tittle / electra&dominic
dominicbahr:
Electra era feita de aventura, e Dominic havia sido sua zona de conforto. Por muito tempo, oferecera-lhe um porto seguro – uma ilha de calmaria em meio ao turbilhão que era sua rotina noturna. Por dois anos, mentira para si mesmo dizendo que aquilo seria suficiente, que as diferenças eram o que os havia unido, e não o que iria os separar. Até o último momento ele havia tentado encontrá-la no meio do caminho, mas há muito aquilo havia deixado de ser suficiente. Ela queria mais. Queria que ele cruzasse toda a distância que se colocara entre eles. A verdade nua e crua havia partido dela, e o atingido como um tapa na cara: nenhum dos dois estava disposto a mudar. Ela queria mais do que ele jamais a poderia dar. O relacionamento dos dois tornou-se um oceano, e corações não sabiam nadar. Electra abandonara o barco enquanto Dominic estava disposto a se afogar.
Nunca havia se sentido tão sozinho na vida. Quando sua avó e mãe o deixaram sozinho no mundo, havia encontrado consolo nas palavras da língua inglesa, em um universo de aprendizados que o aguardava em outro continente. Sem Electra, parecia não haver mais o que aprender: só o que sabia desde que a conhecera era amá-la. Duas semanas haviam se passado e ele ainda acordava todas as manhãs procurando-a do outro lado da cama, sentindo falta de seu calor e encontrando nada além dos lençóis frios sob seus dedos. Quando se levantava para ir ao trabalho, ainda encarava o mural de fotos de seu quarto, torturando a si mesmo com todas as fotografias em que ela aparecia, incapaz de encontrar a coragem necessária para retirá-las da parede.
Ainda a amava.
Aquele era o problema de seu dom. Era incapaz de desaprender as coisas, e havia aprendido a amá-la mais do que qualquer outra coisa em sua vida.
Só o que queria era ficar escondido sob as cobertas em seu apartamento. Podia apagar a luz e tirar a televisão da tomada, mas não havia maneira de desligar seus pensamentos. Desde o término, tinha se tornado mais obcecado do que nunca por sua pesquisa, e nela vinha se concentrando com sucesso. Mas era dia oito, dia em que estariam completando mais um mês de namoro caso estivessem juntos, e Dominic tinha em mãos duas passagens para a Dinamarca, uma em seu nome e uma no dela. As havia agendado com meses de antecedência. Pedira uma licença de cinco dias no trabalho. Tinha planejado tudo em nome da promessa que fizera a Electra de levá-la para ver o mundo, e não podia ir sem sua companhia. Não havia muito que quisesse ver além do teto da sua sala de estar.
Quando a campainha interrompeu a trilha de seu raciocínio, cogitou por um segundo simplesmente ignorá-la. Devia tê-lo feito, pois quando abriu a porta lá estava ela, como se invocada pelo poder de seu pensamento. Era a primeira vez que a via desde o fatídico pé na bunda. Ela parecia bem. Dominic parecia uma vítima de atropelamento. Não foi capaz de dizer nada. Só permaneceu ali, parado, encarando-a, lutando contra a vontade de implorar para que ela voltasse. Para que o desse outra chance. Para que acreditasse nas promessas de mudanças que nunca poderia cumprir.
Poderia jurar que o seu coração havia parado de bater, assim como todo o oxigênio sugado do planeta terra. Encontrava-se ali, frente a frente ao homem que amou e parecia que toda sua coragem havia fugido. Não sabia o que dizer ou o que fazer. Não sabia como agir, muito menos como olhar nos olhos do homem. Não conseguia se resolver pela primeira vez. Como diria da forma mais sutil possível que: “Eu vim devolver suas coisas e vim pegar as minhas coisas, porque você sabe, eu acabei um namoro de dois anos.” Ela não conseguia encontrar nenhuma palavra para que aquilo não soasse cruel aos seus ouvidos. Talvez, porque, não existissem palavras corretas para esses momentos. O dicionário do término não estava no mercado a venda, muito menos em seu vocabulário. Ela já havia causado o dano maior, mas queria evitar de danos menores, e por um momento, pensou em simplesmente correr como uma adolescente com medo, esquecendo-se de toda a sua maturidade.
Coragem Electra! Seus pensamentos gritavam consigo mesma. Seus olhos perdidos na caixa que segurava em mãos, ergueram-se, encarando Dominic. Ela precisava agir como adulta, e ser madura, estava decidida. Estava resolvida. “Oi! Como está?” as palavras saíram de sua boca roboticamente. Sentia-se horrível, detestava aquele tipo de situação, por isso as evitava. Por isso raramente envolvia-se. Raramente comprometia-se. Dominic havia sido a sua melhor exceção e ali estava ela, na situação que mais odiava, magoando quem amava. “Vejo que esta muito bem. Esta mais bonito. Decidiu deixar a barba crescer?” um sorriso confortante para o seu discurso patético. Se não fosse inconveniente daria um tapa em seu próprio rosto. O que diabos ela estava falando para o homem? Só estava adiando a parte mais difícil.
Coragem Electra! Estendeu a caixa ao rapaz. A dor precisa ser sentida. “Eu vim devolver as suas coisas Domi.” falou finalmente, sem desviar o seu olhar, precisava encara-lo. Por mais difícil que isso fosse. Passou seus dedos pelos seus cabelos, bagunçando-os, endireitando sua postura. Velha mania quando nervosa. Velha mania quando não sabia como continuar. “Acredito que elas não pertencem mais a mim.” sentiu uma faca rasgando-a no peito. Aquilo doera de escutar. Sua coragem doera. Mas não se arrependia. E talvez, por isso doesse, o arrependimento não existia. Existia a certeza de que eles não seriam felizes juntos. Isso doía. “Eu poderia buscar as minhas coisas? Ou você prefere que eu volte quando estiver no trabalho?” perguntou, insegura. Não sabia o que seria mais difícil: recolher seus pertences com Dominic presente ou sem ele. Não queria estar naquele apartamento sozinha sendo consumida pelas lembranças; não queria estar naquele apartamento com ele sabendo o que viveram ali. Estava em uma encruzilhada e restara a Dominic salva-la.













