dominicbahr:
Quando finalmente colocaram distância entre seus corpos, a respiração de Dominic estava ofegante. Permitiu-se usar a mão que repousava na base das costas de Estella para traçar o contorno de sua cintura, explorando suas curvas acentuadas com o toque, desvendando-a e a eternizando em memória. Seus olhos encontraram-se com os dela e ali se permitiram ficar, assistindo enquanto ela transparecia um turbilhão de emoções que estava aprendendo a decifrar. Ela tinha medo – medo do que poderiam vir a significar um para o outro, sim, mas medo sobretudo dela mesma e daquilo que era capaz de fazer. Todas as peças daquele confuso quebra-cabeça que a mulher diante de si representava pareceram se encaixar ao ouvir a confissão de que ela não tinha recordações do passado.
Por um segundo, indulgiu a si mesmo um momento para imaginar como seria sua vida se não tivesse memória alguma de todo o sofrimento que havia sido imposto à sua família desde que era jovem. Quase sentiu inveja da possibilidade de anestesiar-se através do esquecimento. Talvez fosse menos infeliz caso não carregasse consigo o peso da vida que deixara para trás e as cicatrizes que esta havia infligido sobre si, mas, ao mesmo tempo, sabia que eram seus traumas que o haviam moldado e transformado em quem era, e se o preço a pagar pela possível salvação de milhões de pessoas como ele era sua própria miséria, aquela era uma moeda de troca que estava disposto a oferecer, e seu altruísmo era um dos traços de caráter dos quais mais tinha orgulho.
“Eu vou te ajudar no que puder.” Prometeu a Estella, trazendo-a para perto de si novamente e a envolvendo em um abraço. Enquanto ela não podia ver seu rosto, se permitiu contemplar a possibilidade de contar-lhe tudo sobre si. Colocou na balança a confiança que havia adquirido nela e o temor de que a verdade viesse a ser exposta, e ficou satisfeito em perceber que sua vontade de dividir a vida com alguém falava mais alto do que quaisquer receios. Queria ser feliz e, para alguém como Dominic, a felicidade e a sinceridade caminhavam de mãos dadas, pois nunca conseguiria encontrar alegria plena mantendo segredos, e seria hipocrisia de sua parte cobrar que ela se revelasse por inteiro quando ele ainda guardava partes de sua história só para si. Decidiu começar pela essência de quem era – os detalhes poderiam ser acrescentados depois. Respirou fundo antes de recuar um passo, permitindo-se fitá-la novamente. “Eu… tenho um dom, Estella. Meu cérebro não funciona como o das pessoas normais.” Começou, tentando encontrar a melhor maneira de colocar aquilo que era capaz de fazer em palavras. “Digamos que eu sou inteligente para caralho.” Acrescentou, dando de ombros e se permitindo rir diante da própria tentativa de ser modesto. Era a pessoa mais inteligente que já havia vivido e bem sabia disso, mas não queria soar arrogante. “Se alguém pode descobrir um jeito de restaurar suas memórias, esse alguém sou eu.” Prosseguiu, escondendo ambas as mãos nos bolsos da calça, subitamente nervoso demais para impedir que tremessem. “Eu também tenho muitos segredos para dividir com você. Quis começar pelo mais importante, para que você soubesse que pode confiar em mim.”
Não tinha orgulho da sua fraqueza, mas sabia que ela estava ali por alguma razão. Manter tudo dentro de si não era uma escolha sabia, lutar contra seus demônios completamente sozinha, não tinha funcionado, e por mais difícil que fosse, ela precisava de ajuda, precisava de alguem, mesmo que negasse isso tudo no próximo segundo. Era cega demais quando se tratava de si, por puro medo, por não se conhecer, por não saber seus limites e também por ter a mínima noção do que aquilo que ela estava cultivando com Dominic poderia destruí-la ao mesmo passo que a ajudaria a se recuperar. Afagou lentamente a pele dele, e abriu um sorriso envergonhado, porque sabia que havia demonstrado ali mais do que ele havia pedido.
Deu ao outro o tempo necessário para que ele pudesse assimilar, sabia que aquele era um fardo grande, e não podia cobrar dele nada, ele tinha de escolher, ela havia sido honesta, havia deixado que seus sentimentos saíssem pela pequena rachadura em seu peito. Torcia para o melhor, para que Dominic não fugisse, mas sabia que a possibilidade de ele escapar por seus dedos era grande.
Encarou o rosto dele por alguns segundos, o medo que ali estava dando local para um sentimento novo, um que aquecia o seu corpo. Encostou sua cabeça sob o peito, e passou suas mãos pela cintura dele. Se sentia em paz naquele minuto, com as mãos de Dominic em volta de si, não havia nada que pudesse fazer, não havia quase nenhum resquício de medo, porque confiava nele, confiava nas palavras dele. Era loucura pular de cabeça naquela situação, mas sabia que seria mais doloroso se afastar e perde-lo. Ergueu seu olhar para ele quando seus corpos foram afastados, se sentia confusa, o que era tão importante a se dizer naquele minuto que requeria olho no olho? Não podia dizer que estava surpresa, acreditava mesmo que aquele cara fosse muito inteligente, sua fama e tudo mais pedia por isso. Não conseguia entender porque aquele era um fato tão importante. Até que tudo fez sentido, as manchetes, as pessoas que tinham dons, tudo fez sentido.
Por um minuto quis correr, porque aquela era uma ideia assustadora. Porque nunca em um milhão de anos imaginou que conheceria alguem e que depois de algum tempo essa pessoa se revelasse mais do que realmente era. Realmente acreditava que aquilo era algo que podia ver, que as pessoas eram realmente diferentes, mas no final elas não eram tanto assim. “Por um segundo isso talvez tenha me assustado, mas quem sou eu para julgar? Eu não tenho ideia.” Afirmou erguendo os ombros e mordendo o canto dos lábios. “Isso não é problema para mim, eu lido com coisas piores todos os dias.” Estava sendo sincera, lidava com adolescentes problemáticos que ofereciam mais riscos que qualquer outro ser com habilidades fora do comum poderiam. “Eu confio em você Dominic, eu confiei em você no minuto que te vi, por mais louco que seja isso.” Soltou uma risada fraca e desviou os olhos por alguns segundos. Recuperar suas memorias, isso era algo que naquele minuto não era tão importante, era mais assustador do que qualquer coisa. “Mas agora minhas memorias não são minha prioridade, eu só quero isso, o que quer que isso seja.” Até Estella se sentia curiosa sobre sua atual condição, mas por enquanto so queria viver e descobrir as coisas em seu próprio tempo. Só isso. “No seu tempo, eu vou ficar mais do que feliz de ouvir todos eles. Eu sei que eles fazem parte de você, e acho que é por essa razão que eu me senti tão atraída por você.” Abriu um sorriso fraco, deslizando suas mãos pelos braços dele e puxando uma de suas mãos dos bolsos enlaçando seus dedos.













