No instante em que Neill deixou Callum soltar sua mão para se aproximar de Emeraude, ele se sentiu completamente inseguro. E todas as acusações de Bryson voltaram a sua mente em uma rapidez que quase lhe deixou tonto, a única coisa que ouviu da conversa foi a mulher dizendo que ele havia falado muito sobre Callum pra ela e quase riu daquela mentira.
O encontro deles anterior ao jogo, não havia sido um dos melhores e sem dúvida existia uma parte de Neill que preferia que Kravitz nunca tivesse voltado. Ele não precisava da presença dela para lhe fazer lembrar todos aqueles anos sem ela, ele já tinha uma cama vazia que lhe fazia recordar de tudo quando colocava a cabeça no travesseiro no fim do dia. Era por isso que deixava Callum dormir com ele quantas vezes ele quisesse, porque ele preenchia aquele vazio, não só na cama, mas em sua vida também. Mas existia também aquela parte dele, que se tornará cada vez menor, que insistia em ter esperanças de uma volta e de as coisas iriam se encaixar facilmente. Só que elas não pareceram nenhum pouco fáceis quando a morena apareceu na porta de seu escritório uma semana atrás.
Neill havia perdido totalmente o controle da situação mais uma vez e tinha ficado tão tonto com a presença da ex-mulher como havia ficado quando foi abandonado pela mesma. Ela não havia dado tempo para ele falar sobre Callum, ela sequer tinha perguntado como ele parecia ou o que ele gostava. O fato do Blishen ter dito que ele nem sabia da existência dela, parecia ter sido o suficiente para acabar com o dia dela e também para que ela não fizesse mais perguntas. Eme não sabia que Callum era fissurado por dragões por causa de Dyl, não sabia qual era o brinquedo favorito, como eram os desenhos que ele fazia na parede, a quantidade absurda de chocolate que ele podia comer de uma vez só ou até mesmo de sorvete, ou a forma como ele aparecia na madrugada pronto para pegar na mão de Bryson e se sentar no colo do tio sem ligar para o cheiro de álcool ou os machucados, apenas na tentativa de acabar com a discussão entre os irmãos Blishen e principalmente, não sabia que Callum já havia chorado algumas vezes pela falta de uma mãe que ele sequer conhecia.
Só voltou a prestar atenção na conversa quando ouviu ela dizer sobre logo o filho entender tudo. Neill não sabia exatamente quando seria aquele logo, se seria daqui uma semana, um mês, dois meses ou um ano. Ele não sabia quando ou se algum dia estaria pronto para explicar pro filho toda aquela história, principalmente quando nem ele mesmo a entendia direito. Ele preferia que o filho nunca soubesse aquilo, que nunca precisasse lidar com o sentimento de abandono. A verdade era que Neill não queria que Callum conhece o sentimento de rejeição, de parecer que não era um bom motivo para fazer alguém ficar.
Sem saber exatamente o que fazer, após aquela pequena conversa entre a ex e o filho, Neill se lembrou da promessa que havia feito sobre tomar sorvete após o jogo. E numa tentativa de fugir daquela situação, ele achou que fosse a melhor opção pro momento. “Então, ainda quer tomar aquele sorvete que te prometi?” Perguntou pro filho, que se virou para ele com um grande sorriso no rosto. Aquelas pareciam palavras mágicas para Callum. “Sim.” A resposta animada do filho fez com que Neill risse e em seguida já pensasse em se despedir de Eme. Mas foi pego desprevenido pela pergunta do mais novo. “Ela pode ir com a gente?” Sem saber como exatamente responder aquilo, o Blishen se virou para a mulher. “Eu não sei se ela vai querer nos acompanhar, talvez esteja cansada após o jogo.” E então ouviu Callum dizer “Vem com a gente, meu pai vai pagar um montão de sorvete.” E ele sabia que era difícil recusar um convite do filho, por isso apenas suspirou enquanto esperava que a resposta da ex, já sabendo que ela seria positiva e que ele teria que lidar com aquela situação por mais tempo.
