"The rest is silence."
-William Shakespeare. (via quotedojo)
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"The rest is silence."
-William Shakespeare. (via quotedojo)
A experiência é uma professora cruel. Mas você aprende. Meu Deus, como você aprende!
C. S. Lewis
Experience: that most brutal of teachers. But you learn, my God do you learn.
C. S. Lewis
...o olhar do amor é o olhar do isolamento.
Kundera, Milan. A identidade.
Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorça toda.
Lispector, Clarice. Água viva.
Nina
"É Nina, é. Conhece-a tão bem. Fora hóspede da tia de Nina, precisamente quando viera para se matricular em agronomia. Nesse tempo era uma pirralha de tranças. Entrava-lhe pelo quarto para comerem juntos as pequenas guloseimas recebidas todos os meses e acondicionadas em caixas num canto do...
O homem e o mar interior
O homem é um ponto minúsculo na imensidão na chana*. O sol acaba de se erguer e perdeu o tom ensangüentado que guardara por momentos, depois de violar a noite. O homem já deixou atrás de si uma longa extensão do terreno, coberta apenas por capim. A mata, é ainda um tom azulado na distância e ele espera entrar em seus domínios aos primeiros alvores. A chana à sua frente é um mar, um oceano de capim baixo que lhe chega à altura dos joelhos. Mas ele sabe que lá, onde finda a chana haverá árvores e sombra. No fundo da chana há sempre árvores, bem como à direita ou à esquerda ou atrás; a chana é um mar interior, a única incerteza reside no tempo necessário para chegar à praia.
O sol nascente indicou-lhe o caminho e reaqueceu-o do frio da noite. O homem recebe o calor na cara, como uma carícia particular. Sabe que, em breve, a carícia se tornará incômoda e, mais tarde, tortura. Por enquanto, porém, o sol é apenas o ser que fez afastar o frio e os terrores noturnos; é ainda bendito, para depois ser amaldiçoado e, quando desaparecido, ser desejado. Destino de qualquer soberano...
O homem tem uma arma, uma Kalashnikov soviética, apoiada no ombro esquerdo. Um boné verde oculta-lhe o abundante cabelo desgrenhado pelo suor e os dias de peregrinação de volta à proteção verde e densa da floresta. A barba termina em duas pontas, no queixo. Os olhos são grandes e realçados pelos sinais das noites mal dormidas. Veste uma farda camuflada e calça botas militares”. Do cinturão está pendente uma bolsa-cartucheira para os carregadores de reserva. Ao lado dela, uma bolsa verde, menor, guarda papéis e o emaranhado de anotações que lhe vêm à mente e o fazem registrar fatos do presente e do passado que povoam sua cabeça. Mais atrás, uma corda enrolada. Do lado esquerdo, o cantil e o punhal adaptável à arma. Na parte da frente do boné está espetado um emblema oval, onde se nota um facho aceso empunhado por uma mão negra: o homem é um guerrilheiro.
Marcha rapidamente em direção à mata, os olhos inquietos abarcando toda a chana. Por vezes, estaca repentinamente e move a cabeça ou inclina-a para escutar e tentar perceber os sons que o circundam. Tenta neles reconhecer a presença de ao menos um dos camaradas de seu pelotão, o do Comandante Sem Medo, mas que neste momento estão perdidos, como ele, após o ataque súbito dos portugueses na volta à base. O silêncio tenebroso da chana o faz recordar vivamente o som de máquina de costura das metralhadoras e as explosões das granadas de que ele, ainda sem saber bem, escapou.
Logo, no entanto, prossegue, cada vez mais rápido. A farda, as botas, a barba estão sujas de pó acumulado. A estação seca está no fim, mas as chuvas ainda não começaram. A chana está ressequida e a poeira cobre tudo. O capim novo já nasceu e contrasta com o amarelo que ficou da estação passada. Nos sítios onde chegara o fogo posto pelos caçadores, o negro calcinado já foi vencido pelo verde possante que fura a terra. Daí a três meses toda a chana estará coberta de água, água parada onde crescerão girinos, sanguessugas e mosquitos, copulando constantemente. Então, qualquer marcha será um arrastar torturante com água pelos joelhos, com quedas freqüentes por causa dos buracos camuflados e o zumbir permanente dos mosquitos à volta da cabeça.
Agora, a chana ainda está seca e o homem marcha rapidamente para a fronteira-refúgio.
*savana
Pepetela, escritor angolano. (☆ Benguela, 1941)
Ventos do Apocalipse
Dos ventres fecundos da Mananga germinaram sementes. Onde estão as flores que o sol não viu? Onde é que foram enterrados os rebentos dos homens, semeados com os ideais da multiplicação da vida? A vossa maldade abafou-os. O sangue desses inocentes clama por vingança,...
