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DISCURSO SOBRE O ESPÍRITO POSITIVO – CAP. I
1. Introdução
A obra filosófica “Discurso sobre o Espírito Positivo” foi publicada em 1844, pelo filósofo francês Auguste Comte(1798–1857), nasceu em Montpellier, França, a 19 de janeiro de 1798, filho de um fiscal de impostos. Nessa obra buscou a proposição da ciência como único meio de construção do conhecimento verdadeiro, e seu ideal de pensamento foi denominado positivismo, uma das correntes filosóficas mais importantes do século XIX.
2. A lei dos três estados
A lei dos três estados é o ponto de partida de Comte para expor seu pensamento, da forma como o espírito humano consegue atingir o verdadeiro conhecimento. Define três estados, o estado teológico ou fictício, metafísico ou abstrato e o real ou positivo, que foram trilhados pelo espírito humano. No último estado, o positivo, é atingido o conhecimento verdadeiro, o estado definitivo de positividade racional, fruto da renúncia as investigações absolutas, e após vencida a inanidade radical das explicações vagas e arbitrárias próprias dos estados teológico e metafísico.
De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas, assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro; é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros, o regime definitivo da razão humana. [Comte, 2016, p. 21]
O estado teológico representa o primeiro desenvolvimento do espírito humano que busca avidamente de maneira quase exclusiva, a origem de todas as coisas, atribuindo a vontade de seres divinos e sobrenaturais, trata-se de uma forma de especulação fantasiosa. Esse estado é composto de três formas sucessivas, o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo. A primeira forma teológica, é o fetichismo que consiste sobretudo em atribuir a todos os corpos exteriores uma vida essencialmente análoga à nossa, mas quase sempre mais enérgica, a adoração aos astros caracteriza o grau mais elevado dessa fase. Na segunda fase teológica, o politeísmo, o espírito humano após ter deixado a adoração aos objetos materiais, passa a acreditar em diversos seres fictícios, comumente invisíveis, cuja intervenção ativa e contínua torna-se origem direta de todos os fenômenos exteriores e humanos. E na terceira fase teológica, é o monoteísmo, que por bastante tempo teve grande influência social, nela a razão passa a restringir cada vez mais a imaginação, característico da fase anterior, e começa a sujeição dos fenômenos naturais a leis invariáveis.
O estado metafísico é a transição entre o teológico e o positivo, apesar de estar mais próximo do primeiro, busca explicar sobretudo a natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, o modo de produção dos fenômenos, mas ao invés de usar seres sobrenaturais, substitui por entidades ou abstrações, pelo que designado como ontologia. Já é conferido nesse estado um grande aumento de raciocínio, se preparando para o exercício verdadeiramente cientifico.
O estado positivo, ou estado científico é o da virilidade do espírito humano, superado o estado metafísico, não quer-se conhecer as causas dos fenômenos, mas através da observação buscar conceber leis invariáveis, representa o momento em que a razão humana já está suficientemente madura para empreender grandes investigações científicas.
“Não apenas nossas investigações positivas devem essencialmente se reduzir, em todos os casos, à apreciação sistemática dos fatos existentes, renunciando a descobrir sua primeira origem e o seu destino final, mas importa também ainda compreender que este estudo dos fenômenos não deve tornar-se de qualquer modo absoluto, mas permanecer sempre relativo à nossa organização e situação.” [Comte, 2016, p.30]
A revolução fundamental que caracteriza a virilidade da nossa inteligência consiste essencialmente em substituir em todos os casos a inacessível determinação das causas ditas pela simples busca de leis, isto é, de relações constantes que existem nos fenômenos observados.
É nas leis dos fenômenos que consiste verdadeiramente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, por mais exatos e numerosos que sejam, só fornecem os materiais indispensáveis. Mas considerando o destino constante dessas leis, podemos dizer, sem nenhum exagero, que a verdadeira ciência, muito longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dispensar, tanto quanto possível, a exploração direta, substituindo-a pela previsão racional, que constitui, a todos os respeitos, o principal caráter do espírito positivo.” [Comte, , 2016, p. 32]
Comte busca empreender um mundo onde todos os fenômenos após observação criteriosa a luz da razão do método cientifico, possam ser formulados por leis imutáveis.
O princípio da invariabilidade das leis naturais só começou realmente a adquirir certa consistência filosófica quando os primeiros trabalhos verdadeiramente científicos puderam manifestar a sua exatidão essencial relativamente a uma ordem inteira de grandes fenômenos, o que não podia resultar, de maneira satisfatória, senão da fundação da astronomia matemática, durante os últimos séculos do politeísmo. Em virtude desta introdução sistemática, este dogma fundamental tendeu, sem dúvida, a estender-se, por analogia, a fenômenos mais complicados, antes mesmo de poderem suas leis próprias ser de qualquer modo conhecidas.” [Comte, 2016, p. 34]
3. Considerações Finais
Comte ao formular a lei dos três estados, faz uma revisão histórica do desenvolvimento do espirito humano demonstrando que tal evolução deu em três estágios, e no último considerado o real ou positivo se tem a apreensão da realidade que somente pode ser obtida pelo aprofundamento das ciências a partir da observação dos fenômenos e deles extraídas leis imutáveis. A partir da lei dos três estados, Comte empreende seu grande projeto de criar leis invariáveis para todos os fenômenos da natureza e humanos, ao que chama de leis positivas, e inicia o movimento positivista que teve grande influência em várias áreas do conhecimento e foi difundido pelo mundo.
4. Referências
COMTE, AUGUSTE. Discurso sobre o Espírito Positivo – Tradução de Walter Solon. São Paulo: Edipro, 2016. 126 Páginas.
Qualquer que seja o modo, racional ou experimental, de descobri-los é sempre de sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica
Auguste Comte