When a heart breaks, it don't break even. | @Hooks
Precisou de alguns segundos até entender, porque, você sabe, ele era incrivelmente lerdo e tudo o mais. Olhou para seu celular na mão de Grace, e então olhou para o rosto dela. Tudo o que conseguia enxergar era a raiva dela. Grace vira a mensagem da garota para quem ele dera seu número no dia anterior. Amaldiçoou-se mentalmente por ser tão estúpido a ponto de ter esquecido o aparelho no quarto dela. Mas poderia sair daquela situação, não? Sempre conseguia, fosse com alguma mentira bem pensada ou com um sorriso de canto. Edward sempre, sempre arrumava uma maneira ou outra de safar-se dos problemas. Talvez fosse essa a razão de continuar com sua fama de encrenqueiro; porque, debaixo dos panos, ele conseguia encontrar uma saída. E aquilo não seria diferente, ao menos na visão dele. Era hipócrita, porém verdade. Enganara Grace ao longo de todo o ano anterior, e também nos poucos meses desde que ela chegara ali na King’s. Não se orgulhava de suas atitudes, porém tampouco sentia remorso. Ao menos, não até aquela hora. Viu-se sem palavras, uma das poucas vezes em sua vida. Era raro ver-se assim, sem nenhuma resposta pronta na ponta da língua, sem aquelas piadas ácidas e sarcásticas as quais haviam transformado-se em sua marca registrada. Engoliu em seco, com uma pontada de nervosismo. Não gostava daquele tipo de situação. Era acostumado a ficar no controle de tudo, a manipular as pessoas com suas palavras e gracejos. Era acostumado a sempre sair das confusões criadas por si mesmo. Ali, perante o olhar da morena, sentiu-se vulnerável. Como se ela finalmente houvesse visto debaixo da fachada de bom garoto que ele assumia ao lado dela. Não queria perdê-la, não queria. Nem tudo estava perdido ainda, certo? Estava prestes a abrir a boca para respondê-la com uma de suas desculpas - tão esfarrapadas, mas nas quais Grace sempre acreditara piamente -, quando percebeu o tamanho de seu erro. Grace era infinitamente mais inteligente do que ele. Ela com certeza deveria ter aberto o aplicativo de mensagens e descoberto toda a sujeira lá escondida.
Congelou no lugar ao constatar o quão fodido estava. Se a sorte já não estava ao seu favor antes, agora ela fizera questão de piorar mil vezes. O remorso atingiu-o como um tapa, e Edward queria muito acreditar estar em alguma espécie de pesadelo. Mas não estava. Torturara-se no ano anterior, com o pensamento de que o internato teria vagas para garotas e Grace começaria a estudar lá. Todos aqueles medos, bom, eles pareciam estar transformando-se em realidade. Como se todos os pecados cometidos pelo garoto estivessem voltando do além para assombrá-lo. Não queria perder Grace, não queria deixar aquele namoro ir por água abaixo. Não quando a culpa seria toda sua. Gracie fora sua primeira namorada, a primeira garota com quem ele realmente se importara. A primeira a quem ele recorria quando arranjava mais problemas do que conseguia aguentar, a primeira por quem ele correra atrás e conquistara com tanto empenho. Embora, sendo assim, por que fora tão imbecil ao traí-la tantas vezes? Mesmo ali, não conseguia acreditar ter deixado-se levar. Queria desesperadamente encontrar alguém em quem colocar aquela culpa, aquele peso. Mas não havia ninguém além de si mesmo. Seu cérebro tentava encontrar alguma saída para aquela situação, alguma brecha, alguma falha. Sentia-se como um rato preso em uma armadilha. Não havia muitas opções à sua frente, para falar a verdade. E todas pareciam igualmente assustadoras. Não conseguia sequer imaginar como seria sua vida sem a namorada ao seu lado. Porque, além dela, não havia ninguém verdadeiramente apoiando-o, não é mesmo? Ela sempre fora a única a permanecer com ele, apesar de todos os defeitos - e não eram poucos. Nenhuma parte de seu cérebro estava disposta a imaginar um cenário onde não havia a tagarelice constante de sua pequena.
