Nem tudo é o que sonhamos e nem tudo que sonhamos de fato é pra gente. Hoje preciso expor mais uma frustração que a vida me trouxe, e tudo bem, os fracassos também são aprendizados. Tinha como uma das metas esse ano tirar carteira de habilitação. Confesso que nunca fui fã de carros e muito menos de dirigir, mas em um mundo que exige cada vez mais das mulheres, já estava mais do que na hora de eu ir atrás da minha, foi algo que por mais que eu não tinha afinidade via como uma necessidade, e desde que completei 18 anos eu tinha como objetivo, os anos foram se passando e outras prioridades vinham na frente até que chegou o momento que eu não tinha outra coisa mais importante para fazer do que tirar essa habilitação. Mesmo não gostando, eu gostaria de ter meu carro, ter minha independência, sair por ai sem depender de ninguém, me livrar da rotina cansativa de pegar ônibus, enfim, era uma real necessidade.
Então foi a primeira coisa que fiz quando janeiro começou, na primeira semana do mês já fui na autoescola e deixei todo meu salário que na época era pouco para pagar essa querida. Passei no exame médico e psicológico, que confesso, fiquei insegura se iria passar ou não. Comecei as aulas teóricas, estudei alguns simulados e encarei a primeira etapa desafiadora, a prova teórica. Passei também e o primeiro alívio veio. Enfim, comecei as aulas práticas, as que mais temia, pensei que não iria dar conta de dirigir no trânsito, mas foi mais fácil do que pensava, eu dirigia com calma e segurança. Não tive a sorte de pegar uma boa instrutora, ela me ensinou a dirigir, mas não me ensinou as técnicas de forma segura e que me passasse confiança, as aulas iam acabando e eu ainda tinha insegurança quanto ao controle de embreagem. Eu não estava preparada para enfrentar a prova, mas fui mesmo assim, com medo e minha coragem. Não passei nem da baliza, que era a única certeza que eu tinha na prova, nunca errei nenhuma, mas no dia fracassei, aí o começo de toda a dor. Chorei pelo choque de realidade, a Franciele que passava em todas as provas, que tirava notas boas, que aprendia tudo com facilidade não conseguiu fazer aquilo que ela tinha confiança em fazer. Eu esperava ser reprovada no percurso, mas na baliza jamais. Eu julgava isso impossível e o impossível aconteceu.
Foi o início de um trauma, mas eu não desisti, fui logo e marquei minha segunda prova, mesmo sabendo que a insegurança da embreagem ainda me assombrava. Marquei duas aulas antes da prova e minha insegurança ficou maior ainda, pois eu não conseguia fazer com a perfeição que minha instrutora exigia, eu tinha medo dela, demorei a entender, ficava ansiosa e apavorada com suas cobranças sutis, e mais uma vez aconteceu aquilo que eu já sabia que iria acontecer, a segunda reprova. Executei a baliza que já tinha se tornado meu maior medo depois do controle, mas não consegui fazer o controle. Aí eu já estava exausta, pois eu não dormia antes das provas, batia aquela ansiedade misturada com insegurança e aflição, já pairava um peso sobre minhas costas que eu não via a hora de me livrar, eu tinha que passar a todo custo, minha vida estava parada por conta dessa habilitação, eu só iria começar outros projetos depois que eu passasse nessa prova. Mas eu já estava sem forças para continuar tentando, eu me sentia inútil e incapaz, muitos passavam e eu que era boa em tudo não conseguia, era uma fracassada. Eu não tinha mais confiança para tentar, pois julgava impossível. Demorei semanas para me recuperar e tomar forças para tentar novamente.
Então, chegou o dia em que decidi tentar de novo, estava decidida a mudar a técnica, tentar um novo instrutor que me passasse segurança e confiança. Que me ensinasse de verdade o controle de embreagem e que eu estivesse apta a passar na prova. Fiquei receosa sobre o que ela iria pensar ao me ver com outro instrutor, mas logo pensei que essa jornada era sobre mim, e o que ela achava não importava. Voltei para a autoescola, paguei mais algumas aulas práticas com o novo instrutor, enfrentei a ansiedade de ter que ver a instrutora, de lhe dar com o controle, enfim. Após a primeira aula senti que não iria conseguir de novo, pois não só troquei de instrutora como de carro, que apesar de ser a mesmo modelo, tinha umas diferenças que eu precisava me adaptar novamente. Mas a partir da segunda aula tudo fluiu, eu entendi de fato como executar a manobra e as últimas aulas seriam apenas para praticar. Chegou a última aula e eu estava bem confiante, pela primeira vez eu estava preparada para fazer essa prova e agora tudo ia dar certo, eu iria sair com minha habilitação. E mais uma vez eu reprovei, errei aquilo que eu não esperava, o controle de ré, foi um errinho bobo que me fez me sentir culpada por dias, até hoje penso que se eu tivesse feito tudo certo até lá, eu estaria habilitada, mas ainda não era minha hora. Mas eu já estava preparada, já tinha passado por todas as etapas, já entendia que eu era capaz de fazer tudo, então eu fui correndo marcar minha próxima prova, confiante que na próxima iria dar certo.
