Baring my soul | Mitchan
Concentrou os olhos em um mesmo ponto fixo, tentando manter um ritmo regular para sua respiração. Pôde ver por sua visão periférica Ethan fechando a janela, e sentiu o vento e os respingos de chuva se interromperem, mas não desviou o olhar para assistir qualquer movimento. Era como se estivesse congelado.
Por favor, por favor, implorava uma vozinha no fundo de sua mente, me diga que posso confiar em você. Me diga que ainda tenho uma chance de acertar as coisas, pelo menos dessa vez.
Era engraçado, como inconscientemente estava aceitando o que mais desejava na vida. Buscando por isso. Por ter alguém em quem confiar, e parar de correr de seus sentimentos, mas lidar com eles e tentar se concertar de verdade. Poderia se sentir orgulhoso, mas sentia-se mais como alguém pendendo de um abismo — a corda era tudo o que ele queria, sua esperança de se reconstruir, a pessoa que a segurava era Ethan, e o abismo era seus conflitos internos. Não queria que ele largasse a corda. Era o motivo primário pelo qual decidira se segurar, afinal. E aquilo era mais assustador do que qualquer outra coisa.
Voltou o olhar para ele quando sentiu um toque em sua mão. Ethan estava em pé à sua frente. Agarrou seu pulso instintivamente, sentindo sua pulsação através dele. Era relaxante e eletrizante ao mesmo tempo.
E então, Ethan começou a falar. Era como se pudesse ver através dele, de tudo que sentia, e estivesse tentando expressar que compreendia. E se expressava de forma poética. Mitchell sentia-se tentado a sorrir, mas não conseguia. Também sentia-se tentado a agradecer. E a desabar, em parte.
Mas ficou em silêncio. Talvez devesse dizer que sentia o mesmo, em tudo que ele havia falado, e que sentia que não merecia nada daquilo que o outro lhe dava, mas falar estava sendo difícil no momento. Pelo menos esperava que Ethan pudesse ver aquilo por seus olhos. Porque, por enquanto, só havia silêncio.
— Eu quero contar — se forçou a dizer. Podia não dizer nada, simplesmente aconchegar-se no silêncio, e no momento, mas não podia perder a coragem. Coragem que já estava se esvaindo. Que ele estava cavucando para encontrar. — Eu quero contar, eu… você vai entender quando eu contar. Por que eu estou contando, quero dizer.
E por que não estou soando coerente também, espero.
Ele recostou a cabeça contra a janela, fechando os olhos. Por onde começar? Sabia bem. Como começar? Tinha uma leve ideia. Como fazer as palavras saírem? Aquela era a questão.
Respirou fundo. Voltou a abri-los.
— Olha, quando eu era criança… éramos eu e meu pai. E parte da família, também, mas na maior parte do tempo éramos só eu e ele. E ninguém nunca me ensinou que qualquer opção sexual era errada. Ninguém nunca falava sobre ser gay ou qualquer coisa relacionada em casa. Eu só… assumia que qualquer tipo de relacionamento amoroso entre duas pessoas era certo — começou, engolindo em seco. Era algo psicológico, próprio de crianças, ele sabia. Elas não tinham a tendência de discriminar, por raça, gênero, ou opção sexual, ou o que quer que fosse. Como Mandela dissera, ninguém nasce odiando; apenas aprendem a odiar. Mas não era naquele tópico repleto de reflexões que queria se alongar. — E então… veio aquela época, pelos oito anos, quando compreendemos mais o mundo de super-heróis e contos de fadas e o que não mais. E enquanto a maioria dos garotos queria ser o Superman e brincar de encontrar sua Lois Lane, eu estava mais interessado em encontrar o Spock para o meu Kirk.
Soltou uma risada. Era verdade. Era como pensava, quando ainda era tão incrível e estupidamente ingênuo. E sua obsessão por Star Trek vinha desde aqueles tempos.
— E daí tinha esse cara… nós éramos melhores amigos. Do tipo que quando um quebrava o nariz o outro era responsável pra correr pra alguém e pedir ajuda. E isso já tinha acontecido — novamente, riu, sem muito humor. — Mas o fato é que estávamos sempre juntos. E era aquela idade em que as crianças começam a dizer que estão apaixonadas ou brincam de namorar. E eu, bem… eu enfiei na cabeça que tinha uma queda por esse meu amigo. E que, se eu contasse pro meu pai, ele ficaria muito feliz por mim. E digamos que… ele não aceitou muito bem.
Seu ar de riso desapareceu, sua voz falhou. As memórias do dia retornaram à sua mente como uma avalanche. Era engraçado, o quão bem se lembrava daquele acontecimento, considerando o quão novo era. As memórias de infância geralmente ficavam mais obscurecidas com o tempo, para a maioria das pessoas. Não para ele.
— Ele surtou. É claro que sim. Aquilo era eu saindo do armário sem saber que estava fazendo isso, e ele não aceitava bem a ideia de ter um filho gay — disse, surpreso pela quantidade de eufemismos que conseguia colocar em uma só frase. — Digamos que… houve gritos, uma garrafa de cerveja se quebrando no chão… porque ele era alcoólatra, caso não tenha mencionado isso antes… — sua respiração prendeu-se em sua garganta — … e… alguns tapas.