Parecia simplesmente errado demais. As melhores partes de sua vida haviam sido ao lado dela, e tudo parecia desmoronar diante de seus olhos. Mordeu o lábio inferior, finalmente erguendo os olhos do pequeno aparelho preso na mão dela. Como pudera ser tão estúpido? Tão previsível? Praguejou silenciosamente, desejando que as mensagens - os registros tão visíveis de sua burrice - pudessem ser apagados dali com a força de seus pensamentos. Infelizmente para Ed, seus poderes Jedi não alcançavam aquele nível, e ele sabia muito bem as palavras escritas em cada uma daquelas SMS. A maioria delas era de garotas melosas, as quais ele ignorava ou respondia horas depois, quando finalmente parava de jogar videogame para dar atenção ao celular vibrando. No entanto, havia algumas mais antigas, ou com certas meninas, as quais com certeza lhe reservariam uma vaga no círculo mais baixo do inferno. Você sabe, sexting durante as aulas e algumas outras palavras bastante duvidosas. Sustentou o olhar da morena. Era um garoto teimoso. Mesmo estando completamente errado, não mudaria de ideia até o fim. E foi esse impulso - a pior de todas as suas ideias - o que o fez abrir a maldita boca - E-eu não sei do que você está falando, Grace. - gaguejou. Uma tentativa patética, falha. Provavelmente, teria diminuído os danos se falasse a verdade. Mas Edward não se dava bem com a verdade, nunca se dera. E, de qualquer maneira, ouvi-la chamá-lo por seu nome completo o assustava. Ninguém fazia aquilo, a não ser sua mãe, quando ela estava realmente, realmente zangada. Queria simplesmente ignorar aquele problema até ele desaparecer, para então enfiar-se debaixo de seus cobertores pelo resto do dia. Mas não podia. Precisava, de uma maneira ou de outra, encarar as consequências de seus próprios atos. E, por enquanto, o faria da única maneira que jamais conhecera: pela mentira.
Se já estava muito mais que raivosa no momento em que adentrou aquele dormitório, conseguiu ficar ainda pior. Como Edward conseguia mentir com tanta facilidade? Ainda pior, como Edward conseguia mentir com tanta facilidade com Grace? Pensava em todas as conversas que tiveram pelo telefone enquanto não estava em King's ainda, em todas as mentiras que lhe foram contadas. Nos dias que não atendia porque estava muito ocupado com os estudos. Desde quando ele realmente ligava mais para os estudos que para a própria namorada? Ela realmente estava num estado de consciência fora do comum, ninguém conseguiria ser tão ingênua. Aparentemente, Grace conseguia. Por um momento pensando que o namorado era nada mais nada menos que um anjo derrubado na terra, considerando suas coordenações motoras, não teria outra explicação plausível. E agora tendo a mais plena certeza de que ele não passava de um babaca que gosta de se aproveitar da vulnerabilidade de meninas como ela. Será que ele enganava todas elas? Será que ele dizia que era perfeitamente solteiro para toda e cada uma delas? Apenas pensar na ideia deixava-a ainda pior. Não conseguia mais imaginar Edward Brooks como uma pessoa normal, ele era um mentiroso, Edward Mentiroso Brooks. Aquilo era, com certeza, um mal de família, já não tinha mais a mínima dúvida. Como conseguiu ser tão burra? A raiva maior não era dele, de suas mensagens ridículas ou das suas mentiras, mas de si mesma. Como conseguiu acreditar em cada vírgula que ele dizia? Como conseguiu engolir tanta coisa em tão pouco tempo? O sangue corria nas suas veias na velocidade da luz, ainda surpresa que não estivesse desmaiada de infarto. Bem, não seria uma má ideia, ele seria o culpado e se ali mesmo ela caísse mortinha, ele levaria aquilo para o resto da vida.