Acontece que nesse período de três semanas a ficha foi caindo sobre muitas coisas, eu já estava esgotada física e principalmente emocionalmente, eu não sentia paz, eu sentia que tinha um peso sobre minhas costas e realmente tinha, minha vida estava parada esperando por essa habilitação, e eu estava forçando demais um caminho que talvez não era para mim. Daí que veio todo o entendimento. Durante todo esse percurso orei muito a Deus, a Santa Rita, fiz promessa, fiz rituais, meditação, enfim, tentei tudo que estava ao meu alcance, mesmo com muito medo eu fui, me mantive firme até o final. Sem contar nos gastos financeiros que tive que já não dava mais para arcar. Marquei apenas uma aula prática um dia antes da prova e soltei esse peso. O que fosse para ser seria, não iria forçar mais nada, entreguei nas mãos de Deus, deixei de fazer as orações a Santa Rita, não porque deixei de acreditar, mas porque eu estava colocando muita força em algo que já estava me consumindo. Confesso que já fui fazer a prova meio desmotivada, não por não acreditar, mas por entender que se algo está predestinado a não acontecer, não adianta os seus esforços, ele não irá acontecer, assim como aquilo que já é seu, vem, mesmo que as circunstâncias não sejam favoráveis. Neste momento eu já havia entregado o fluxo da vida ao universo, e o que fosse para ser seria. Talvez o resultado que me esperava não fosse o que eu sonhei para mim, mas era o que Deus tinha preparado e mesmo que doesse eu tinha que entender, eu tinha que deixar ir.
E então aconteceu a quarta reprova, só que dessa vez veio com o outro sentimento que eu ainda não tinha experimentado, a injustiça. Eu fiz a baliza, eu fiz o percurso, não foi perfeito como eu gostaria que fosse, mas foi executado e ainda assim a examinadora me reprovou, tive que lhe dar com a sua pressão sobre mim o tempo todo, algo que até aquele momento eu não tinha lhe dado e com mais uma reprova, que dessa vez, ao meu olhar, foi injusto, eu poderia ter sido aprovada, mas não fui. Claro que eu já esperava o choro, o choro pelo meu fracasso mais uma vez, pela minha última tentativa, por todo o dinheiro e energia investido e por ter que entender que nem tudo que a gente quer a gente irá conseguir. Mas preciso especialmente, ressaltar todo o aprendizado obtido durante esses sete meses de luta:
Confiar que o que vem é para nosso crescimento e receber com gratidão. Mesmo que a aprovação não tenha vindo, ela me trouxe desafios essenciais para o meu crescimento espiritual.
Tem coisas que passamos que são mais um treinamento espiritual disfarçado do que a própria conquista em si, talvez seja por isso eu tenho adiado por tanto tempo, no fundo a alma já sabia aquilo que ela iria enfrentar.
Minha capacidade não está em uma aprovação, mas sim, no quanto me mantive firme mesmo diante dos desafios. Coloquei todo o meu valor, toda a minha essência em um pedaço de papel que não define 1% de tudo que sou e tudo que vivi. Tantos obstáculos eu superei, tantos momentos eu vivi e anulei todas minhas conquistas a esse pequeno desafio. O aprendizado verdadeiro está em mim, não no documento. Eu já possuo a habilidade e confiança, a formalidade é apenas uma questão que a sociedade impôs.
Mantive a coragem, resistência emocional e persistência mesmo com muito medo. Aprendi principalmente sobre paciência, sobre que nem tudo virá quando queremos, mas sim, quando precisamos. Sempre tive a mania de querer as coisas tudo do meu jeito, no meu tempo, de deixar de viver coisas esperando que outras aconteçam e essa experiência só me mostrou que o melhor que temos a fazer sempre será soltar o controla e saber esperar, entender que tudo tem tempo de plantio e tempo da colheita.
Aprendi a honrar todo o esforço que coloquei, pois afinal, tive comprometimento e coragem comigo mesma, mesmo querendo desistir, mesmo querendo abandonar o barco, me mantive firme até o final.
Agora, mesmo em meio a toda essa dor eu tenho mais confiança para enfrentar qualquer coisa com sabedoria, saber dos meus limites e aquilo que vale minha energia ou não. Eu ter sido falha em uma coisa não significa que eu serei em todas as outras. Há tantas coisas que eu sou boa e outras que ainda posso ser, mas não me permiti enxergar por estar presa a algo que a sociedade nos impôs.
Que as vezes, persistir por uma caminho que não é nosso só faz repetir um ciclo de frustração e dor desnecessário.
