado que sabia que ela nunca foi verdadeiramente amada, que tudo o que passou nos últimos anos não passava de uma grande mentira. Ainda estava tentando descobrir o que fez para merecer tudo aquilo. Deixar de tomar alguns remédios não era grande desatino, era? Recuperou o fôlego, ainda tinha tanta coisa para dizer, tanta coisa. — Eu só te peço uma coisa agora, Edward. Na verdade, duas. — Aquilo doía tanto, tinha a mais plena certeza que o Hulk estava esmagando seu coração com as próprias mãos. — Primeiro: não tenta disfarçar tudo isso. Não tenta mentir de novo, não tenta me convencer de que é um mal entendido, que você é mesmo o meu Ed. Você é incrivelmente bom nisso, mas eu não vou acreditar. Não mais. Eu posso ter sido a pessoa mais cega, mais trouxa, mais inacreditável do último século, mas eu não sou mais, eu te juro. — A morena falava enquanto espantava as lágrimas dos olhos. Apertava aquele celular nas mãos como se fosse o seu último pertence. Tinha nojo, repulsa de segurar o antro de perdição que era aquele aparelho, mas continuava com ele nas mãos, talvez numa tentativa de segurar as únicas provas que tinha no momento. — E segundo: nunca, mas nunca mais me chame de namorada, porque isso aqui, isso que aconteceu entre a gente está completamente acabado. Isso se algum dia isso realmente começou, não é mesmo? — Sentou-se na cama que estava mais próxima, estava cansada, a única coisa que queria era dormir e acordar no próximo milênio.
Tomou consciência do tamanho de seu erro no momento em que as palavras saíram de seus lábios. O moreno parecia nunca aprender com as falhas cometidas; afinal, teria ao menos calado a boca senão. Mas não, ele era Edward e sempre precisava dar a última palavra nas discussões, ainda que fosse difícil ter razão. Fazia parte de sua personalidade, uma característica gravada tão a fundo que já era tarde demais para tentar fazer algo a respeito. Aquele ímpeto de sempre querer ir além dos limites - de nunca sequer medir as palavras ou s consequências delas - já colocara o garoto em tanta confusão. Nenhuma tão grande como aquela. Conseguia ver seu relacionamento desvanecer diante de seus olhos, como um castelo de cartas atingido por um sopro inigualável de vento. Queria juntar cada uma das peças e juntá-las de novo em um todo, no quebra-cabeças perfeito que apenas Grace conseguia resolver no coração do garoto. Mas era tarde demais, e no fundo, ele sabia. A culpa atingiu-lhe tão forte quanto o tapa dela, cobrindo cada centímetro do corpo dele. Junto com o remorso, veio a vergonha. A vergonha de ser tão baixo, tão fútil a ponto de perder a única coisa que realmente conseguiu amar em toda a sua vida. A única que lhe amara de volta, por cima de todos os defeitos. Queria poder fechar os olhos e retornar apenas alguns minutos no tempo, o suficiente para consertar o estrago que fizera. Embora fosse irreparável. Ele ferira sua pequena de uma maneira tão ridícula que provavelmente quebrava todos os recordes mundiais de estupidez. Naquele momento, percebeu como nenhum dos toques das garotas com quem estivera valia sequer um sorriso dos lábios cheios e rosados de Grace. Nenhum gemido ou grito de prazer delas jamais poderia ser igualado ao doce som da risada da morena. Como ele pudera ser tão sujo, tão baixo, tão imoral? Arrependia-se, mas não era o suficiente.