Encheu o pulmão, tinha muito o que falar e todo o ar que havia naquele quarto não lhe parecia suficiente. Seu primeiro reflexo foi encher sua mão livre de fúria e dar-lhe um belo de um tapa na cara. Era um alívio, mas não chegava perto do que realmente queria fazer com ele. — Edward Anthony. — Sua voz estava embargada, tentou o seu melhor para escondê-la, mas já não era tão possível como imaginava. — M-me dá nojo de ouvir seu nome depois de tudo que eu li aqui. — Tomou mais um bom fardo de ar. — Você sabe o que eu li, não é? Sim, eu tenho certeza que sim, afinal, você digitou cada palavra que me fez sentir nojo de você. — Não sabia o que estava acontecendo consigo e sua personalidade doce e sinceramente, não queria saber. — Eu te dei uma oportunidade única de falar toda a verdade e poupar esse meu discurso, ou ao menos metade dele e nem isso você conseguiu. Cínico. Como eu consegui ser tão idiota, Edward? Me diz, por favor, eu quero muito entender. Como você conseguiu ser tão filho da puta? E o pior nem é isso, claro que não, você sempre consegue se superar, não é mesmo? Como você conseguiu calcular cada uma de suas mentiras? Escondendo uma atrás de outra, e mais outra e mais outra. — Uma risada escapou de seus lábios. Era, com certeza, um reflexo do seu nervosismo. — Eu tive que aguentar incontáveis piadinhas nas minhas costas já que, pelo jeito, todo mundo sabia menos eu, não é mesmo? Cada alma desse colégio rindo da minha cara porque o meu incrível namorado estava me traindo desde o momento que saiu de Londres. Ou não? Você conseguiu ser pior que eu imaginava? Você me trai desde o momento em que me pediu em namoro? Eu juro que não sei por que eu ainda estou te perguntando esse monte de coisa, já que eu sei a resposta. Seu caráter é tão baixo que já deixa tudo explícito. Eu queria, ah como eu queria estar errada. Eu queria que você fosse o Ed que eu conheci, que eu namorava. Aquele personagem é incrível, você daria um ótimo ator, Brooks, fenomenal. — Não conseguia mais conter, uma lágrima escapou de seus olhos. Inferno.
Deixou as lágrimas simplesmente escorrerem em seu rosto, afinal de contas, elas sairiam de um jeito ou de outro, ou provavelmente explodiria. Não se lembrava do momento em que conseguiu tanta audácia, Grace não era assim. Mais uma vez, lá estava ele despertando um lado nela que ninguém conhecia. O lado rejeitada, o lado que sabia que ela nunca foi verdadeiramente amada, que tudo o que passou nos últimos anos não passava de uma grande mentira. Ainda estava tentando descobrir o que fez para merecer tudo aquilo. Deixar de tomar alguns remédios não era grande desatino, era? Recuperou o fôlego, ainda tinha tanta coisa para dizer, tanta coisa. — Eu só te peço uma coisa agora, Edward. Na verdade, duas. — Aquilo doía tanto, tinha a mais plena certeza que o Hulk estava esmagando seu coração com as próprias mãos. — Primeiro: não tenta disfarçar tudo isso. Não tenta mentir de novo, não tenta me convencer de que é um mal entendido, que você é mesmo o meu Ed. Você é incrivelmente bom nisso, mas eu não vou acreditar. Não mais. Eu posso ter sido a pessoa mais cega, mais trouxa, mais inacreditável do último século, mas eu não sou mais, eu te juro. — A morena falava enquanto espantava as lágrimas dos olhos. Apertava aquele celular nas mãos como se fosse o seu último pertence. Tinha nojo, repulsa de segurar o antro de perdição que era aquele aparelho, mas continuava com ele nas mãos, talvez numa tentativa de segurar as únicas provas que tinha no momento. — E segundo: nunca, mas nunca mais me chame de namorada, porque isso aqui, isso que aconteceu entre a gente está completamente acabado. Isso se algum dia isso realmente começou, não é mesmo? — Sentou-se na cama que estava mais próxima, estava cansada, a única coisa que queria era dormir e acordar no próximo milênio.













