minhas cortinas já têm cheiro de chuva. sinto que o peso do ar aumentou três vezes desde o mês passado. volto pra casa como quem recobra o contato com um regalo esquecido na gaveta. há algum tempo que esqueci como é ser só. e o silêncio me assusta com o passar das primeiras horas. sinto ganas de abrir a porta e andar. matar a saudade da cidade. te encontrar. fazer isso pra me esquecer do vazio. na sala. no peito. tenho investigado tanto a minha infância. voltei pra análise depois de uma pausa. que falta faz uma lacuna pra assimilar a vida. nossas conversas acessam esse estado com facilidade. você assiste eu me perder na minha retórica sofrida e eu me pergunto se eu pareço inteligente o suficiente pra você. agora que falo sozinho eu me acho profundamente melancólico. e gentilmente patético. como se tudo que eu dissesse não tivesse a chance de escapar da minha voz frouxa. você me diz que eu falo baixo. acho que é pra não me assustar com o medo que eu sinto. medo da vida mesmo. de não ter dinheiro pra pagar as contas do próximo mes. de passar vontade das coisas que eu queria fazer aos vinte e tantos anos. são tantos detalhes que por vezes me fazem preferir o silêncio. mas eu me dissolvo em palavras quando me deixo viver. abandono a preocupação e te conto das minhas inúmeras piadas sem nexo. e você ri. e nessa hora inteligência nenhuma importa tanto quanto o teu sorriso. hoje encontrei com uma amiga que terminou o relacionamento. senti a dor dela enquanto ela vomitava tudo. no fim das contas eu tive medo de parecer um pouco com a gente. e de tudo virar esse medo constante. da gente se perder na falta de cuidado. de se deixar afogar pelas inúmeras questões que crescem e se retroalimentam. e que são do mundo. assim como o nosso amor. e é por isso que eu sinto medo. que eu sinto vontade de abrir a porta pra te encontrar o mais rápido possível. mas ainda é cedo. e eu sinto falta do silêncio. e permanecer nele vai minando o desconforto. e depois de algum tempo eu me lembro que ser só não é tão espinhoso assim. e que existe esse meu refúgio que eu construí tão meticulosamente pra me cercar do que há lá fora. e que talvez seja tudo que eu precise: me demorar um pouco mais no meu próprio vazio. pra poder manter fresco na memória que eu sempre tenho pra onde voltar. e que sair dele é uma escolha. então hoje, daqui do centro da minha caverna de luzes amarelas, eu torço pra que possamos resistir a isso. e que o cuidado nos salve da queda. porque dividir a vida não significa acabar com o nada iníquo que habita em nós. significa, apenas, encontrar uma companhia bonita pra ele.










