Acorda.
Três... o sorriso. Dois... a lembrança. Um... a dor, sempre pontual. O mundo gira como um carrossel bêbado que nunca pediu permissão pra rodar. O chão frio do quarto me abraça melhor do que qualquer humano já conseguiu. Eu me deito nele como se fosse escolha, mas é exaustão, não estilo.
O espelho? Um filme de terror indie. Olhos vermelhos, manchados, como se eu tivesse chorado tinta. Ao redor, um roxo que nem maquiagem cobre. Me olho e nem finjo surpresa. O esgotamento está vestido com a minha cara.
A luz do banheiro parece um interrogatório divino. Cada raio é uma acusação. Preciso levantar, mas a dor tem megafone. Ela grita, desce pra espinha, sobe pra cabeça, e me lembra que aspirina não cura buraco existencial. Um comprimido não basta. Uma cartela inteira seria indecente, e ainda assim ninguém entenderia. “É só dor de cabeça”, eles diriam. Coitados.
Entre um suspiro e outro, aparece ele: o maldito sorriso. Sarcástico. Seguro. Quase debochado. Um flash dele me faz querer arrancar meus próprios pensamentos com as unhas. Aquela pose de superioridade me dá náusea... ou saudade? Difícil saber. Sentimentos se disfarçam bem.
E eu... eu sou um caos funcional. Uma mulher que se encanta pelas próprias curvas enquanto colapsa em silêncio. Que busca a perfeição no espelho rachado, como se ainda acreditasse em redenção via autocuidado. Spoiler: não vem.
Tô me matando aos poucos e chamando isso de vida adulta. Não é isso que todo mundo tá fazendo? Fingindo que tá tudo bem enquanto dança no abismo com uma xícara de café e um planner na mão?
Se eu não me suporto, quem suportaria? Seria doentio esperar que outro carregasse essa melancolia gourmetizada, essa coleção de instabilidades com batom vermelho. E ainda assim... eu espero. Patético, né?
Talvez um dia o som de metal que ecoa na minha cabeça vire melodia. Talvez eu consiga dançar conforme a cabeça gira, não por equilíbrio, mas por falta de opção.
Até lá... respira.











