
祝日 / Permanent Vacation
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@eucarollima
Frequência
Saudade é uma palavra estranha para descrever o que sinto por algo que nunca tive. Meu primo me contava de quando era pequeno, ele e os amigos com walkie talkies, um laser apontado para a janela do quarto de alguém como convite. Sem notificação, sem visto, sem bolinha verde. Um feixe de luz que dizia: estou aqui, e sei que você também está. Eu cresci querendo ter vivido isso. Ele foi meu primeiro amigo, meu primeiro modelo de como se existia no mundo, e talvez por isso eu ainda meça amizade pela régua dele sem perceber.
Imagina então minha surpresa quando, durante umas férias pensando em comprar walkie talkies com os meus, chegaram três mensagens de pessoas que considerava amigas dizendo que eu não me importava com a nossa amizade. O argumento: eu não mandava mensagem. Semanas, às vezes meses sem responder. Para elas isso era ausência. Para mim era só silêncio, que é diferente. Fiquei olhando para a tela tentando entender em que momento a prova de amizade virou atividade online. Em que momento o afeto virou métrica.
Não estou online logo eu morri. Não mandei mensagem logo eu não me importo. A lógica é essa e eu genuinamente não consigo habitar ela. Você não podia ter ligado? Batido na porta? Mandado sinal por outro canal que não fosse aquele onde eu comprovadamente não estava? A pergunta que fica não é por que eu sumia. É por que a amizade inteira estava depositada num único lugar tão frágil.
Agir dentro dessas regras me parece uma capitulação que não estou disposto a fazer. Com meus sete amigos de infância, os que estão comigo entre dez e vinte anos, isso nunca foi um problema. A gente some, volta, bate na porta, e o tempo não cobra juros. Um "cambio" no walkie talkie que não temos porque somos pirangueiros seria suficiente para retomar qualquer conversa de onde parou. Essa é a régua que aprendi com meu primo. Talvez seja velha. Talvez seja a única que faça sentido.
Largar as redes não é isolamento. É uma escolha sobre onde depositar atenção, que é o recurso mais escasso que existe. Eu prefiro o laser na janela, mesmo que seja metáfora, mesmo que seja saudade de algo que não vivi. Prefiro o sinal que exige que os dois estejam presentes de verdade, que não deixa histórico, que não tem bolinha de visto. Que some quando acaba e não deixa rastro nenhum para cobrar depois.
e dentro de todos esses momentos tão pequenos com você eu pude me sentir infinito
obrigada.
Verdade
“Mas todo mundo virou as costas. Ninguém perguntou se havia algum problema comigo.”
— Os 13 porquês.
Quando foi a última vez que ouvi alguém sem pressa, estando interessado no que estaria prestes a ouvir?
Quando foi a última vez que lembrei de deixar a água fluir só um pouquinho pela cabeça, ao tomar banho?
Quando foi a última vez que parei pra fazer carinho num tobinho de rua?
Quando foi a última vez que ouvi o lançamento de um álbum inteiro, lendo todas as letras traduzidas?
Quando foi a última vez que maratonei séries, virando a noite em corujões, dormindo poucas horas para acordar e assistir mais?
Quando foi a última vez que abracei um familiar?
Quando foi a última vez que tive uma crise de riso?
Quando foi a última vez que fiz algo pela primeira vez?
Minha alma é antiga. Escrevo em um caderno. E ele me acompanha aonde quer que eu vá. Bilhetes, cartas e poemas escritos a mão. O aroma do meu livro favorito. Ele me fez apreciar a pintura em aquarela. O som dos pássaros e do mar me acalma. Assim como tocar notas no piano me faz acreditar que o amor verdadeiro existe.
Filipe Ferrero
“Amar é nunca desistir.”
— florejus
de tudo que passou, só eu permaneci.