‘Butch Bodies’ : a lino print!
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@eujuliajsg
‘Butch Bodies’ : a lino print!
eu te salvaria das guerras e dos choros e te pediria pra ficar
início do mês eu vou ao mercado. coloco o headphone com o volume no máximo tocando o acústico mtv do cidade negra e é como se nada alem de prateleiras com produtos inflacionados existisse. vou no mais distante da minha casa pra não encontrar com ele. as coisas são assim agora. eu evito tudo. tenho medo de ser relembrada do amor que ainda sinto. porque imagina só, você esbarrar com a pessoa que mais amou na vida enquanto tá escolhendo cloro ou selecionando as melhores batatas? é injusto, é simplesmente injusto que alguém que você escolheu deixar surja no seu cotidiano como se não significasse nada sendo que significa. ainda e você não sabe por quanto tempo. reclamo do preço do óleo e reavalio o carrinho milhões de vezes pra ver se não esqueci nada. eu deveria ter feito uma lista, mas na real eu não preciso. tenho todo conteúdo do meu armário na palma da mão da minha memória. é aí que percebo que sou adulta e que me lembro de coisas banais que me ajudam a sobreviver como se fosse natural lembra-las, como se eu nunca tivesse que aprender isso. a voz do toni garrido e do gilberto gil naquele feat em extra dá uma elevada na minha energia. música tem dessas coisas e isso é tão incrível. cruzo os corredores como se pudesse voar, mas nada realmente é mágico assim. é tudo questão de trilha sonora e de crença, de vontade de fazer o pacato ser mais do que é. talvez você não queira saber sobre o meu sábado de compras do mês, mas acho que não tenho nada relevante a contar. eu ainda sou a mesma mulher. a que viveu as coisas na idade em que elas tinham que acontecer e agora só vai caminhando pela vida como quem tá com o carrinho cheio do que é essencial e com uma ou duas coisas supérfluas. ou três. ou quatro. a gente não pode se negar tudo sempre. então a fila e então as sacolas e então a volta. tem tanta coisa pra acontecer. o dia tá lindo. não se esqueça de viver. esqueça de tudo, menos de viver.
no meu quarto a vela de maçã verde pensei em comprar rosas tem tanta coisa e cor e cheiro e se você tem coragem, se tem mesmo coragem, não vai negar ou fugir de nada
nem de mim, nem do quanto eu posso te contar
talvez eu tenha me dado conta de que não estou pronta pra paixão agora e por não estar pronta é que posso te entregar tantas outras coisas
do que você tem medo? do que os homens têm tanto medo?
warsan shire em "bendita seja essa casa" apontou para o próprio corpo e disse "aqui é onde os homens vêm para morrer"
só que nunca valeu a pena o seu medo, afinal
quem de nós morre mais nas mãos do outro?
você me disse uma vez que o amor era aterrorizante
eu era insegura e tive vergonha de nunca ter a chance de experimentar o seu
ele teria um gosto amargo, decidi
terror é a ideia de nunca amar
eu teria atravessado o mar vermelho por você mesmo sem fé nenhuma pelos dias que virão
por tanto tempo houve um tempo em que banalidades me enchiam a barriga e por mais que eu tentasse não me tornava aquela mulher nem a sua nem a minha a mulher de ninguém te digo valente, crescer dói os joelhos e tu me manda tentar, mas permitir que raízes rasguem os pés dói eu sempre tive pavor da dor foi bem difícil assistir a mim me tornando tudo o que nunca sonhei mas foi bonito demais me conhecer outra enquanto uma faca me abre outra coisa me costura e entre ser mulher bicho esperança e medo eu tô apenas escolhendo ir e a depender do humor das nuvens eu te apresento uma nova cidade.
a vida vai te chamar e você ficará bem
é uma promessa.
some days, I believe in communication. some days, I believe in silence.
às vezes eu saio por aí achando que toda a vida precisa ser vivida de uma vez
às vezes eu escrevo sobre o tempo
sou inconsistente
posso te falar de todas as vezes em que fui amada assim
e então você vai entender
que minhas escolhas falam mais alto que meus defeitos
e que tudo que eu segui amando
eu segui amando
porque eu quis
ano passado fui na casa de um amigo assar um bolo porque ele estava triste e acho que o carinho é simples assim
eu não burocratizo o meu afeto. eu gosto de graça, mas não insiro na minha vida alguém que não combina com ela
o que me conforta, nos dias ruins, é que quando os bons vierem, eu vou ter certeza de quem eu sou. existem várias lacunas, mas não essa
até hoje eu me conheço e amanhã espero que sim
canto como se só tivesse sonhos
o carnaval acabou
mas a minha festa
é estar viva
e ainda ser plenamente capaz
de amar
é sexta à noite e eu tô com meus amigos num bar da tijuca e o vento gelado não nos distrai da sensação reconfortante de que estamos vivos e somos amados
a risada e a bebida e as coisas que a gente murmura bem baixinho porque são segredos (ou só absurdos que a gente só diz pra quem confia) e tudo parece quente, apesar do inverno
quando a primavera começar e o sol sair de virgem, quando libra vier com seus misticismos e compensações, quando tudo for sobre dúvida e justiça, nada vai parecer desperdício, não pra mim
eu tenho vivido há quase 33 anos. vivido. sem simulações.
então me sinto pronta, para o resto da minha vida, apesar dos dias ruins que invariavelmente virão
eu quero a vida e é uma sede como nenhuma outra
eu preciso tê-la nas mãos
da sala 1 do estação net de botafogo pra livraria da travessa do outro lado da voluntários, eu atravessei a rua sorrindo porque era uma quinta-feira qualquer e eu me senti inteira.
eu ainda espero que você se emocione, eu ainda espero que o ordinário segure sua mão e te conforte
talvez tudo que eu consiga te dizer agora é que cruzo a conde de bonfim murmurando baixinho a música que toca nos fones
canto alto nos trechos mais escuros do caminho
tenho medo, mas a vontade de chegar em casa
literal ou figurativamente
me faz correr até quando o ar me falta
eu escrevo pra mim então talvez não faça sentido pra outras
hoje foi meu primeiro dia na nova empresa e voltei feliz e cruzei a rua uruguai pensando que caramba como as coisas podem acontecer do jeito mais justo possível
queria ter mais coragem, acho que tudo seria ainda melhor se eu tivesse mais coragem
só que tá bom, eu tô bem
vou ficar melhor porque eu me amo
eu me amo quase todos os dias
e eu gostaria que você se amasse quase todos os dias também
no fundo seu coração percebe, não? há uma consciência em nós, que é precisa, sobre as coisas.
Lygia Fagundes Telles, As meninas.