Quando uma porta se fecha outra melhor se abre, as vezes é o caminho que não devemos traçar e temos que mudar de rota. Todas as coisas que já quis muito nessa vida e não consegui, a vida depois me mostrou que o outro caminho era sempre o melhor para minha evolução e para mim, o outro mesmo que doloroso a princípio, me trazia paz e calma, então agora pode ser que eu não tenha o entendimento dessa reprovação, mas em outro momento eu possa enxergar caminhos mais promissores e até agradecer a Deus por tal livramento.
Entendi que tem coisas que não vale a nossa energia e que nem todo esforço será procedido de vitória, muitas vezes vamos nos esforçar por algo que não nos trará fruto nenhum, e tudo bem, essa é a vida, o importante é se atentar as lições que essas situações trazem, pois no fim, é algo mais espiritual do que material. Sempre terá caminhos mais leves e que nos trará a vitória do mesmo jeito, não é sobre escolher o caminho mais fácil, mas saber quando desistir de um caminho que não foi feito para a gente. E que as vezes estamos atrasando conquistas maiores por nos dedicarmos às conquistas insignificantes e sem frutos. Maturidade é saber qual o caminho vale o nosso esforço.
A importância de não empurrar o que não precisa ser forçado, ter a sabedoria para fechar um ciclo com gratidão por todo o aprendizado e observar como novas portas mais leves, prósperas e alinhadas aos nossos valores se abrirão diante de nós.
Nem todo caminho que parece necessário é realmente nosso. A vida nos faz esperar, observar e crescer antes de abrir portas que realmente vão trazer a leveza e liberdade que tanto almejamos.
No fundo sempre fui muito exigente comigo mesma, e essa situação veio para mostrar que devo ter mais carinho e compreensão com minhas lutas e tudo aquilo que sinto. Eu não preciso me julgar tão duramente, faltou amor e compaixão da minha parte. Cada frustração foi uma oportunidade de reavaliar minha relação com expectativas, medos e pressões externas, no fundo, é sobre mim mesma, não sobre a habilidade de dirigir. Talvez eu precise me curar da ansiedade e saber confiar no processo e respeitar meu próprio ritmo.
Existem forças externas que não conseguimos controlar, mesmo dando o nosso melhor, mesmo sob pressão, certas circunstâncias não estarão ao nosso favor e isso faz parte do processo.
A importância de liberar a culpa e o perdão para as coisas fluírem. Devemos confiar na vida, mesmo diante do medo. No final o que importa é celebrar a entrega, sem se culpar ou julgar pelo resultado.
Desistir não é fracassar, é honrar nosso próprio caminho e reconhecer o que realmente faz sentido para nossa vida, sem se deixar levar por opiniões externas.
As vezes a ansiedade e resistência externa que sentimos não são apenas obstáculos práticos, mas um indicativo de que esse caminho específico não é o que traria equilíbrio e o aprendizado ideal que precisávamos.
Esse resultado não foi para me punir, mas para me colocar diante de sentimentos como frustração, injustiça e falta de controle para que eu pudesse trabalhar a forma como lido com eles. As vezes, mesmo com o preparo, o sim não vem porque há lições e alinhamentos internos que só entendemos com o não.
Mesmo com a reprova, cresci como pessoa, amadureci aspectos que jamais pensei ter necessidade de amadurecer e hoje sou grata por todo o aprendizado, mesmo tendo que lhe dar com a dor. Ainda estou superando toda essa situação, não sei se terei coragem de enfrentar mais uma prova antes do vencimento da pauta, mas de uma coisa tenho certeza, respeitarei o meu ritmo e o meu inconsciente, ele sabe de coisas que ainda não tenho conhecimento e se eu pressentir que não é para fazer eu não irei fazer. No fundo, eu só buscava reconhecimento, provar para mim mesmo e para os outros que sou capaz, persistente e vitoriosa. Senti também que não tenho as rédeas de minha própria vida, tive a sensação de que um controle me foi tirado, e tudo bem. No final, foi um símbolo de liberdade, autonomia, superação e reconhecimento que ficou fora do meu alcance e tudo bem, pois o aprendizado era entender que posso conquistar isso tudo de outras formas, e que a ausência de um resultado não diminui quem sou. Essa experiência veio para quebrar a ideia de que meu valor está atrelado a uma conquista externa e para fortalecer minha resiliência, fé e confiança em mim mesma, mesmo quando o mundo diz "não".
Não é uma sentença de que nunca mais tentarei tirar a CNH, talvez em outro momento eu esteja mais confiante e preparada, e agora, tenho todo o conhecimento adquirido como bagagem para enfrentar a situação com mais maturidade e confiança. Essa situação foi apenas uma janelinha da casa, se pudéssemos ver a situação como um todo, talvez agradeceria por tamanho livramento, aliás, nada acontece por acaso e Deus sempre sabe o que é melhor pra gente.
"Encerro esse ciclo com gratidão e abro o caminho para o que realmente está alinhado ao meu propósito de vida. Que o melhor esteja por vir e que eu seja muito feliz em minhas escolhas."