SÚPLICA
Tirem-nos tudo, mas deixem-nos a música!
Tirem-nos a terra em que nascemos, onde crescemos e onde descobrimos pela primeira vez que o mundo é assim: um tabuleiro de xadrez…
Tirem-nos a luz do sol que nos aquece, a lua lírica do xingombela nas noites mulatas da selva...
Constatação
Gostar dele É como fazer carinho Em ponta de espinho: Impossível Sem se machucar.
(Marcelo Oriani)
"One of the keys to happiness is a bad memory."
-Rita Mae Brown. (via quotedojo)
Sentimento Súbito A Cícero Belmar Marina Nogueira e Eduardo Diógenes Porque você nada sabe da insônia não venha assim desavisado com esse universo de frases protocolares e toda uma higiene pasteurizada de ternura cuidado e não se aproxime demais existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito a água que lavou as letras da biblioteca é um sinal de que o amor e a palavra exigem renovação que tanto estudo não resolve o desamparo e que continua desabitada a casa que sou finjo-me autobiográfica e renasço como personagem espasmo de eletrochoque eu sirvo o meu senhor ducha de eletricidade eu sirvo o meu senhor e basta o seu tom de voz ser um pouco menos terno que eu já sinto dor como quem escolhe uma salada de rúcula em um cardápio de veludo escuro você está sentado numa poltrona de aço que já começa a ser engolida pelo mar vulcânico da minha loucura não sei porque tudo vinha tão vagarosamente de modo calmo e de repente foi aquele estalo aquele sobressalto e você não entendeu nos intervalos de linguagem o meu jeito pelo avesso de cantar um blue você não entendeu nada você não percebeu que eu sou um fósforo apagado esquecido na fuligem com memória do passado que a vida cai pesadamente em meu cabelo azulado e para a tela grande perder o colorido basta uma pilha se gastar por isso eu chego a ti numa bolha de sabão gigante soprada no canudo de mamoeiro do quintal da infância onde aprendi a noite o sol os cristais coloridos e as músicas ciganas daí que basta você me tocar e eu retorno à vida quebra-se o encanto e o feitiço e saio para a realidade carne que se desprende das páginas do livro escrevo sobre a vida como um exorcismo não tenho remorso do que vivo o meu poema é o sinônimo da minha pele exposta na implosão do muro de Berlim dos sentimentos físicos sinal vermelho rostos vazios caminhei coberta de sargaços na avenida como um insignificante alfinete atraído por um imã e perdi o sono perambulando nos telhados à procura das palavras mais precisas quando finalmente descobri que o que importa mesmo sempre está implícito e agora eu só quero que você ouça minha voz subterrânea ecoando muito além de toda superfície mesmo que em mim nada esteja a salvo quero que observe com perplexidade como eu tenho estilo e a melancolia dos meus olhos claros atravessa nervosamente o cosmos como um neutrino argila submarina de abalos sísmicos na manhã de uma rua vazia de domingo hoje falta-me companhia para sair e beber um vinho nada acontece e eu não sei como faça para manter-me viva nada acontece e eu fico inerte sem regresso nem partida devo mudar uma vida que já não me serve mas ando muito cansada de ser sempre eu a tomar todas as iniciativas você não entendeu nada e eu estava dizendo apenas na verdade que subitamente eu fui ficando perturbada você me lê somente para encontrar suas palavras mas eu venho de uma raça de saltimbancos e acrobatas e brilham relâmpagos das tempestades nos meus gestos delicados o meu corpo flutua como sílabas de imagens congeladas e nessa opressão desarticulada decido desesperadamente ficar calada mas não esqueço o convite para ver as estrelas num deserto de Marrocos nem a minha estranha fuga automática daquele mundo cor-de-rosa entre penhascos para voltar aqui e ficar sempre à espera do destino e do acaso sentinela do nada e a vida passa como as nuvens na janela da próxima vez eu vou ter mais cuidado porque das outras sei que estraguei tudo só por ter medo de encarar a realidade eu vou telefonar depois a gente se fala agora eu não posso acordar entenda que eu carrego a saudade das aves migratórias que sobrevoam os alpinistas do círculo polar porque você nada sabe da insônia e existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito Desespero Blue, 2003
...minha memória mais antiga é a surdez dos gritos loucos de quem persegue quem deveria amar...
Mas o sorriso ao inverso é raiva...
Raimundo Carrero, Sombra Severa.
Os três mal-amados (Joaquim)
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano. ( ☆ Recife, 1920 - ✞ Rio de Janeiro, 1999)