O pequeno desabafo de Emma retomou a atenção do Zabini de imediato, que encarava o rosto bonito da menina ao seu lado. Uma pequena ruga se tinha instalado entre as sobrancelhas grossas, ao passo que ele tentava identificar o que era aquilo presente nas palavras dela, bem escondido nas entrelinhas. Por um décimo de minuto, achou ter notado mágoa, mas por que? Veja bem, Tyler pouco sabia da vida doméstica dos Van Syckle. O que ele sabia era que Rosie tinha certa facilidade para lidar com o sexo oposto e que isso era um fator incômodo para Emma; contudo, a mulher agora tinha um marido, então qual era o problema?
Ela prosseguiu, e novamente o sentimento não reconhecido estava presente em cada palavra que saía dos lábios cheios. É óbvio que ele entendia o lado dela. Estivera no seu lugar um ano antes, mas diferente de Emma, Tyler mal podia esperar para ingressar na faculdade. Contudo, era compreensível seu desgosto, visto que as situações dos dois eram totalmente diferentes. Tyler estava se sustentando com o dinheiro deixado por seus avós e sua mãe, quando Emma ainda dependia financeiramente de Daphne e do marido. Se colocando no lugar dela, era capaz de imaginar o quão ruim devia ser. “As coisas dificilmente são como a gente quer, Em. Eu sei que é uma maneira péssima de pensar, mas é a mais realista, sabe? É claro que temos que planejar as coisas, mas temos que estar preparados caso elas deem errado. Unfortunately for us, that’s life.” Reclinou-se para a frente, usando os joelhos de apoio para os cotovelos antes de prosseguir. “Quer um conselho? Do whatever the fuck you want. Eu sei que é difícil pensar desse jeito quando a gente ainda não tem a nossa independência, mas a vida é sua, Emma. A decisão de como ela deve ser vivida tem que ser sua também.”
“É verdade, sim! Mas isso é porque a maioria dos alunos ‘tá transando o tempo todo. Você vê cada coisa lá que te faz perguntar se você 'tá mesmo na faculdade. Trust me.
Liberou um suspiro pesado e fez um breve gesto de concordância com as palavras dele, ele tinha razão, no fim. Se tem uma coisa que Emma aprendera era que as coisas dificilmente saiam da forma que queria, e aquilo foi algo que ela aprendera desde cedo; ai estava um motivo para ela mal planejar sua vida direito. Emma não tinha grandes ambições, e isso era algo que a deixava extremamente frustada. Queria ser como grande parte das garotas do seu ano, desejar ser uma medibruxa, auror, obliviadora ou até se especializar em poções. Queria fazer planos, colocar no papel toda a sua vida e se visualizar com seus trinta e tantos anos, com filhos, um marido e uma casa grande e bonita - com uma enorme estufa, isso não poderia faltar. Ela realmente queria saber o que ser, mas simplesmente não conseguia vislumbra-se de tal maneira; e, mais uma vez ressaltando, era motivo de extrema frustração. — Não totalmente. A minha vida, quero dizer; ela não é totalmente minha. Eu tenho uma mãe para cuidar, right? E... desde quando você é a pessoa que da conselhos aqui? Estava se queixando da bebedeira agora pouco, santo Deus! — Emma riu, trocando de assunto sutilmente; falar sobre aquilo não era algo tão ruim, ruim eram os pensamentos que vinham junto de.
Uma careta divertida se formou no rosto da mais nova, terminando com os lábios em forma de um bico e um assovio que mais parecia um leve sopro. — Oh, então eu não estou indo para a faculdade, e sim para um tipo de puteiro? Muito inspirador, caro calouro. — Mais uma vez balançou a cabeça, dessa vez sorria enquanto negava. Os ombros que antes se encontravam tensos agora já estavam relaxado, seus braços abraçavam os joelhos flexionados e ela apoiou o queixo ali, olhando para a água que tinha uma coloração alaranjada em contraste com o pôr-do-sol que chegava aos poucos. — Eu ficaria o resto da noite aqui, se pudesse — confessou, agora soltando os joelhos e recostando-se no largo tronco da árvore que estava atrás de si. — Mas infelizmente tenho um encontro com o meu professor regente daqui duas horas. — Por um momento ela daria a vez da palavra a ele, mas antes mesmo de ver a cara de Zabini, continuou de forma encabulada: — Não um encontro, mas ele vai ensinar os formandos a bendita dança que teremos que fazer no baile. Você por acaso teve que fazer a sua? Eu acho meio... blé — botou a língua para fora e arqueou o canto esquerdo do lábio superior —, além do que eu talvez nem vá ao baile, então não vejo real necessidade de aprender a dançar. Você vai aparecer por lá?