Os primeiros, mas não os últimos. Continuar falando se tornava cada vez mais difícil.
— Daquele dia em diante, acho que ele passou a me odiar. Pelo menos me via com desgosto, como uma decepção à família… esse tipo de coisa. Eu tinha que ouvir coisas — xingamentos, ofensas, um ódio e uma decepção explícitas —, e tinha… os… os… — tapas? Socos? Objetos jogados em sua direção? Sua voz estava falhando cada vez mais. —… as… agressões. No começo, era assustador. Eu não entendia. Daí entendi. Ou achei que entendi. Eu era algum tipo de erro, criatura digna de desgosto, e eu não conseguia mudar. E era minha culpa. E teve a época em que eu decidi que ele que estava errado, que aquilo não era justo. E tinha as épocas em que… em que eu não sabia a quem culpar, ou o que sentir.
Respirou fundo. Não via seu pai há anos, mas os sentimentos, os conflitos internos, eram os mesmos.
— O fato é… desde aquele dia, as coisas ficaram piores, e piores. Eu me distanciei do meu amigo, e de todas as pessoas, na verdade. Eu evitava sentir, a possibilidade de se apaixonar era aterrorizante. E eu me culpava muito pelo que eu era… — abaixou o olhar. Estava falando sem parar, e, ao mesmo tempo, quase não conseguindo falar. — Eu me sentia pressionado, especialmente pelo meu pai, porque cada erro era motivo para ele explodir, me lembrar… me lembrar da “bicha inútil” que eu era. E também tinha minha mãe…
Angela, se lembrou. A vira em fotos. Ouvira histórias sobre ela. Parecia uma das pessoas mais magníficas que alguém podia conhecer. E, por causa de seu nascimento, ela estava morta.
Lembrava de seu pai se lamentando à noite, bêbado, como alguém que fora injustiçado por Deus. “Por que você me levou ela, e me deixou ele?”. Parecia uma pergunta justa.
— Ela morreu no parto. E meu pai… acho que ele me culpava pela morte dela. Eu também me culparia — riu fracamente. — Isso já acontecia bem antes de… tudo começar. Mas, a partir daí, ele não se lamentava por ter sido deixado só comigo, mas por ter sido deixado bem comigo. Ele não queria mais que todos estivessem vivos… acho que ele preferia que eu estivesse morto.
Pela primeira vez, estava falando aquilo em voz alta. Tudo aquilo. Admitindo para si mesmo e para alguém mais o que sentia, e o que se passara, e expondo todas as cicatrizes que tudo havia deixado. Sentia-se como se alguém o houvesse despido e esfolado, até os ossos, até a alma. Tudo em seu interior podia ser visto. Estava exposto e vulnerável.
E ele se deixara assim, por escolha própria, porque confiava em Ethan.
Era loucura. Não sabia se sentia-se mais leve, ou mais pesado, ou simplesmente o que sentia. Suspirou, novamente encostando-se contra a janela. Havia derramado todas as palavras que mantivera presas em sua garganta, e agora, após aquela explicação frenética, sentia o entorpecimento batendo em sua porta.
— O ponto é… isso tudo… meio que me afetou permanentemente — continuou, escolhendo as palavras com mais cuidado. — No começo, quando eu vim pra Hogwarts… eu decidi que nunca ia voltar. Ia ficar aqui por tanto quanto fosse possível. Esse lugar se tornou como um porto seguro pra mim. Mas no começo… era difícil se aproximar das pessoas. Se relacionar. As coisas foram melhorando com o tempo, mas ainda é difícil confiar nas pessoas, se entregar de verdade. E eu nunca… — ele pausou, engolindo através de um nó em sua garganta. Ainda não conseguia levantar o olhar, fitar Ethan. — Nunca contei pra ninguém… sobre nada disso. Nem que eu sou gay, ou sobre meu pai, ou o que quer que seja. Nem mesmo pra Vic, que é a única pessoa que considero próxima de mim… além de você. Sempre tive medo que, se descobrissem… fossem me odiar também. Fossem me ver como meu pai me via.
Seus olhos encontraram o chão, e finalmente se voltaram para os de Ethan. Não sabia quando havia largado seu pulso, mas tornou a buscá-lo, escorregando sua mão até a dele, entrelaçando seus dedos. A leveza com que conseguia fazer aquilo, agora, era surpreendente. Era como se houvesse algo novo entre eles. Algo mais profundo, mais pessoal.
E, ao mesmo tempo que sentia essa estranha calma, sua cabeça girava e seus olhos ardiam. Eram memórias demais, sentimentos demais, que supunha que Ethan conseguia ler apenas com o olhar. Pois estavam logo na superfície, na borda, expostos para quem quer que desejasse ver.
Lembrou-se do dia dos desafios. Ethan havia aberto seu coração para ele. Agora, era a sua vez de abrir o seu, à sua maneira.
