Baring my soul | Mitchan
Percebeu o quanto toda aquela situação era difícil para Mitch. Era como se ele tentasse achar as palavras certas, formas frases que no fim parecessem fazer algum sentido para si mesmo. Mas pela sua expressão ele não estava tendo grande sucesso.
Ethan ponderou o que seria de tão importante e tão difícil para colocá-lo naquela situação. Ele se sentia um pouco mal ao presenciar tudo aquilo. Não queria fazer ele passar por toda aquele situação. No fundo ele sentia que a culpa era sua, como se o estivesse forçando a fazer algo que ele não tinha forças suficientes para fazer. Será que era isso o que estava acontecendo? Será que o Ethan o estava sufocando. Se assim o fosse, Ethan não saberia o que fazer, porque tudo o que ele fizera era para evitar essa situação.
Cuidadosamente Mitch começou seu pronunciamento. Com muita dificuldade ele contou histórias sobre sua infância e como tinha sido para ele se descobrir e compartilhar essa descoberta com o pai. Não tinha sido nada agradável. Isso não surpreendia Ethan. Na sociedade que eles estavam inseridos muitas pessoas ainda não aceitavam essas novas formas de amor. Achavam que era uma forma de acabar com as famílias tradicionais e mudar o mundo para pior.
Eles apenas julgavam. Mas não sabiam o que é estar na pele de uma pessoa que é assim. Não sabem a profunda tristeza e angústia que é se sentir só, o medo constante de não ser aceito pelos próprios amigos; o fato de não ter com quem contar, ou em quem confiar. Não sabem o quanto sofrem essas pessoas cujo único sonho é poder amar sem temer.
Isso sempre frustrou Ethan. Porque as pessoas apenas julgavam pela aparência? Porque não julgar pelo interior? Essa era uma pergunta que nunca poderia ser respondida, pois o mundo é feito de oposto e é impossível as pessoas chegarem a um consenso.
Depois de algum tempo Mitch terminou sua história. Era doloroso e fazia Ethan entender tudo o que ele tinha passado. Ele refletiu que nunca tinha passado por esse situação porque nunca se assumira para os pais. Mas achava que Mitch era, antes de tudo, um herói; porque se fosse com ele, Ethan com certeza teria desabado. O fardo é muito grande para ser levado, e Mitch carregara o seu sozinho toda a sua vida. Sem ninguém para lhe estender a mão e oferecer ajuda.
Ethan queria ser esse pessoa. A pessoa que lhe estende a mãe quando você mais precisa; a que dá o ombro para você chorar e que o conforta quando o que você mais precisa é um abraço.
Ethan olhou direto nos olhos de Mitch. Eles esperavam por uma resposta. Sem saber o que dizer ele apenas deixou-se levar pelo momento. A verdade das afirmações do Mitch o atingiu em cheio e ele ficou completamente sem palavras. Não sabia nem o que pensar naquele momento. Apenas sentia uma agitação no peito muito mais forte do que qualquer outra vez já sentira. Mitch dissera que estava apaixonado por ele. Seria que dessa vez o destino teria sorrido para ele?
Sem pensar direito Ethan se aproximou de Mitch, fitando seus olhos lindos refletindo a luz solar. Pôs a mão sobre sua bochecha sentindo um pequeno choque atravessar seu corpo quando suas peles se tocaram. Ethan não conseguia desviar seus olhos dos de Mitch; ele se sentia hipnotizado naquele momento. Ele então se aproximou e tocou levemente seus lábios nos dele. Foi aí que sentiu seu mundo se explodir. Aquilo tudo parecia… certo.
Foi um beijo rápido, apenas para provar que estava ali. Por ele.
-Saiba que sempre estarei aqui por você. No que precisar. Sempre que precisar de um amigo, ou até algo mais que isso, saiba que pode contar comigo. Eu sou aquele que está disposto a qualquer coisa para vê-lo feliz. Você não merece tudo o que sofreu. Então estou disposto a estar ao seu lado, lutar suas lutas, chorar suas tristezas. Estou disposto a fazê-lo feliz.- sorriu brevemente, olhando diretamente para ele -Eu também estou completamente apaixonado por você.
Sentia algo estranho vagarosamente se assentando em seu peito. Um entorpecimento estranho, como um estado de paz não necessariamente acompanhado por alegria. Aceitação, talvez. Acabara de verbalizar tudo o que precisava, tudo o que queria, de cumprir o que sentia como sendo seu dever. O que quer que viesse, dependia de Ethan, e do que o destino tinha preparado para ele. Era mais do que hora de começar a lidar de verdade com tudo aquilo, não?
Talvez, no fundo, ainda se sentisse nervoso, mas o aperto em seu peito e a queimação em seus olhos eram apenas sensações distantes agora, uma parede de vidro em que mantivera a mão por tempo o suficiente para o frio tornar-se um leve pinicar. É, aceitação era a melhor palavra para o momento.
A imagem de Ethan dançava diante de seus olhos, que, ele percebia agora, mal piscavam. Cerrou-os, inclinando-se para que sua boca fosse em direção à dele, mas o beijo do outro foi breve. Deixou-o ir, levemente decepcionado por um instante. Era o que queria no momento.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. Aquilo era o mais perto da paz que conseguia se lembrar de ter chegado em um bom tempo.
-- Eu sei -- respondeu. Pretendia que o comentário soasse brincalhão, mas era sinceridade que saía com a sua voz. Ao menos naquele momento, sentia-se confiante da afirmação de Ethan. Queria estar, mesmo que a sensação ainda fosse de estar dando tiros no escuro. Agora, uma luzinha vaga havia se acendido, e ele não queria que ela se apagasse. -- E eu não sou tão eloquente como você... mas também estou aqui por ti. Tudo bem?
Por um momento, seus olhos vasculharam o rosto de Ethan por concordância, compreensão. Sentia-se tentado a beijá-lo novamente, mas se conteve. Substituiu o ato por uma pergunta:
-- Mas e você... qual a sua história de vida?








