「WHERE DID THE PARTY GO」
Ela o encarava. Ele devolvia.
A intensa e silenciosa ligação entre eles, a qual se sustenta por alguns pares de segundos, foi mais explicativa e evidente do que uma conversa inteira. De fato, sua troca de olhares, no meio daquela multidão composta por tantas raças diferentes, teve um peso muito maior do que o imaginado — é incrível, também, a reciprocidade de seus pensamentos; os dois com certeza pensavam na mesma coisa enquanto observavam um ao outro de forma mútua e agressiva.
Lilith rapidamente percebe seu próximo movimento, feito um predador afixado na caça de seu alvo. Ela não se dá ao mínimo trabalho de reprimir um sorriso brincalhão e risonho em seus lábios quando o vê abandonar a desconhecida que há pouco acompanhava-o. Pelo o que pôde perceber, ele possivelmente inventou algum tipo de desculpa, dita de forma direta e seca, para livrar-se da infeliz garota — e essa demonstração de insensibilidade e arrogância foi exatamente o que a fez rir. Sabia que, de algum jeito, aquele garoto era diferente. Diferente dos quais com quem já lidara.
Mais do que um mero entretenimento pessoal, Ansel se tornara um complexo desafio.
Após visualizar e processar o pequeno sinal, dado com um rápido e discreto movimento de cabeça, ela o segue sem delongas. Seria um desrespeito ao seu cavalheirismo se não o fizesse, certo? Afinal, ele próprio foi quem teve a magnífica ideia de conduzi-los para um local mais reservado — e também foi o mesmo garoto que tomara a iniciativa de escolher um lugar.
O momento lhe pareceu um pouco nostálgico. Ansel, na frente, indicava e abria o caminho, e ela, o seguindo, percorria a passagem aberta por ele. Distava aproximados dois metros do corpo do rapaz. Aquela cena a recordou perfeitamente do primeiro encontro entre os dois — eles, no entanto, caminhavam em direção à biblioteca, de maneira bastante semelhante àquela, noutra ocasião. Estava escuro, luzes coloridas e cegantes incomodavam uma visão precisa, a música ensurdecia e os dois estavam cercados por centenas de pessoas — o completo contrário da outra vez, na qual havia apenas Lilith e Ansel sozinhos, em um silêncio quase perturbador. A essência, entretanto, era a mesma. Era possível até mesmo construir a cena passada naquele instante, contrapondo as situações.
Lilith sorri discretamente.
Finalmente, depois de uma breve caminhada, alguns cumprimentos artificiais e aleatórios ao longo do trajeto e dificuldade para locomover-se por entre os aglomerados de pessoas que dançavam, o exorcista e o demônio chegam até seu destino. O quarto abrigava alguns pares de convidados aqui e ali. No entanto, nada que pudesse os atrapalhar, visto que o francês sabiamente dirigia-se para o banheiro. Quanta esperteza!, pensou, ao passo que adentrou o cômodo sem proferir sequer uma palavra ao moreno.
O espaço estava limpo e bem conservado. Ainda era possível ouvir o barulho estrondoso proveniente das diversas caixas de som, embora com menor intensidade e impacto — sendo assim, os dois conseguiriam se comunicar sem maiores problemas dentro do compacto banheiro. Agora, as circunstâncias e a situação em si estavam mais propensas para uma conversa casual entre os dois.
A loura, é claro, não desperdiçaria a oportunidade de iniciá-la.
❝Ah, Ansel!❞ Possuía uma expressão falsamente inocente e confusa estampando sua pálida face. Enquanto falava, a sueca, de forma simultânea, aproveitava para olhar-se no espelho e corrigir eventuais defeitos em sua aparência absurdamente perfeita. Por mais que aparentasse ser um ato involuntário e natural, o movimento também era usado intencionalmente como um de seus artifícios. ❝Há algo que está me incomodando. Quem era aquela garota que estava com você? Uma colega de classe? Amiga?❞
Pausou. Dessa vez, levou os seus olhos — até então fitando sua própria imagem no espelho do banheiro e concentrados no seu momento particular de vaidade — para os olhos profundos do rapaz, prendendo-os aos mesmos. Em uma fração de segundo, sua postura altera-se por completo: o semblante inocente foi logo desfeito, dando lugar a um frio e doentio; um sorriso malicioso e assustador brinca em seus lábios vermelhos; sua voz, contudo, mantém-se em uma tonalidade tão inocente quanto a anterior, a qual fora proferida por um rosto totalmente diferente do atual.
Sua natureza demoníaca, a de uma verdadeira súcubo, é revelada gradativamente.
❝E… Por que ela estava machucada?❞
Ansel sorri diante das palavras dela. Desde que se conheceram, sabia que ela não se tratava de alguém normal e as atitudes do demônio só confirmavam essa certeza com vigor. Qualquer um, estando este são, teria certa aversão ao perceber que ele havia, deliberadamente, violentado e abusado de alguém. Mas, bem, não se tratava de um ser humano qualquer. Sequer "humano" era, afinal. Ria-se diante do sofrimento de uma desconhecida de uma maneira tão natural que o encantava e o enojava, tudo ao mesmo tempo.
Ele não se sente intimidado diante dos olhos questionadores - que outros com certeza julgariam desconcertantes. Mantém a expressão tão neutra, exceto pelo discreto levantar do canto esquerdo de sua boca.
"Não faço ideia do que está falando. Vim desacompanhado." Faz questão de deixar clara a mentira óbvia em sua fala, usando um tom completamente debochado ao se referir à sua mais recente vítima. Outra entre tantas, mais uma memória sem rosto em sua coleção.
Annabeth - ... seria isso? - não ocupava lugar algum em sua mente naquele momento. Direcionava toda a sua atenção para o pequeno diabo loiro, de dentes afiados e olhos lascivos, que se postava logo diante dele. Andando na direção dela, o francês mantinha os olhos sérios fixos nos dela. As mãos espalmadas na parede, uma de cada lado da menor, a obrigam a ficar confinada no pequeno espaço entre o corpo dele e a parece gelada.
Perigosamente, quase sedutoramente perto, Ansel sussurra ameaçadoramente:
"Mas se sequer tivesse passado por essa sua cabecinha a possibilidade de ela estar machucada por minha causa," ele começa, a voz rouca e baixa, os lábios próximos do ouvido de Lilith "por que diabos você aceitaria ficar a sós comigo?"
Ele afasta o rosto somente para olhá-la friamente.
"Pensei que fosse mais sensata. Não é muito esperto se trancar em banheiros com pessoas potencialmente violentas."
