— Eu não posso dizer que te amo ainda. É tudo muito novo, muito recente, e se entregar não é tão fácil assim pra mim. E eu não quero dizer nada sem a certeza do que estou dizendo, especialmente algo tão poderoso assim — confessou. Sua voz estava se estabilizando. Era mais fácil respirar. — Mas eu tenho certeza de que estou apaixonado por você. Que me importo com você de uma forma mais intensa do que pensei ser possível E eu quero tentar. Quero te conhecer melhor, me aproximar de você, e quem sabe aprender a te amar. Isso não vai ser fácil, mas eu quero tentar.
Respirou fundo. Era um livro aberto, agora. Todo o conteúdo em suas páginas parecia ter sido derramado, sussurrado e gritado para Ethan. Era amedrontador. Mas, de alguma forma, sabia que era o que precisava e o que queria fazer.
— E então?
Percebeu o quanto toda aquela situação era difícil para Mitch. Era como se ele tentasse achar as palavras certas, formas frases que no fim parecessem fazer algum sentido para si mesmo. Mas pela sua expressão ele não estava tendo grande sucesso.
Ethan ponderou o que seria de tão importante e tão difícil para colocá-lo naquela situação. Ele se sentia um pouco mal ao presenciar tudo aquilo. Não queria fazer ele passar por toda aquele situação. No fundo ele sentia que a culpa era sua, como se o estivesse forçando a fazer algo que ele não tinha forças suficientes para fazer. Será que era isso o que estava acontecendo? Será que o Ethan o estava sufocando. Se assim o fosse, Ethan não saberia o que fazer, porque tudo o que ele fizera era para evitar essa situação.
Cuidadosamente Mitch começou seu pronunciamento. Com muita dificuldade ele contou histórias sobre sua infância e como tinha sido para ele se descobrir e compartilhar essa descoberta com o pai. Não tinha sido nada agradável. Isso não surpreendia Ethan. Na sociedade que eles estavam inseridos muitas pessoas ainda não aceitavam essas novas formas de amor. Achavam que era uma forma de acabar com as famílias tradicionais e mudar o mundo para pior.
Eles apenas julgavam. Mas não sabiam o que é estar na pele de uma pessoa que é assim. Não sabem a profunda tristeza e angústia que é se sentir só, o medo constante de não ser aceito pelos próprios amigos; o fato de não ter com quem contar, ou em quem confiar. Não sabem o quanto sofrem essas pessoas cujo único sonho é poder amar sem temer.
Isso sempre frustrou Ethan. Porque as pessoas apenas julgavam pela aparência? Porque não julgar pelo interior? Essa era uma pergunta que nunca poderia ser respondida, pois o mundo é feito de oposto e é impossível as pessoas chegarem a um consenso.
Depois de algum tempo Mitch terminou sua história. Era doloroso e fazia Ethan entender tudo o que ele tinha passado. Ele refletiu que nunca tinha passado por esse situação porque nunca se assumira para os pais. Mas achava que Mitch era, antes de tudo, um herói; porque se fosse com ele, Ethan com certeza teria desabado. O fardo é muito grande para ser levado, e Mitch carregara o seu sozinho toda a sua vida. Sem ninguém para lhe estender a mão e oferecer ajuda.
Ethan queria ser esse pessoa. A pessoa que lhe estende a mãe quando você mais precisa; a que dá o ombro para você chorar e que o conforta quando o que você mais precisa é um abraço.
Ethan olhou direto nos olhos de Mitch. Eles esperavam por uma resposta. Sem saber o que dizer ele apenas deixou-se levar pelo momento. A verdade das afirmações do Mitch o atingiu em cheio e ele ficou completamente sem palavras. Não sabia nem o que pensar naquele momento. Apenas sentia uma agitação no peito muito mais forte do que qualquer outra vez já sentira. Mitch dissera que estava apaixonado por ele. Seria que dessa vez o destino teria sorrido para ele?
Sem pensar direito Ethan se aproximou de Mitch, fitando seus olhos lindos refletindo a luz solar. Pôs a mão sobre sua bochecha sentindo um pequeno choque atravessar seu corpo quando suas peles se tocaram. Ethan não conseguia desviar seus olhos dos de Mitch; ele se sentia hipnotizado naquele momento. Ele então se aproximou e tocou levemente seus lábios nos dele. Foi aí que sentiu seu mundo se explodir. Aquilo tudo parecia... certo.
Foi um beijo rápido, apenas para provar que estava ali. Por ele.
-Saiba que sempre estarei aqui por você. No que precisar. Sempre que precisar de um amigo, ou até algo mais que isso, saiba que pode contar comigo. Eu sou aquele que está disposto a qualquer coisa para vê-lo feliz. Você não merece tudo o que sofreu. Então estou disposto a estar ao seu lado, lutar suas lutas, chorar suas tristezas. Estou disposto a fazê-lo feliz.- sorriu brevemente, olhando diretamente para ele -Eu também estou completamente apaixonado por você.















