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@elizabethmulciber-bl
Complicado ainda estar em Hogwarts? Se último ano está sendo o que você sempre sonhou?
It has been like every other years. I mean, this year my parents are especially concerned about my future and what I will do next year. But it is their concern, not mine. To be very honest, I do not know what I want to do and I am not even interested to know.
[Flashback] Everything that kills me makes me feel alive | Libby & Doc | January 67
Aos sete anos de idade (recém completados – ele certamente observaria), Caradoc Dearborn se convencia a cada dia mais que havia muito no mundo ainda a se conhecer. Seu eu de seis anos talvez discordasse: no ápice de algum de seus episódios de arrogância pueril, amuado com as suas próprias limitações, não seria difícil imaginá-lo querendo se assenhorar de um conhecimento que evidentemente não possuía. Agora, mais velho, no entanto, parecia entender com mais clareza a extensão imensa do mundo que o cercava, talvez em contraste ao universo reduzido em que se via obrigado a viver desde o mês anterior, ao ter as brincadeiras no quintal de casa vetadas de seus privilégios, bem como ter o escritório de seu pai como território proibido. Era o inverno, sua mãe dissera, estava muito frio lá fora. Papai não quer vocês dois entre os negócios, ela justificara – mas Doc não acreditara. Galahad, com quatro anos, engrossava o coro de descontentamento, mesmo que não compreendesse a situação de um todo – como tampouco fazia seu irmão mais velho, mesmo que esse parecesse convencido do contrário. O espírito naturalmente inquiridor e curioso do primogênito, entretanto, sentia-se profundamente ferido com tais proibições.
Ele sabia que tinha de obedecer, mas não queria.
Detido dentro de sua própria casa, quando soube que iriam a um jantar nos Avery, Caradoc pareceu mesmo se animar com a possibilidade de mudança de ares, embora jamais houvesse gostado de reuniões como aquela. Eram sempre pessoas demais, falando sobre temas demais, e nunca deixando com que as crianças participassem de coisa alguma (!). Esperava-se deles, os filhos, que se comportassem apropriadamente e brincassem uns com os outros, enquanto seus pais cuidavam do que quer que precisavam discutir – o que, por um lado, dava o tipo de liberdade que ele sabia apreciar, mas também o forçava à companhia de outros iguais seus que não o queriam por perto quanto ele mesmo não queria estar perto deles. Você vê, as habilidades sociais de Doc nunca foram das mais polidas, visto de natureza introspectiva e tímida, não era de seu feitio integrar-se com facilidade. Para completar, não era nem mesmo como se tivesse muitas oportunidades de “praticar”. Por mais que tentassem parecer o contrário, era claro que os Dearborn não eram tão benquistos entre a elite quanto gostariam. Poucas famílias sentiam-se seguras em se filiarem abertamente a um clã que, no último século, apenas fizera decair. E embora não pudesse compreender plenamente tais arranjos políticos, econômicos e sociais, ele sentia na pele os efeitos de tal mentalidade, visto que mesmo que apenas intuitivamente (e, talvez, por avisos de seus próprios pais sendo cumpridos), até os integrantes mais jovens pareciam sabe-lo – e não o queriam como seu amigo. Mas, por u, instante, ele pensou que mesmo isso poderia ser melhor. Além do mais, estava se cansando dos livros aos quais tinha acesso, que sempre repetiam as mesmas baboseiras infantis (para as quais ele era velho demais, agora que já tinha sete).
Às margens da suntuosa sala de estar dos Avery, estava quase convencido de que se enganara com relação a isso.