Emeraude ter entrado na destilaria Blishen e ido até o escritório de Neill não foi algo que simplesmente aconteceu. Não, ela havia se preparado para aquele momento por dias, por semanas, quiçá desde o dia em que deixou a casa deles para trás. Kravitz havia se preparado para os mais diversos rumos daquela conversa, a maioria sempre considerando o pior cenário possível, onde Neill a colocaria para fora ou gritaria tudo o que ele tinha para gritar ou até mesmo os que ela não encontraria Neill e sim Bryson, o que se tornava ainda mais complicado e perigoso. Entretanto, Emeraude não previu a resposta de Neill em nenhum daqueles cenários. Callum não sabia que tinha mãe, ou ao menos não sabia sobre a sua mãe. E o que a fez deixar o escritório não foi o choque de saber que Neill, Bryson e Polly a apagaram completamente da vida de Cal, mas sim a consciência que a acometeu pela primeira vez em todo aquele tempo longe: o quanto Callum sofreu por não ter uma mãe em seus primeiros anos de vida? Ela havia se machucado indo embora, havia machucado Bry e Neill também. Mas o único realmente machucado havia sido Callum. E a culpa era apenas sua, independente da justificativa que arranjasse, se culpasse Polly por tê-la influenciado na decisão. Foi ela quem saiu pela porta, era a única culpada.
Como poderia ter sido sua vida se tivesse permanecido? Novamente, inúmeros cenários se formavam na cabeça de Emeraude. Flashes que eram tão perfeitos que ela poderia jurar que eram partes de sua memória que realmente aconteceram. O casamento deles no jardim da residência Blishen em Dufftown, os convidados sentados nas cadeiras de madeira enquanto Emeraude caminhava pelo corredor para encontrar Neill a esperando no altar. Os primeiros passos, as primeiras palavras, o primeiro aniversário, os primeiros anos do filho passados ao lado da mãe em um lar seguro e repleto de amor. Uma segunda gravidez, dando a Callum um irmãozinho ou uma irmãzinha. Emeraude Blishen como jogadora profissional ou dona de casa, àquela altura ela realmente já nem ao menos se importava com isso, apenas em amar os filhos e Neill.
Mas eram apenas ilusões, nada daquilo aconteceu e não havia mais possibilidade alguma de acontecer depois de tudo. Neill nunca a aceitaria de volta. E mesmo se a aceitasse, como seria para Callum quando pudesse realmente entender o que havia acontecido? Como ele poderia entender que a mãe havia o deixado para trás pouco após o seu nascimento e voltado dois aos depois? Emeraude tinha consciência do que havia feito, era por isso que não cobrava de Neill nada além de poder ver Cal por alguns minutos. Callum apenas saberia da verdade caso Neill decidisse, caso contrário Eme nunca faria isso. Não desejava causar mais sofrimento a ninguém.
Ajeitando-se à frente de Callum, Eme encarou Neill à espera de uma resposta sobre o pedido do filho para que ele acompanhasse eles até a sorveteria. “That’s... That’s fine if you don’t want to.” Falou para tranquiliza-lo que entenderia se ele não a quisesse por perto mais do que já estava, mas torcendo para que ele aceitasse a companhia dela e permitisse que ela passasse mais alguns momentos ao lado do filho. Por Morgana, abraçar Callum era o que Emeraude mais queria fazer naquele momento. Queria poder senti-lo em seus braços da maneira que não sentia há quase três anos, mas com a qual sonhava toda noite. A vontade também se estendia a abraçar Neill. Havia noites em que ela poderia jurar que sentia o perfume dele em seu travesseiro, dando a ela a falsa sensação de que quando esticasse os braços o sentiria ali ao seu lado ou que quando abrisse os olhos encontraria Neill deitado no lado esquerdo de sua cama, da mesma maneira que dividiram desde a primeira vez que dormiram juntos – muitos anos antes, dois adolescentes descobrindo um ao outro e ao amor juntos, completamente desajeitados e sem saber direito o que fazer. Ali ajoelhada à frente de Callum e esperando a resposta de Neill, Emeraude sentiu como se décadas e mais décadas tivessem se passado, deixando aqueles dois jovens perdidos em algum lugar no tempo.