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Mary Oliver, from “Green, Green is My Sister's House”, A Thousand Mornings
Sylvia Plath, "Three Women"
não é que eu tenha desistido do amor romântico, mas talvez essa seja a forma mais simples de te explicar que você não vai me encontrar nos aplicativos e se me ver pelo rio de janeiro a noite provavelmente vai ser gargalhando da bobagem de alguma amiga ou com a boca cheia de alguma comida ou de olhos fechados porque tem alguma música boa tocando
talvez seja a forma mais simples de te explicar que não vai ter um texto avassalador escrito numa quarta-feira desesperada e que eu não vou surgir do nada com o nome de um homem aleatório e uma história que eu não precisava adquirir
eu ainda vou experienciar a cidade e as coisas e morar nesse mundo do mesmo jeito ou quase idêntico exceto o coração partido quer dizer amigos também partem seu coração mas nesses quase 34 anos eu posso te dizer que escolhi bem, não posso?
são mais de dez anos com a amiga que me vê no meu pior numa sala de emergência e são mais de cinco com o amigo que anda metros e metros comigo meio sem rumo só pra passar o tempo
ainda tem aquela poesia implicante nas coisas mais banais porque nada nunca precisou do amor, só foi mais interessante com ele
é óbvio que eu sou mais interessante quando tô apaixonada
mas ainda sou eu e tudo bem não precisar disso, não querer, não procurar
você pode achar que sei lá vai aparecer alguém enquanto sigo desavisada e meio que pode, a gente nunca sabe, mas eu não quero vê-lo assim e é esse o ponto
se o amor da minha vida existe e não sou eu, não sei se quero reconhece-lo assim
vai ser ótimo mais alguém me amar, eu acho
mas não vai ser nada novo. eu sou absurdamente amada
e quando me dei conta, eu pude "desistir"
no fim das contas a gente não tem nada a perder
fazendo janta ouvindo esquinas do djavan outra terça mais uma tem uma lagartixa na parede do meu quarto e tudo tá com cheiro de limão porque eu continuo com isso de velas e cheiros cítricos e fez calor e eu saí pra pegar sol, ir no mercado, andar
porque o inverno e o luto e o presente de aniversário que eu preciso comprar a vida movendo e moendo e você também não sente falta de falar de coisas bonitas poéticas e apoteóticas? às vezes eu sinto
mas a versão de mim que vivia tudo isso era a que sofria mais
você já se deu conta? que a gente tende a olhar pras nossas ex idades como se elas fossem retratos por vezes mais honestos de nós?
mas eu continuo sendo de verdade, por deus
adoro a acidez do molho de tomate e sempre erro na porção de macarrão pra um
não tenho pra quem cantar "teus sinais me confundem da cabeça aos pés"
essa é a última semana de julho e eu sou uma versão inteira minha
não uma presa a uma história a um homem a um trabalho
mas a reunião de hobbies e humor e idas ao maracanã e voltas por aí
devoro a mim mesma, nada sobra
Anaïs Nin, from a diary entry featured in Trapeze: The Unexpurgated Diary of Anais Nin, 1947-1955
“That’s the best thing about language: every time you use a word you are summoning so many other things—all the times that word has ever been used. I know this sounds a little psychedelic, but maybe I have an ancestor one hundred years ago who used this word that I choose to write now. What does it mean that everything that we are writing is recycled? Words are full of ghosts. Poetry is full of ghosts.”
— Morgan Parker
Ada Limón, , from a poem titled "Thirteen Feral Cats," featured in Startlement: New and Selected Poems
numa das vezes que o nosso pé de jasmim floresceu, eu disse pra minha mãe que não deveríamos nunca colher flores porque presas nas árvores elas viveriam mais.
e você sabe o que ela me disse?
"mas elas vão morrer de qualquer jeito"
porque o tempo vai continuar passando
e as coisas vão continuar no seu ciclo de vida e morte
como nós
como todo conceito de início que precisa do término pra ter sentido
você não sabe, mas minha tia morreu há uma semana. ela adorava violetas.
quando eu era criança, lembro de sempre ver um vasinho de flores na sacada da janela do quarto dela.
na manhã de sua partida, eu tinha comprado margaridas
a gente tinha planejado visita-la pela semana. ela tinha 87 anos e um coração mais delicado do que uma pétala
minha tia sempre foi devota a nossa família, não se casou, não teve filhos, cuidou da minha avó, dos meus primos, de mim
uma flor que nunca se desgrudou da árvore
morreu, como todas as outras
é difícil ter que lembrar que tão necessários quanto os começos
são os fins
Hélène Cixous, from her novel titled "Inside," originally published in 1986
Fyodor Dostoevsky, from a letter featured in Letters of Fyodor Michailovitch Dostoevsky to his Family & Friends
botafogo, voluntários da pátria 46. vinho e sanduíche e vinho e água
olha essa lua
mais uma tacinha
a gente tá torcendo pra cabo verde e eu coloquei o nome do messi no congelador
eu sou só uma garota
e sim, meu deus, uma mulher
mas ainda uma garota
vivendo esses momentos cintilantes
a vida tão boa, tão bonita
e eu sou só uma garota
caçando
perdendo
Margaret Atwood, from "The Woman Who Could Not Live With Her Faulty Heart" in Selected Poems II: 1976-1986
Louisa May Alcott, Little Women
damn the dark, damn the light
i can still hear you saying we would never break the chain
a minha versão com vinte e poucos anos não sabia ler os sinais.
você disse
e quantas vezes você disse
que não saberia ficar. que estava quebrado. que não era capaz de amar ninguém.
quantas vezes eu ignorei porque confiei: o meu amor tão puro tão incandescente tão feroz
como? como o universo seria capaz de triturar um coração assim? como você seria capaz de me consumir assim?
acreditei que nosso encontro tinha sido escrito e ditado por algo maior que nossos diagnósticos, algo maior que nossas escolhas ruins
uma profecia? uma revelação?
e acabou do jeito que tu disse que acabaria e eu voltei milhares de outras vezes como tu disse que eu voltaria e tu me puxou e quis de volta como sempre disse que aceitaria
porque éramos cruéis, porque sempre fomos cruéis
e quando você não me amou e quando eu me dei conta de que nunca me amaria e quando eu pensei que teria um filho seu e tive medo dele acabar assombrado como você terminou, num casamento amaldiçoado como o do seus pais
quantas vezes escrevi que acreditava no seu amor
que ninguém além de você foi capaz de me amar
eu menti
damn your love damn your lies
eu tive tanto medo de acabar presa a você por todos os motivos que eu nunca quis. eu estava tão apavorada de ter que te entregar de novo algo que você jamais deveria ter de mim
nas minhas noites mais sufocantes ainda consigo ouvir sua voz
e é por isso que sigo correndo
nunca vou parar de fugir de você
Rainer Maria Rilke, from "Letters to a Young Poet," originally published in 1929