Oscilava o apoio do peso de seu corpo das pontas de seus sapatos bem polidos para os calcanhares, sozinho com seus próprios pensamentos (Galahad estava com sua mãe), quando ouviu uma voz familiar chamar-lhe pelo nome. Tão logo levantou os olhos, encontrou a figura apressada de Elizabeth Mulciber avançando em sua direção, um sorriso despontando em seus lábios muito finos. – Libby! – ele saudou, sem disfarçar sua animação. Libby Mulciber era uma das poucas crianças do seu “meio” que havia se tornado uma amiga para Caradoc – muito diferente de seu irmão, que ocorria de ter a mesma idade que Dearborn, mas com quem nunca esse simpatizara. Ela era diferente. Não parecia ter ressalvas ao lidar com ele e, na verdade, compartilhava de muitos de seus pensamentos e ânsias, além de ter um tino particular para o tipo de brincadeira que o agradava muito mais do que as barbaridades que por vezes outros colegas seus sugeriam. Na verdade, Doc quase não se surpreendeu ao vê-la segredar, quase de imediato, seus planos para aquela noite, antevendo o convite para acompanha-la rapidamente, mas ergueu as suas sobrancelhas em choque mesmo assim.
A bem da verdade, não estava tão familiarizado com a história sobre o dragão dos Avery, de modo que parte do seu espanto foi, de fato, genuíno. Pelo que se recordava, eles deveriam possuir, na verdade, um grifo, porém a hipótese sugerida por Libby lhe parecia muito mais interessante, justamente porque menos provável. A coisa toda soava muitíssimo mais divertida do que fingir estar fazendo algo em um dos cantos da sala de estar dos Avery, verdade seja dita, ainda mais se considerado todo o mistério que envolvia aquela missão, mas hesitou por um momento em concordar com aquela ideia. Ele não deveria, mas queria.
– Você tem certeza que ouviu vindo lá de cima, Libby? – indagou, por fim, em genuíno interesse, convencido da ideia. – Não seria melhor colocá-lo debaixo da casa? Quer dizer, a não ser que eles tenham encantado um quarto para ser um… quarto muito maior, como ele caberia lá dentro? E como será que eles botaram ele dentro desse lugar? Será que é só um filhote? Ou era? – ponderou, verbalizando apenas metade do que se passava em sua imaginação fértil. Depois, estalou um muxoxo. – Tá… Por onde você prefere começar?
Já pela segunda pergunta, nada mais ouvia e, tampouco, tentava encontrar as respostas tais dúvidas. Abriu e fechou a boca fazendo menção de dizer algo mas, por fim, decidiu que era melhor não arriscar nenhuma hipótese, caso contrário poderia instigar ainda mais a natureza questionadora do amigo. Gostava de Caradoc, mas não de sua mania de que querer entender tudo – muito embora ela mesma compartilhasse da mesma mania – e gostava ainda menos quando ela não conseguia responde-lo com propriedade que gostaria. Assim, apenas aguardou que terminasse todas as perguntas, mantendo um semblante de quem perguntava silenciosamente quem se importava com tantos detalhes, afinal, era um dragão! Um verdadeiro – ou talvez verdadeiro apenas em sua imaginação – dragão a disposição deles naquela enorme mansão. Não queria perder tempo com tantos pormenores diante da oportunidade que tinham em mãos. E, aparentemente, o garoto ao menos compartilhava da mesma opinião, visto que mesmo sem ter suas dúvidas sanadas logo se prontificou em se juntar a busca.
Bateu as palmas das mãos no próprio vestido como se preparasse para uma jornada exaustiva pela frente, porém, deteve-se diante a última indagação de Dearborn. Até que aquilo fazia algum sentido, considerando que a casa dos Avery era realmente grande – ainda mais para pessoas tão pequenas quanto Libby – e haviam muitos lugares onde poderiam esconder um dragão – ou talvez nem tantos assim, caso fosse mais racional. – Agora que você mencionou... – começou com a voz um pouco hesitante relembrando – e finalmente dando alguma atenção – aos questionamentos anteriores, como se pela primeira vez naquela situação extremamente fantasiosa encontrasse um empecilho. – Eu não tenho muita certeza se o barulho vinha lá de cima... – E, mesmo que não fosse admitir, era bem verdade que não fazia muito sentido guardar um dragão nos andares superiores. O pé direito da casa não parecia alto o suficiente para acomodar um dragão, exceto se os maus-tratos fossem ainda maiores do que imaginava e os Avery obrigassem o pobre animal a permanecer curvado durante todo o tempo. – Pode ser que tenha vindo lá de baixo e eu não percebi. – deu de ombros. Era um erro honesto, afinal, o salão estava cheio e pouco conseguia ouvir sua própria voz quando falava.
