Quando eu li pela primeira vez sobre a "campanha" #LeiaMulheres2014, eu parei pra pensar numa coisa engraçada. A minha biblioteca pessoal é 99% formada por mulheres. Curiosamente, durante a vida, apesar de autores como Pedro Bandeira e Marcos Rey terem sido terem sido presentes na minha pré-adolescência, em geral, sempre as autoras que me interessavam. E isso, apesar de eu ser feminista e saber muito bem como o patriarcado funciona, meio que me fez "esquecer" o machismo que acomete mulheres no mundo da literatura. Inclusive, foi por esse mesmo motivo que eu me espantei quando fiquei sabendo pela primeira vez há um bom tempo atrás, que JK Rowling teve que usar um pseudônimo porque pessoas da editora (ou foi o agente literário dela? Agora não lembro ao certo) que a contratou, achavam que o público não ia querer ler aventura escrita por uma mulher. Uma loucura. Bem, dito isso, a campanha me fez parar pra pensar nessa questão, e, é claro, achei a ideia o máximo, maravilhosa.
Eu pretendia ler algumas autoras esse ano: Clarice Lispector, Alice Walker, Suzanne Collins, Virginia Woolf, JK Rowling, Lionel Shriver, enfim, muitas pendências da minha lista. Mas a minha vida degringolou e eu acabei tendo que me conformar em só terminar de ler um livro que eu comecei ano passado e tive que interromper várias vezes: Amada, da Toni Morrison. Toni é uma autora que estava na minha lista há muito tempo, principalmente pelo fato de que eu quero muito ler mais autoras negras, e eu sabia que o trabalho da Toni era espetacular.
É difícil resumir minha opinião, saber fazer um breve comentário sobre essa história, que é uma das histórias mais fortes (se não for a mais forte) que eu li na minha vida. A história trata da questão da escravidão e da maternidade negra de forma muito visceral, e mexeu muito comigo ler algumas passagens que podem facilmente ser relacionadas com a realidade de mães negras atualmente. É uma leitura dolorosa e pesada, sobretudo para mulheres negras, e é incrível. Eu queria separar alguma passagem do livro pra colocar aqui, e eu me vi perdida no fim, pois tinha me deparado com muitas maravilhosas e não marquei nenhuma delas, achando que conseguiria achar de novo depois. Bem, então, eu perdi muitas citações favoritas, mas pude encontrar essas duas:
" 'Me diga uma coisa Selo'. Os olhos de Paul D estavam congestionados. 'Me diga uma coisa. Até que ponto um negro tem de aguentar? Me diga. Até que ponto?'
'Até onde ele conseguir', disse Selo Pago. 'Até onde ele conseguir.'
'Por quê? Por quê? Por quê? Por quê? Por quê?' "
"Existe uma solidão que pode ser embalada. Braços cruzados, joelhos encolhidos; contendo mais, esse movimento, diferente do de um navio, acalma e contém o embalador. É uma coisa interna - que envolve, justa como a pele. Depois, existe a solidão que vaga. Nenhum embalo pode contê-la. Ela é viva, independente. Uma coisa seca e espalhada que faz o som dos próprios pés da pessoa indo parecer vir de um lugar distante."