O titanic bate no iceberg
Para vocês terem uma leve ideia do que eu estou falando, certa vez me interressei por uma área da química bem bacaninha chamada orgânica, que trata das substâncias que formam a matéria viva. Fiquei fascinado com aquelas cadeias enormes de carbono que compunham figuras das mais exóticas no quadro-negro.
De um a quatro carbonos, se não me falha a memória, eram gases; de cinco para cima se liquefaziam e, depois, se solidificavam pouco a pouco, até chegarem no carvão propriamente dito. Só sei que, lá no meio, tinha o petróleo, uma espécie de lama negra que jorrava dos poços, como tinha visto várias vezes nos filmes americanos.
Pois bem, fiquei tão entusiasmado com aquele mundo cavernoso que provinha da fermentação de fósseis de animais enterrados a milhões de anos que pesquisei por conta própria durante um tempão. Até me esquecia de ir às aulas. Marcava ponto quase diariamente na biblioteca pública, pegava livros e enciclopédias e armava teorias a respeito do assunto. Delirava, sonhava com aquilo, me tornei um expert.
Num belo dia, cheio de idéias, rascunhos, resumos e carregado de apostilas, fui à aula para conversar com o professor sobre a íntima relação da química orgânica com a biologia, o que, para mim, nada mais era do que a resposta ao princípio da vida na Terra. Afinal, quando a matéria inanimada ganha vida, há algo aí para se discutir com maior profundidade. Teria descoberto algum segredo milenar? Estaria Deus metido na química orgânica de uma forma ou outra?
Entretanto, minha tentativa ruiu de vez quando o professor, chegando devagar, me olhou de cima a baixo e disse:
-Eric, você faltou em cinco aulas. Pode se considerar de recuperação!
-Mas, mestre - retruquei -, eu estava estudando.
-Não enteressa, você deveria estar aqui!
Exato, pensei, deveria estar lá só para marcar presença, bater cartão como um burocrata qualquer, só pra ensebar, enrolando e fingindo como os outros.
Naquele dia, aprendi mais algumas coisas: a sociedade é hipócrita; somos todos personagens de uma grande peça; a honestidade é uma faca de dois gumes, nem sempre ela é bem aceita. Na escola, como na vida, é preferível que você não seja transparente. Para ser considerado um bom aluno, é necessário estudar e se movimentar freneticamente, passando a ideia de um cara curioso, esforçado. Se você sabe o que a experiência química demonstra, se conhece o objetivo e o resultado, é apenas um meio aluno. O aluno por inteiro tem que mostrar serviço, fazer marketing pessoal, ser um ator completo.
O Titanic tinha batido no iceberg e naufragado, levando para o fundo do mar algumas das minhas esperanças e ilusões mais caras da juventude.
Por outro lado, esse episódio me revelara a importância mágica da ficção na vida real. Ainda bem que eu gostava muito de ler e escrever pequenos contos; tinha até ganhado o concurso de um jornal e me preparava para ingressar naquele fulgante mundo de mentira.