Sentia seu coração comprimir-se no meio, como se houvesse uma fera insatisfeita e injuriada rugindo lá dentro. Não sabia sequer como agir, como respirar, ou mesmo como pensar. Bom, isso ele já não fazia muito, na verdade. Parecia que o chão havia sido arrancado debaixo de seus pés. Suas mentiras haviam formado uma teia tão forte que agora era rasgada em pedaços diante dos seus olhos. Nunca imaginara como suas histórias poderiam ser desmascaradas por um ato tão simples. Fora tão confiante a ponto de ignorar o óbvio, de guardar aquelas tais mensagens como troféus de todas as garotas com quem ficara. Dizia-se um garoto inteligente, mas repensou aquela afirmação ao deparar-se com o tamanho de sua confiança. Finalmente entendeu por que os seriados policiais diziam que um assassino em série entregava-se facilmente depois de algumas vítimas. Excesso de confiança. O único defeito que não constava na lista do garoto fora sua ruína. Não era arrogante, não realmente. Aquilo fora a única coisa que seu pai conseguira enfiar na cabeça do filho: humildade. E tudo dera errado assim, de um minuto para o outro. Ouviu as palavras dela, cada uma atingindo-lhe como mais um tapa. Bem merecidas. Não ousou sequer erguer os olhos para encará-la. Não tinha mais esse direito, não é mesmo? Mordeu o lábio inferior, um tanto assustado. Nunca vira Grace assim, tão brava, tão fora de si. Quando ela ficava irritada, costumavam brincar que ela acabaria virando o Hulk. A piada não parecia mais ter graça agora, não quando havia tanto em jogo. Sentia como se o amor dela lhe escorresse por entre os dedos, depois de tantas atitudes erradas de sua parte. Perguntou-se por que fizera aquilo, e não havia nenhuma explicação plausível. Ao menos não uma que não fizesse ele querer arrastar-se para debaixo da cama e permanecer lá pelos próximos dez anos de sua vida. De repente todo o futuro ao lado dela que secretamente planejara em sua cabeça parecia estourar diante de seus olhos. Uma bolha de sabão. Frágil, sutil.
Não havia como voltar atrás. Não havia um botão de reset para voltar ao começo do jogo. Não havia onde clicar para desfazer as ações passadas. Era como atirar um copo de cristal no chão e tentar recompôr os milhares de cacos espalhados. A analogia era justa. Cada um dos cacos de vidro do copo imaginário parecia estar cravado em seu coração. Quase como uma dor física, insuportável. A tortura que era vê-la chorar, não apenas chorar, mas ter aquela face tão doce banhada por lágrimas que ele causara. Procurou dentro de si alguma resposta para as palavras dela, mas não encontrou. Era como ter seu coração substituído por uma pedra, sem sentimentos. Sentia o sangue correr por sua face avermelhada, ainda ardendo um tanto do tapa. Merecia mais que aquilo, e ele sabia. O silêncio recaía sobre o quarto, quebrado apenas pelos soluços da morena. Não percebe que suas mãos tremiam até levantar uma para pousá-la em seu próprio rosto. Queria sair correndo e nunca mais voltar, tamanha era sua vergonha. Não valorizara aquele relacionamento como deveria, outro ato tão característico do garoto. Egoísta, estúpido, efêmero. Uma lista de defeitos infinita, e agora Grace conhecia os piores deles. Andou os poucos passos que o separavam da garota soluçante na cama e ajoelhou-se na frente dela, procurando pela primeira vez os olhos dela com os seus. Suspirou, buscando as palavras certas para aquela ocasião. Um menino sempre tão hábil em formas as frases perfeitas para sair de uma encrenca, agora não conseguia juntar duas sílabas com medo de gaguejar. Era como estar no mais completo escuro. E era tudo culpa sua. - Grace. Gracie, olha pra mim. - pediu, com a voz rouca e hesitante. Os olhos castanhos dela pareciam um mar, um verdadeiro oceano. Ele poderia perder-se por horas e horas ali, se não se sentisse mais culpado a cada segundo. - Você quer a verdade? Tudo bem, então. - engoliu em seco, resistindo ao impulso de desviar o olhar para longe. - Eu não sei o que falar. Eu não sei, simplesmente não sei. - confessou. - Você provavelmente deveria me bater de novo. - acrescentou, deixando-se sentar no chão em frente a Grace. Ocupou-se em encarar seus próprios tênis, porque não queria enfrentar a realidade. Não queria enfrentar as consequências de seus atos pela primeira vez na vida.













