Domingo, dia 16 de dezembro.
Era inicio de tarde e todos estavam se preparando para ir a Manhattan. Na verdade nem todos. Alguns campistas ficariam no acampamento, por diversos motivos. Tecnicamente eu era um desses. Porém eu não podia fazer isso. Se eu fizesse, morreria. E bem, não estava preparada pra morrer. E pensar que tudo isso foi por causa de um erro estupido!
Arrumei minhas coisas e fui em direção a floresta. Depois de muito pensar em o que fazer decidi que era lá o lugar onde me esconderia. O principal motivo para essa escolha é que caso precisasse de algo poderia ir buscar escondida no acampamento.
O caminho até ela foi fácil. Ninguém me parou para perguntar “Ei aonde você esta indo?”. Claro que todos estavam ocupados demais preparando sua própria viajem. E quem talvez não estivesse, provavelmente não se importou. Bem, não era estranho me ver caminhando pelo acampamento. Afinal, era praticamente só isso que eu fazia. Mas geralmente, não tinha rumo. Dessa vez, eu infelizmente tinha.
Caminhei na floresta pelo que me pareceu horas. Mas talvez houvessem sido alguns minutos. Então andei mais e mais. Logo estava mais fundo do que jamais estive. Tudo ali era mais escuro e sombrio mesmo que pelas minhas contas não fosse nem três horas ainda. Ao longe ouvia barulhos, pegadas.
O medo tomava conta de mim. E quando fui perceber, lagrimas escorriam pelo meu rosto. Sentei-me encostada a uma árvore desejando nunca ter nascido. Ou não ter nascido semideusa. Fiquei um bom tempo assim, sentada, pensando, lembrando, chorando. Até que adormeci.
E rapidamente o pesadelo começou.
Tudo era extremamente branco ao meu redor. Branco até demais. Eu estava no centro desse lugar, seja qual for ele. Tentei me levantar mas minhas pernas não se mexiam. Tentei novamente com a ajuda dos braços mas descobri que estava usando uma camisa de força.
Então comecei a me desesperar. Fiquei um bom tempo gritando, tentando me soltar. Até que me acalmei, também era apenas um sonho. Mas foi ficar dez segundos parada para perceber. A minha esquerda havia uma cama. E havia um homem sentado nela.
Esse homem era meu pai.
Eu tentava falar com ele mas as palavras não saiam. Tudo o que eu conseguia era gritar e chorar.
- Inútil. – foi só isso que ele falou antes de desaparecer.
Porém eu não fiquei sozinha novamente. Em minha direita estavam todas as outras pessoas que conhecia e amava. Todos os meus amigos no acampamento. Leslie, Quíron até Elliot estava ali. E todos falavam no uníssono “Inútil, Elizabeth Pearse, você é uma inútil.”.
Então sem mais nem menos todos somem. Só sobre eu, sozinha naquela sala branca, chorando, desesperada para estar livre daquela camisa de força.
- Você ainda pode ser útil, cara semideusa. Ainda pode. - cortou o ar aquela conhecida voz. Atlas.
Segunda, dia 17 de dezembro.
Acordo ouvindo passos próximos. Meu rosto estava encharcado e muito provavelmente inchado. Não fazia ideia por quanto tempo eu tinha dormido. Não sabia se estava de dia ou se estava de noite já que onde eu estava era igualmente escuro nas duas situações.
Primeiramente achei que eu estava enlouquecendo quando ouvi as pegadas próximas. Porém logo eu vi. Eu vi um lestrigão. Logo atrás dele havia outro. E mais outro. E muitos outros. Eu gelei de pânico. Não conseguia me mover. A única coisa que consegui fazer foi parar de soluçar.
- Vejam se param de fazer barulho. –falou o da frente inutilmente, já que ele próprio fazia bastante ruídos. – Vamos, é por aqui.
Então eles se foram. Em direção ao acampamento. Mas se foram. Eles não me viram. Como não me viram? Mas foi só os passos deles ficarem mais distantes que eu percebi, caindo exausta no chão. Inconscientemente estava usando meus poderes, me camuflando na floresta.
Depois de me recuperar, peguei minhas coisas e corri em direção ao acampamento. Todos os poucos semideuses ali deviam estar preocupados com os lestrigões. Não me perceberiam. Eu acho.
E estava certa. Consegui tranquilamente me desviar de todos e sair dos limites do acampamento. Já lá fora não sabia que direção tomar. Porém se ficasse parada pensando me veriam. Optei seguir para direita. Claro, torcendo para não cair em Manhattan.
