Eu compartilhei um trago com o vento, como há muito não fazia. Como uma despedida pela tua partida e pelas palavras que não direi. Outras palavras em outros tempos, as disse muito, as disse tanto. Há anos expresso com os olhos e portanto sempre resta algo não pronunciado. Embora eu não sinta desespero, apenas a tristeza mansa. Pela tua partida. Pelas formas que partilhamos e todas as escalas em cinza. Pelo susto. Pelo sentido. Pela ausência de sentidos. Em que outra vida eu aprenderia a ver sombras e detalhes? Sem a tua companhia? Em que outra vida eu entenderia o sentido de correr em tempestades? E apreciar o vento e os açoites? Hoje eu precisaria da libertação, do silêncio, da ausência de estrelas. Porque a minha vida não é frágil e eu compreendo que algumas noites são assim. Havia anos que eu não cedia ao impulso do trago. Por isso o compartilhei com o vento. Porque teus olhos reprovariam. Embora houvesse a certeza da compreensão posterior. Da companhia sem exigências. Não peço perdão a ti ou a mim. Há carinho até nesse horror. E eu preciso que haja carinho. Porque essa é uma representação verdadeira.
As estradas se entrelaçam e os teus pés foram generosos.
Agradeço a oportunidade das encruzilhadas.
Que todo o mais se estenda.
C.
16 de Dezembro de 2021











