Soviet postcard, 1955
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Soviet postcard, 1955
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Ai, 25
Viver nem sempre é fantástico, mas eu continuo achando que é melhor que a alternativa. Nem todos os dias são bons, mas hoje é aos péssimos que eu quero brindar. Eu quero celebrar os dias em que levantar da cama foi foda, e mesmo assim eu levantei. Quando minha esperança no mundo se perdeu, e mesmo assim a louça foi lavada. Quando entendi que sou bem pequena, e mesmo assim insisti em ser. Até os dias que não são fantásticos merecem ser bem vividos. E o que é esse bem viver, é só você que decide.
Clara
Muito do que existe está além dos nossos dedos. A própria alma do mundo escapa às nossas mãos. E não há maldade alguma nessa pequenez, nessa coisa ínfima, pois torna-se tão íntima e pertencente – a individualidade, o ponto, a singularidade e o símbolo. O amor e a compaixão.
O perdão que necessito é dado de mim a mim, e o machucado que curo é limpo e bendito com as mãos calejadas do meu próprio eu. O choro que seco é límpido, verdadeiro, tão cru e natural. Eu entendo que há o caos e ele governa o universo de mãos dadas à harmonia, e eu, filha destes, também os sou. E tudo bem, eu repito, tudo bem… Por ser pelo acaso que surgiu a própria vida, tudo bem, e por serem meus sentimentos meus, tudo bem, e por existir ainda a palavra e a poesia…
As frequências que me acalmam regem muito mais que o meu coração e mente. E este coração e esta mente compreendem que pequenos pontos pálidos e azuis são tão belos quanto o quadro amplo e magnífico.
Durante toda a minha existência eu verei uma fração, eu conhecerei uma fração e compreenderei uma fração. E eu escolho esta pequena fração como uma criança escolhe conchas: pela simples possibilidade de beleza.
Que eu me perdoe sempre. Especialmente pelo que foge à minha pele.
C.
02.03.2018
sobre amar profundamente todas as mulheres do mundo.
quis que meus momentos de reflexão e plenitude se estendessem para um âmbito que não fosse só meu. quis compartilhar algo que angustiava a mim e a outras. quis tanto, com tanto afinco, fiz tanta força para ser compreendida, em contextos onde sequer pensaram em me perguntar se tinha algo a dizer, supondo que não tivesse. entralecei as palavras tantas vezes para calar sílaba à sílaba, seguidamente, como quem desaprende o português, a língua nativa. perdi meus valores porque fui desrespeitada e ainda tive a cegueira de pedir desculpa por terem me tirado a única coisa que fazia de mim quem eu fui. perdi por incontáveis séculos, memórias arrastadas de mim onde nunca fui uma heroína, para que agora se tenha coragem de dizer que não há propriedade naquilo que falo. falam como se eu não soubesse e não sentisse ardendo na pele o que é perder. eu, que como qualquer outra minoria, sei o exato sentido de ser menor e, às custas da repetição, pude acreditar por um longo tempo que era realmente natural que eu fosse.
mas não sou.
paola, 21/03/2018.