– Bom, vamos começar por baixo. – determinou com firmeza, rapidamente puxando o garoto pela mão e correndo em meio ao salão abarrotado de pessoas. Desviava dos adultos com tal afobação que por pouco não os derrubava. Embora sua animação fosse natural, seria prudente se lembrar que era uma fugitiva e bastaria que seus pais a encontrasse fazendo tal balburdia para que seus planos fossem para as cucuias. Mas não foi tal pensamento que a deteve, brecando os próprios passos de maneira brusca e quase derrubando o garoto que puxava pela mão. – Você tem que tomar cuidado, Doc. – pediu em tom ligeiramente mandão como se não fosse a própria culpada pelo quase acidente. – Se você se machucar não vai dar pra continuar. – Explicou como se fosse a pessoa mais sábia do mundo – ao menos era o que pensava ser. – Mas, vem cá... – Certa vez havia escutado de sua mãe que mas sempre antecedia algum problema, e era exatamente por isso o uso de seu mas. – Você sabe onde ficam as escadas para o andar de baixo?
Beyond the door there's peace I'm sure And I know there'll be no more tears in Heaven
[Letter] Tears In Heaven | September 81
Dear Dylan,
What is up, big bro? I did not know how I should start this letter because – as you already know – I am no longer with you. You are probably very mad at me and you have all reasons for it. I did not come here to say I am sorry – despite I know you deserve an apology – but my intention in writting this letter is to let you understand why I did what I did. I thought I should say goodbye to the people who were - still are - important to me and you were the first - perhaps the only - person that crossed my mind. You are my big brother, the only person in the whole world who was by my side throughout my life.
We have lived many things together and you have always been my safe haven. We have the same scars and I know how hard is to handle them, handling your own scars and also help me to hadle my scars was not fair. And it was even more unfair that we had to survive the abuses of our own father. He should be our safe haven and not the reason of our scars. But you took the reponsability to take care of me and you fullfiled the role very well. Thank you, Dylan. For a long time you were the reason that kept me alive.
But I could not handle my scars, they were burning on my skin as if they would want to tell me that they were stronger than anything. And I could not feel anything but my scars burning all the time. There was no more sadness or fear, but apathy for life. There was no reason for my life because I was feeling nothing. I was apathetic for my own life. I was feeling as if I had gone but my physical body was trapped in a life wich every day were absolutely the same. I was totally empty.
Some people take medicine to cure their pain, I had no medicine to cure my pain, but I needed to free myself and stop being empty. Although I had never known what it was to be free, I was missing my freedom. It was sad to miss something I have never had. Then I realized that the only chance of freedom was running away from everything that held me here so I had to go.
I hope you do not run as I ran, you were always braver and I am sure that your scars will not bother you as much as my scars bothered me. You deserve a full life without worrying about me all the time. That is my last gift to you. I love you, big bro, you were – and always will be – the only person in my entire life I have loved every single day. Please, never forget that.
With love, Libby Mulciber.
The Mulciber Siblings
“He would do anything for her. To protect her.”
Você não tem que brincar com ninguém se não quiser. Se ele chegar perto de você vai ter que se ver comigo e ele vai ficar tão assustado que nunca mais vai querer vir.
Vem, mamãe tá procurando você em toda parte.
Mas não precisa assustar muito ele. Só um pouquinho já tá bom.
Será que ela tá brava? Vamos lá, não quero levar bronca.
Eu sei, eu sei…
Ma a gente precisa ir, Libby. Papai vai perceber se a gente não for e não vai ficar feliz. Vem… Não vou sair do seu lado, eu prometo.
Você promete mesmo?
Eu não quero aquele menino Carrow perto da gente. Ele me assusta. Ele não é nosso amigo. Mesmo que papai fale que a gente tem que brincar com ele, eu não quero.
Eu não quero sair daqui! Eu não gosto dessas pessoas, Dylan. Vamos ficar aqui escondidos, por favor?
