quieta, sentada em um canto em silêncio, a contemplar o nada como quem diz-se de passagem. contudo, realmente, de passagem estou. mexendo os dedos de forma sútil, fazendo desenhos em meus joelhos que tremem de frio.
de repente, ela entra na sala. a música árabe ainda toca na caixa de som, quase que no máximo. me observando como um gato, joga os cachos ruivos para trás e começa a dançar.
a perfeição de teus passos me encanta, estremeço. samba na mesma velocidade que os toques da música, meu coração bate tão rápido que tenho certeza que até ela pode me ouvir. mas ela não presta atenção em mim. ela ama dançar. posso ver isso. a paixão com que faz os passos, é a mesma com que desejo que me ame. me ame daquele jeito.
quero que ela me convide para dançar, me puxe pelas mãos, e dance comigo. quero que ela me aqueça com a explosão de alegria que irradia. contudo, vê-la dançar assim de tal forma tremenda e apaixonante, já é o bastante para que me meu corpo fique quente.
desejo, logo mais também em silêncio, que os meus olhos brilhem como os dela parecem brilhar. quando move tuas mãos com ternura, e as entrelaça ao redor de teu próprio corpo, desejo que fosse eu ali em tua frente. desejo ser teu par. desejo em silêncio que me convide para dançar. oh, por favor, me chame para uma dança.
os movimentos que faz... a forma como faz... ela é uma categoria da arte que ainda não fui disposta a estudar. seus lábios se movem quase que involuntariamente enquanto ela se diverte, brinca nas ondas de teu próprio corpo, ágil como um leopardo, delicada como uma flor.
torna teu olhar de volta a mim, suplico. oh, por favor, torna teu olhar de volta a mim. vê-me e chama-me para uma dança.
as mãos erguidas, como saudando um Deus, o quadril em movimento, e as pernas para trás e para frente, para trás e para frente. e, ah, sempre que te viras ao lado e ergue teus braços, confirmo-me que me chamarás para dançar, oh, por favor, deixe-me ser tua parceira de todas as danças, deixe-me ser tua parceira de todas cantorias. oh, suplico, deixa-me estudar-te, desde teus traços mais simples até os mais complicados, pois estou disposta a te aprender, e tu em nada parece simples de se entender.
ela sorri quando repara afinal em minha presença. meu coração já pulsa na mesma onda com que os tambores tocam, com que teus pés pisam no chão, com que teus cachos se jogam, com que me olhas, já pulsa na mesma velocidade com que me jogas tua mão. e eu suplico.
chama-me para uma dança! eu quero ser teu par!
contudo, teu par está te esperando no carro, eu sei. em alguns segundos, tua ternura toda apaixonante e elegância admirável se esvairão pela mesma porta por onde entraram, por onde viram à toa. e, oh, eu ainda me dizia de passagem antes de ver-te chegar.
deixe me ser teu par, quase sussurro. mas ela sabe como me ler. no fundo, somos um par. mesmo sem dançar, sinto que somos um par. e que estamos entrelaçadas, com a mesma forma que te entrelaças a paixão de dançar. e sai pela porta, e já não mais a vejo. e mesmo assim, suplico. oh, fica, deixa-me ser teu par.










