Fanfiqueira também é gente!
Sabe quando vocĂȘ se sente inspirado depois de acabar uma saga e dĂĄ aquela vontade de explorar ou atĂ© evoluir o enredo da obra? Essa vontade toda pode resultar na criação de fanfics, histĂłrias escritas baseadas em obras famosas mas feitas por fĂŁs. Os ficwriters (termo que se refere a quem escreve fanfics) criam novos universos expandem a histĂłria em novos pontos de vista, tornando personagens secundĂĄrios em protagonistas, juntando casais improvĂĄveis ou atĂ© misturas entre duas obras que o autor goste. Todas essas ideias vĂȘm de perguntas como âo que acontece depois?â ou âo que poderia ter acontecido?â.
Geralmente postadas em plataformas online, como Wattpad e Spirit Fanfics, as fanfics unem a comunidade de ficwriter, que se reĂșne para divulgar suas obras e trocar ideias. Ato que possibilita o exercĂcio da criatividade e a inserção do escritor na internet, jĂĄ que nĂŁo Ă© necessĂĄrio muito investimento para se tornar um ficwriter.
âĂ como se vocĂȘ nĂŁo estivesse sozinho no barco, hĂĄ um autor por trĂĄs te ajudando a remar, e quando vocĂȘ vĂȘ, fazer viagens sozinho nĂŁo Ă© mais tĂŁo assustadorâ.Â
As fanfics surgiram muito antes da popularização da internet pelo mundo. A ideia de histórias criadas por fãs começou a aparecer nos anos 70. Tudo por meio das fanzines (ou fan magazines) que são publicaçÔes não oficiais, produzidas e editadas por fãs e entusiastas, assim reunindo informaçÔes, curiosidades e até mesmo fanfics. Tudo passado de fã para fã.
Com a propagação da internet, o exercĂcio de âfanficarâ se tornou mais fĂĄcil para os fĂŁs. Em sites ou atĂ© em blogs, a comunidade dos ficwriters sĂł aumentou, assim como a quantidade de criaçÔes. Uma das primeiras plataformas criadas especialmente para fanfics foi o FanFictionNet, fundado em 1998. No Brasil, a primeira plataforma oficial foi criada em 2005, chamada por Nyah!Fanfiction.
 âA fanfiction pode perfeitamente servir de laboratĂłrio para novas vanguardas literĂĄrias, e de fato vem incorporando esse papel ao subverter antigos gĂȘneros literĂĄrios e criar novos, sendo uma ferramenta de liberdade estĂ©tica e de estilo para que escritores amadores alcancem espontaneidadeâ
HĂĄ um grande preconceito quando o assunto Ă© o universo das fanfics. SĂŁo consideradas histĂłrias amadoras ou algo de fĂŁs obcecados que nĂŁo devem ser levados a sĂ©rio. Um ficwriter nem sempre Ă© reconhecido como escritor, muitas vezes por escreverem sobre obras jĂĄ desenvolvidas ou por publicarem em plataformas online e nĂŁo ter um livro publicado fisicamente. Falar que um livro ou conto âparece atĂ© fanfictionâ ainda Ă© uma forma de desmerecimento e depreciação, mesmo que vĂĄrias histĂłrias criadas por fĂŁs sejam melhores que livros publicados e famosos.Â
A questĂŁo Ă© que as fanfics sĂŁo muito mais que âhistorinhasâ escritas por fĂŁs. Elas contribuem de diferentes formas no desenvolvimento dos jovens escritores, principalmente prĂ©-adolescentes e adolescentes que começaram a aventurar-se no mundo da escrita.Â
Em um artigo chamado âWriters in the secret Garden: Fanfiction, youth, and new forms of mentoringâ, Cecilia Aragon e Katie Davis argumentam sobre a ideia de que um ficwriter pode se tornar um bom escritor, fato que contribui na construção de uma comunidade onde os jovens escritores possam interagir e trocar conhecimentos. A prĂĄtica de escrever fanfics pode trazer diferentes benefĂcios com:
- Aumento da criatividade ao exercitar mudanças em uma história ou universo jå criado.
- Melhora a ortografia atravĂ©s do corretor automĂĄtico, pelo feedback de leitores da prĂłpria plataforma e a partir do interesse do prĂłprio escritor.Â
- Melhora no enredo e construção de narrativa através do feedback e håbito de leitura.
-Â Possibilidade de criar histĂłrias com mais diversidade e representatividade (ao inserir a realidade do escritor dentro de histĂłrias hegemĂŽnicas).
- EstĂmulos para jovens escritores (nĂŁo hĂĄ uma idade certa para começar a escrever).
- Possibilidade de futuras publicaçÔes, sejam independentes ou tradicionais (olheiros sempre estão presentes nas diversas plataformas).
 âPara os nativos digitais, Ă© fĂĄcil ter acesso a esse tipo de texto, mas para as pessoas que tĂȘm pouca familiaridade com o universo on-line e com a cultura pop, a situação Ă© diferente. Um dos objetivos da minha pesquisa de mestrado foi apresentar esse tema a acadĂȘmicos e a professores, e a recepção foi excelente. O que falta, alĂ©m de mais divulgação, Ă© as pessoas perceberem que fanfic nĂŁo Ă© sĂł um entretenimento jovem. Ă uma complexa prĂĄtica de letramento, de desenvolvimento de leitura e de escrita. O meio acadĂȘmico estĂĄ cada vez mais receptivo ao uso de tecnologia na educação, entĂŁo a tendĂȘncia Ă© que a fanfiction deixe de ser vista apenas como um passatempo, sendo mais estudada por pesquisadores.â - Stella Hadassa
No fim das contas, mesmo que em um primeiro olhar as fanfics parecem brincadeira de adolescente, elas sĂŁo na verdade um processo constante de atividade artĂstica e criativa que utilizam-se da narrativa para criar mundos, mudar mundos, discutir padrĂ”es.Â
Para finalizar, segue uma lista com obras e adaptaçÔes que começaram como fanfics:
- Cinquenta Tons de Cinza (2011), da E. L. James, que era uma fanfiction da Saga CrepĂșsculo (2005), da Stephenie Meyer;
- After (2014), da Anna Todd, que era um romance com o cantor Harry Styles, ex-integrante da Boyband One Direction;Â
- Orgulho e Preconceito e Zumbis (2009), de Seth Grahame-Smith, que era uma fanfic de Orgulho e Preconceito (1813), obra de Jane Austen
* Cassandra Clare, que escrevia fanfics de  Harry Potter (1997) antes de criar uma história e um universo original, conhecido como Os Instrumentos Mortais (2007), uma série literåria de fantasia e ficção que jå possui adaptaçÔes em filme e série.