Take me to church
I'll worship like a dog at the shrine of your lies
I'll tell you my sins
So you can sharpen your knife
Offer me my deathless death
Good God, let me give you my life
[Flashback] Everything that kills me makes me feel alive | Libby & Doc | January 67
A melancolia abarcada nos olhos azuis pálidos nem sempre estivera lá. Aos cinco anos Elizabeth Mulciber era como qualquer outra criança de sua idade, com um mundo inteiro a ser descoberto. Os olhos azuis que ainda carregavam certa inocência infantil observava todos os detalhes decorativos que enfeitavam a mansão dos Avery, como se precisasse capturar todos os detalhes a fim de guarda-los em sua memória. Ao mesmo tempo, segurava com força a mão de seu irmão mais velho, sentindo-se um pouco menos desconfortável no meio de tantas pessoas estranhas. Embora já carregasse certa timidez que era intrínseca a sua própria natureza, controlava seu ímpeto de sair pelos cômodos daquela enorme casa e descobrir o que escondiam as pesadas portas de madeira. Tão grande era sua curiosidade que sequer percebera o momento em que sua mão desvencilhara a de seu irmão, encontrando-se sozinha no meio de tantos estranhos. Era a primeira vez que a deixavam sozinha em um evento purista, mas Elizabeth não chorou, tampouco procurou por sua família. Enxergou naquele momento a possibilidade de dar vida as suas próprias vontades. Ela ainda não tinha medo, era corajosa e ainda não havia aprendido sobre as tais consequências que anos mais tarde seriam as responsáveis pela palidez de seu olhar.
Sorriu genuinamente avistando uma figura conhecida tão solitária quanto ela própria em um dos cantos do salão. – Doc! Doc! Caradoc! – chamou com animação – que anos mais tarde lhe seria tomada – ao mesmo tempo em que caminhava em direção ao garoto. Embora a criação abusiva recebida de seu pai ainda não tivesse a modificado, em sua própria essência sempre fora alguém de poucos amigos, preferindo aqueles a quem se identificava de certa forma. E no menino identificava a mesma curiosidade que a impulsionava a tantas situações consideradas impróprias pelos seus pais. Elizabeth queria saber tudo, entender tudo e descobrir tudo. Essa vontade era, talvez, o que a fazia gostar de Caradoc. Neste ponto os dois eram iguais, mas não tão iguais a ponto de seu pais apreciarem tal amizade. Os Dearborn possuíam um líder frouxo e não era do interesse dos Mulciber serem relacionados a uma família de estrutura tão frágil. Mas, Libby era ainda muito nova para entender as complexas redes de alianças do meio purista. Gostava da companhia de Caradoc e isso era o suficiente para mantê-lo em sua nada complexa rede de amizades.
– Eu estou procurando o dragão de estimação dos Avery. – informou abaixando o tom de voz para que nenhum adulto fosse capaz de ouvir seus tão secretos planos. O boato de que os Avery mantinham um dragão de estimação preso em dos cômodos da casa era apenas uma das várias lendas que as crianças do meio cultivavam uns sobre os outros. Tais lendas como um treino para quando crescessem, para que se acostumassem com o falatório e boatos que sempre permeavam as grandes famílias. – Acho que ouvi o barulho de choro de dragão nos andares de cima... – fantasiou a própria história tentando parecer um pouco mais interessante do que realmente era, talvez o menino a acompanhasse caso achasse a história realmente intrigante. – Aposto que eles fazem ele passar fome. – revirou os olhos desgostosa com a possibilidade, acreditando em sua própria mentira. Olhou para os lados misteriosamente, certificando-se de que não havia nenhum adulto por perto. – Vamos lá? Eu nunca vi um dragão de perto.
