Um conto de uma fada qualquer
Todos os contos de fadas que se prezam começam mais ou menos assim….. Era uma vez, em um lugar comum como outro qualquer. Um garoto comum como muitos outros. Com apenas 6 anos de idade. Era sorridente e adorava pintar, pendurava desenhos pelas paredes da sala de estar. Ele gostava de ver como as cores se misturavam em diversas tonalidades, gostava de achar que estava criando algo novo em um ato de impulsiva genialidade. Tudo isso mudou depois daquele dia em que seus pais começaram a brigar. Por horas ele ouviu palavras que ele foi advertido a nunca usar, ouviu sua mãe chorar, ouviu seu pai gritar, ouviu mais do que devia, enquanto se recolhia ao seu canto na sala de estar. Recolheu seus desenhos e decidiu não mais pintar. Andou sobre o carpete e sentiu o quão úmido ele estava por conta de suas lagrimas. De repente se viu tendo de trocar de roupa. Houve um apagão do caminho de sua casa até o seu destino, talvez por causa do trauma, ou talvez por causa do medo, isso nunca ficou claro. Mas ao incio da madrugada no aeroporto ele já estava. Ali de pé, vendo sua mãe partir. As malditas esteiras só aumentavam a sensação de que ela estava sendo levada contra sua vontade, e estava..... Naquele instante ele sentiu seu pequeno e jovial mundo ruir. E de volta a sua sala de estar ele pôs a si próprio para dormir, ou tentou fingir que conseguiria….. Mas no meio da noite ele ouviu a voz de uma menina dizendo:
Como em todos os contos temos de ter uma princesa, a desse conto deve ser devidamente apresentada. Suas primeiras palavras soaram como um singelo….. -Oi, posso me deitar com você? Naquele momento nada mais o assustava, ele se moveu para o canto da parede. Então a menina, que arrastava sua voz enquanto falava, se deitou. Ela virou-se de lado e o olhou nos olhos enquanto acariciava sua cabeça com sua mão esquerda. Ele olhou-a nos olhos e sentiu como se cada célula do seu corpo tivesse congelado por um breve e eterno instante. Ele tocou o rosto dela sem entender porque ela estava ali, e porque ela era a única a se preocupar com seu bem estar. Ela se levantou e reclinou suas costas contra a parede colocando a cabeça do menino sobre sua coxa direita, uma tentativa de faze-lo dormir. Ele não foi capaz, se levantou e a abraçou, mais forte do que lembrava de ter abraçado qualquer um. Depois de algum tempo seus corações entraram em sincronia, e ali foi declarada sua Apostasia familiar. (Nos contos de fada costumamos ter uma história de amor, esse não poderia ser diferente. O pequenino garoto se apaixonou pela princesa. Cresceram juntos enquanto ela partilhava de sua eterna sabedoria e ele do que tinha de mais precioso, seu tempo.) Sua beleza é estonteante, aterradora e onipresente. Há aqueles que tentam não sucumbir a ela e fecham seus olhos, apenas para descobrir que ela se torna ainda mais bela, ainda mais presente. Cada palavra proferida por ela soa como um suave lamento em meio a um réquiem. Sempre calma, como se ninguém no mundo a pudesse ferir ou tira-la de seu cerne. Mal sabem eles que realmente não podem. Está sempre com um sorriso no rosto, daqueles que não mostram os dentes, daqueles que te obrigam a sorrir de volta não importando o quão ruim tenha sido seu dia ou tamanho da sua decepção. Ela se move com a aerodinâmica de uma pluma. Seus olhos, negros como a noite sem luar, como se todas as estrelas tivessem sido engolidas pela imensidão do espaço. Seu olhar tem o peso de todas as desilusões, delírios e insanidades da humanidade, e ainda assim, tudo que você enxerga depois de ser dragado por ele, é sua pura benevolência. Em seu vestido preto ela se torna inexorável a tudo que vive. Ela ensinou ao garoto que a beleza não precisa estar sempre nas cores que ele tentava inventar, que existe beleza também no preto e no cinza, inclusive o mostrou que as cores sempre distraem as pessoas, a imagem monocromática sempre destaca o que realmente importa. Ela mostrou ao garoto as verdadeiras faces da sociedade, sem nenhuma mascara, sem nenhum pudor. Em seguida segurou sua mão e o esperou terminar de chorar, afinal não existe outra reação ao se vislumbrar a verdadeira natureza humana. Natureza tão medíocre, que mesmo depois de tudo que a princesa fez pelo garoto ele se encantou por outra. (Nos contos de fada temos sempre a personagem que tenta desviar o protagonista do caminho. E aqui está a “bruxa” da história) -Deixa essa garota estranha pra lá. Ela se veste sempre com esses vestidos pretos, cinzas, tem esse cabelo negro apático. A pele dela ta ai dizendo “oi