A tristeza de algo delicado se tornar bruto
Sabe aquele chalé localizado na praça do lado da minha casa, aquela areazinha em que tem jogos de dama. Nós já ficamos tantas vezes naquele lugar, jogando conversa fora quando éramos a pessoa favorita um do outro. Lá também nos encontramos quando estávamos “separados” em 2019. Eu já não era mais sua pessoa favorita, mas ainda assim insisti. Pois bem, havia um chalé em frente, ele era lindo, o portão era vazado e se via o laguinho na frente, a decoração com sapos, branca de neve, anões. Via-se o caminho de pedra até a entrada da casa, uma porta de madeira com moldura redonda. Aquela casa era linda, ela era um retrato de lar, família. Coincidentemente, desde que nos separamos ali virou um canteiro de obra. Logo retiraram o lago, subiram um muro alto, quadrado, daquelas estruturas atuais que bem conhecemos e criticávamos tanto. Mais pra frente com certeza irão colocar um portão fechado de alumínio. Não duvido que vão tirar a porta de madeira de dentro, ela não traz a segurança adequada. É ruim testemunhar que algo tão delicado tenha se tornado algo tão bruto, o lar incomum se tornar algo frio e igual aos demais. A modernidade chegou e parece que não existe mais a transparência de um portão vazado ou de namoros inocentes. O ditado diz que não adianta lutar contra a modernidade, assim como não adiantou lutar contra um fim que já existia em 2019 e só foi postergado até se tornar um muro alto e intransponível. A plaquinha de “chalé” na casa não vai mais existir, agora vai ser só um número cardinal numa rua no subúrbio do Rio. Nosso amor também só vai virar um número, mas ordinal, primeiro.

