When you try your best but you don't succeed
When you get what you want but not what you need
When you feel so tired but you can't sleep
Stuck in reverse
Silent Night | Mulciber Siblings (Flashback)
Quando Libby tomou a palavra, Dylan alteou as sobrancelhas em sobressalto e seu olhar foi imediatamente da irmã para o pai, preparando-se para o pior. Já via as feições do pai se alterarem em desgosto quando a menina rapidamente emendou sua fala em arrependimento. Dylan expirou profundamente, sem se dar conta de que estivera prendendo a respiração esperando pela reação de seu pai. Já se preparava para tomar partido da irmã se necessário fosse e sabia o quanto lhe custaria entrar em mais um embate com Aleister. Mas Libby era a única pessoa por quem Dylan levantaria a voz diante do pai. Tantos anos naquela casa sob as regras de Aleister fizeram com que se tornassem cúmplices, sabia que não podiam contar com Morrighan então só restava a eles um ao outro. E Dylan se sentia responsável pela irmã desde a primeira vez que pôs os olhos nela. Chorando em seu berço e finalmente se aquietando quando viu o rosto do irmão mais velho, o cenho franzido em curiosidade e confusão, sem parecer entender exatamente da onde tinha surgido aquele pequeno ser barulhento. Mas então ela emitiu um som adorável e sua expressão relaxou em um sorriso afetuoso. Mesmo que não se lembrasse de muitos acontecimentos da sua infância, carregava aquilo em sua memória com distinta nitidez.
– Mas você não está completamente errada – ponderou Aleister. E Dylan esperou, sabendo que ele não estava simplesmente admitindo que a observação de Libby tinha seu valor. Havia algo mais. Sempre havia. – De fato devíamos firmar mais alianças. Devíamos e vamos. Mas você não deveria se preocupar com isso... – Era um jeito sutil de dizer que ela não deveria se intrometer em suas decisões. E mesmo que Aleister tivesse sido deliberadamente vago em sua réplica, Dylan sabia onde ele queria chegar. E não gostava nem um pouco.
– O que você quer dizer com isso? – Questionou, sua respiração se alterando diante da possibilidade de ter que bater de frente com o pai. – Com certeza já temos nossos contatos. Os Avery, os Nott… Não é realmente necessário… – Mas não completou em voz alta. Olhou de soslaio para Libby e engoliu em seco. Não é realmente necessário que haja mais noivados nesse família, completou mentalmente. Sabia que era o curso natural das coisas, após resolver os pormenores de seu casamento, tentariam achar um pretendente à altura para Libby, expandir a rede de influências da família. Mas aquele era um fardo que a irmã não precisava carregar. Ela não levaria o nome Mulciber adiante, não era ela a responsável por perpetuar sua linhagem. Ele era. Não via por que submetê-la ao mesmo destino que ele, quando ela só colheria o ônus enquanto a ausência de livre-arbítrio do rapaz no momento seria devidamente recompensada posteriormente. Era essa perspectiva que o mantinha firme em seu propósito, que o mantinha acatando os desejos do pai, que apesar dos pesares, reconhecia ser um homem brilhante. Eram os planos de Aleister que permitiriam que Dylan obtivesse tudo aquilo que aspirava, ainda que doesse admitir. Mas Libby nada ganharia com tudo aquilo e não lhe parecia justa, mesmo que uma parte sua mais racional conseguisse entender onde o pai queria chegar. Um dia seria ele a tomar aquelas decisões pelo resto da família. Um dia seria seu dever e não haveria espaço para relutância ou hesitação. Mas Dylan ainda não estava disposto a abrir mão da felicidade da irmã, mesmo que Libby já não soubesse há muito tempo o que era ser feliz.
– Eu decido o que é realmente necessário. Você faria bem em se lembrar disso. – Aleister retorquiu rispidamente, o olhar preso ao de seu primogênito novamente como se o desafiasse a questionar sua autoridade mais uma vez.
– Você pode pôr tudo a perder. – Dylan se surpreendeu com a petulância de sua própria réplica, mas parecia tarde demais para voltar atrás. – Você pode pôr tudo a perder se não considerar todas as possíveis consequências de uma decisão como essa.