eu odeio o verão”, certamente ela nunca vê a luz do sol. Ela dança como se a humanidade não precisasse de sexo! Anda o que está esperando! Você vai se divertir muito mais comigo, vem você precisa me conhecer, precisa conhecer as cores e sons do mundo ! Aaaaa as cores, rs. O vislumbre é sempre inevitável. Ele notou o prateado na extremidade que se mesclava perfeitamente ao branco, pálido e natural, de seus cabelos. Ela possuía uma heterocromia formidável. Seu olho esquerdo, verde como a mais agradável campina, aquecia a todos, como o sol que recai sobre a pele pela manhã. Seu olho direito, azul, na exata tonalidade que a água do mar tem em uma profundidade específica, onde você se vê querendo descer até o fundo, mas sabe que deveria submergir. Em seu vestido vermelho ela era como uma chama em meio a completa ausência de luz, podia ser vista a quilômetros de distância. Ela não parava nenhum instante, falava como se não precisasse respirar. Corria de um lado pro outro, o arrastava em ímpetos de empolgação, gritava toda vez que encontrava algo novo pra falar! Ela não sorria… gargalhava! Ela não comia, se empaturrava! Ela era a completa antítese da nossa princesa. E ainda sim ela o fascinava! Juntos, fizeram loucuras de todos os tipos, correram na rua, cantaram com o volume no máximo em plena autoestrada, dormiram em bosques, nadaram nus, beberam até não lembrar de nada, inclusive contavam tudo isso na ordem errada! Eles sentiram a terra o fogo a água e o ar, sentiram o gosto do sangue, o tremor depois da descarga de adrenalina, o sabor do doce e do ácido. Mas da mesma forma repentina que a bruxa surgiu, ela se foi. Sem nenhum bilhete, sem nenhum motivo, sem nenhuma demora. O jovem então se viu vagando por ai atras da inconsequente que havia conhecido. Ele percorreu centenas de quilômetros mas não a achava. Tentou procurar nos lugares que havia passado com ela, e nada. Depois de todas as suas tentativas serem frustradas, ele acabou voltando pra casa. Ao chegar teve uma surpresa, viu na sala a sua princesa. Ela o perguntou por onde ele andou todo esse tempo que pareceu uma eternidade, ele estranhou pois para ele o tempo havia corrido em alta velocidade. Ele chorou ao contar o que havia feito, sentia-se horrível, sentia o peso da infidelidade. Mas seu choro cessou rápido por não entender a reação da princesa. Ela ouviu a tudo que ele dizia e apenas sorria. Quando ele terminou a história, ela virou sua cabeça de lado, recaindo-a em direção ao ombro esquerdo, como ela sempre fazia quando ia explicar algo que pra ela era obvio…. -Até que demorou muito para esse dia chegar. Então você finalmente conheceu minha irmã mais nova? Ei....não se preocupe tanto com tudo isso, eu não sei amar com as amarras que vocês acabam por criar sem a menor necessidade ou explicação. Amo você, assim como a amo, e jamais deixaria você por isso. Na verdade, você já devia saber que isso irá ocorrer outras vezes. Mais do que isso, deveria saber que nada disso pode me abalar, afinal como eu poderia honrar meu nome de qualquer outra forma? Mas tome cuidado com minha irmã, ela não pensa nas consequências do que faz, nem para como você vai lidar ou reagir quando ela partir, e acredite ela SEMPRE parte uma hora. Pode por ela se apaixonar mil vezes, mas nunca a amar. Pois se sua amada ela for, a perseguira por incontáveis dias, e ela irá fugir de você em todos eles porque ela não gosta de se sentir pressionada. Ela prefere ser espontânea, uma eterna surpresa. Alem do mais, se a mim amares e a ela detiver paixão, poderá então ter as duas. Mas, se ela você decidir tentar amar, tudo que vai conseguir é conhecer outra parte de nossa família e acredite quando te digo, você não vai querer isso. O jovem protagonista ainda estava entorpecido pela ausência de uma reação negativa por parte da princesa, mas sem muito se estender tomou sua decisão e disse. -Eu a amo, sempre a amei e sempre vou ama-la, ninguém em toda minha vida foi capaz de me ensinar tanto quanto você. Você é o início de toda a sabedoria e portanto digo que: Aceitarei então de bom grado o que de sua irmã vier, mas voltarei sempre a ti. Eu juro que jamais vou esquecer dos braços que me acolheram tão carinhosamente naquela madrugada onde nos conhecemos. Com você serei sincero em tudo que eu fizer sentir e pensar, sempre. Só preciso saber mais uma coisa, que eu nunca reparei, ou na verdade que eu nunca precisei perguntar….. - E nem precisa…. você quer saber o meu nome não é? Bem eu me chamo Tristeza A tristeza é uma verdade que se esvai.
