Parando de tempos em tempo para descansar e beber um pouco de água cheguei a um vasto campo. De acordo com a posição do sol deviam ser umas seis horas da tarde. Temendo caminhar a noite resolvi ficar ali mesmo.
Estava com medo de dormir. Medo de ter outro pesadelo. Mas meu estado não me permitiu decidir. Sem perceber mergulhei em outro terrível sonho.
Dessa vez tudo era escuro. Conseguia sentir alguém razoavelmente perto de mim. Atrás de mim na verdade. Ele respirava em meu ouvido. Ele era Atlas.
- Você traiu minha confiança. TRAIU MINHA CONFIANÇA. Achou que conseguiria se esconder?
Eu chorava, soluçava, tremia. Ele ria disso.
- É uma pena que não tenha quebrado totalmente o juramento. Mas enquanto isso, que tal nos divertimos? Eu, você e... Seu pai. Talvez possamos chamar seus amigos para brincar também. Isso se você tem amigos. Porque quem gostaria de ter amizade com uma semideusa tão inútil quanto essa? Ninguém, cria de Demeter. Ninguém.
Então o sonho mudou. Eu estava na “casa de loucos” de meu pai. Conseguia ver a cama dele ao longe. Tentava correr até lá mas não conseguia. Cada vez o caminho me parecia mais longe. Depois de finalmente desistir ele disse:
- Estou decepcionado com você, Elizabeth. Muito decepcionado.
Mesmo estando distante dele conseguia ouvi-lo. Aquela com certeza era sua voz. Eu queria explicar o porquê das minhas escolhas mas não conseguia. Não conseguia falar. E o que vi e ouvi logo depois disso piorou meu estado.
Papai gritou de dor. Havia uma faca enfiada em seu peito.
Eu não podia acreditar. Ele estava... Morto. E a culpa era minha. Totalmente minha.
Acordo com um sobressalto. Estava tudo escuro agora. Novamente não sabia por quanto tempo tinha dormido. Se fosse para chutar, chutaria que era uma da manhã.
Tudo o que eu conseguia fazer era chorar e soluçar. Ainda não conseguia acreditar que meu pai estava... Torcia para que tivesse sido apenas um sonho. Mas no fundo eu sabia que não era. Sabia que infelizmente era verdade.
Fiquei encolhida em posição fetal chorando até o dia amanhecer. Tomei um pouco de água e tornei a andar. Sabe, caminhar sempre me ajudou a esquecer dos problemas.
Terça, dia 18 de dezembro.
Devo ter andado uns dez quilômetros ate parar para descansar. Tinha conseguido ficar cinco minutos sem chorar, o que era um recorde. Resolvi que era a hora de saber como andavam as coisas com o resto do pessoal na cidade.
Andei até um pequeno terreno. Lá, a esquerda da casa, havia uma mangueira. Discretamente usei-a para fazer um arco-íris, peguei um dracma em minha mochila e disse:
- Oh Iris, deusa do arco-iris por favor me mostre Colin Aplin em Manhattan.
Quando ele apareceu, fiquei aliviada.
- Hey, Colin, feliz aniversario!
- Obrigado. Como estão as coisas ai no camp?
Droga. Por que eu não imaginei que ele perguntaria isso? Depois de um tempo pensando respondi:
- Um tanto tranquilas. sabe, já que não tem quase ninguém aqui. Mas as vezes aparece uns monstros.
- Fico feliz por isso… Os mantenha em segurança, ok?
- Ok. E não morra nem deixe ninguem morrer, combinado?
Após engolir em seco e me responde desviando o olhar:
- Vou tentar… Mas temo que seja tarde demais.
- C-como assim? Não me diga que alguem morreu. Por favor não diga.
- Eu gostaria de te poder dizer isso… Mas não quero mentir pra você. -disse antes de um suspiro.
- C-colin, quem morreu?
Antes que o moreno pudesse responder a mensagem caiu. Estava chorando absurdos novamente.
Havia mortos no segundo dia de batalha. E eu era uma das culpadas.Não queria nem imaginar quem eram.
Sai do terreno e sentei-me no campo chorando.
Depois de mais ou menos dez minutos eu ouço passos vindo a oeste. Quando olho não acredito no que vejo. Era... Era meu pai. Ele estava totalmente ensanguentado e mancava. Corri até ele mas quando chegava perto ele se afastava.
- Eu não quero nada de você, Elizabeth. Você traiu aquele que jurou lealdade, você é uma inútil. É a culpada por todas as mortes. Inclusive pela minha.
Foi então que eu desmaiei.