Por um momento Dylan chegou a pensar que o pai preferiu ignorá-lo, dado o silêncio mortificante que recaiu sobre o aposento. Mas Aleister levantou de supetão e andou até onde estava o filho, inclinando-se sobre a poltrona, fitando-o fixamente. – Ninguém aqui está tão próximo de pôr tudo a perder quanto você. – Sussurrou para que apenas Dylan pudesse ouvi-lo. Seu tom calmo e contido era desconcertante, mesmo que o rapaz já estivesse tão acostumado àquele tipo de tratamento que até mesmo o emulava. – Feliz Natal. – Acrscentou em voz alta, abrindo um sorriso que era quase assustador vindo dele. E Dylan sabia que aquela era sua deixa, um convite para que se retirasse. Sentiu a raiva tomar conta dele, trazendo um rubor ao seu semblante e embora fosse completamente tentador dar vazão a ela, decidiu que deixar o aposento era o mais sensato a ser feito.
Aos dez anos enterrou sua coleção de sonhos em algum lugar tão escondido que jamais conseguiu encontra-la novamente. No lugar dos sonhos, passara a colecionar os gritos não emitidos de todas as vezes em que a prudência falara mais alto do que sua própria vontade e que o medo enraizado se mostrara mais presente do que seu livre arbítrio. Elizabeth não gritava, não se expressava bem em público e muito menos contrariava as ordens de seus pais. Os gritos paravam em sua traqueia e doía, como se já não houvesse mais espaço para que acumulasse tantas mágoas. No mais, aquela era apenas mais uma de várias outras insatisfações que seria silenciada como todas as outras. Remexeu-se desconfortável diante da resposta de seu pai que a aconselhava para que não se preocupasse, sabia que era apenas uma maneira sutil para que não se colocasse nos assuntos que não lhe diziam respeito. Mesmo que aquele assunto – mesmo que não verbalizado de maneira explícita – dizia nada a menos sobre o seu casamento.
Elizabeth sempre soubera que algum dia um noivado lhe seria imposto e que não haveria conversa alguma que mudaria isso. Por anos tentara se acostumar com a ideia, mas nem cem anos seriam capazes de faze-la enxergar tal perspectiva de maneira positiva. Enrolava uma mão na outra como se buscasse algo para acalmar seu próprio nervosismo. Buscou apoio silencioso em seu irmão que, no entanto, se mostrara menos prudente do que ela própria. Engoliu seco diante ao embate travado entre Aleister e Dylan. Apertava os próprios dedos contra as mãos com força, queria pedir para que o rapaz parasse, que não se prejudicasse por sua causa, mas não conseguia. Era mais um grito que ficava preso em sua traqueia, como se o medo de seu próprio pai a impedisse de tomar frente a favor daquele quer era sua única família. – Dylan... – Sussurrou em tom baixo inaudível com tanta dificuldade que ninguém conseguira ouvir.
Os dedos se apertavam ainda com mais força contra suas mãos quando Aleister caminhou em direção ao filho mais velho e sussurrou algo que sequer conseguira ouvir. Boa coisa não era, pensou fechando os olhos e evitando que as primeira lágrimas caíssem. Há muito tempo não sentia nada que não medo e daquela vez, sentia por seu irmão. Os dedos se afrouxaram quando o mais velho se afastou, sustentando um sorriso enigmático que beirava ao sádico. Não tardou até Dylan se retirar. Respirou fundo e ainda que a preocupação palpitasse em seu peito como se a urgência de correr atrás de seu irmão mais velho não fosse possível de ser contida, fingiu – como sempre – que nada havia acontecido. Aguardou o que pareceu um século, até que sua presença fosse dispensada.
Ainda fingindo uma tranquilidade que não existia, caminhou em direção aos aposentos de Dylan, batendo timidamente na porta até que sua entrada fosse permitida. – Dylan? – chamou em tom sussurrado, enquanto entrava lentamente procurando pela figura do rapaz. – Você não precisava fazer aquilo. – falou sincera abaixando os olhos, com vergonha de si mesma, sentindo-se culpada pela cena desenrolada minutos atrás. Caso ela não tivesse contrariado Aleister, não haveria qualquer necessidade de Dylan tomar frente a seu favor. – Você está bem? Eu sinto muito... – abaixou os olhos azuis pálidos genuinamente arrependida. Deveria ter aprendido a ficar quieta, deveria ter abafado sua própria insatisfação como sempre fazia e não teria colocado aquele quer era sua única família em tal situação.