O movimento brusco que se seguiu à interrupção do movimento do balaço foi inevitável. O som oco das batidas da bola contra a árvore seca deram lugar a um incômodo zunido, o qual foi diminuindo de intensidade a cada forte inspirada que ele dava.
Olhou para Helenka. Queria dizer alguma coisa, mas não conseguiu. As palavras logo se entalaram em sua garganta, pedindo uma trégua para seu fôlego, e então uma forte lufada de ar escorreu de seus lábios. Então, o ruivo finalmente cedeu e fechou os olhos, respirando fundo. Não ficava cansado assim há tempos.
Ainda sentia como se seu peito fosse explodir quando sentiu as mãos da loira sobre suas costas. E, então, foi como se um tampão fosse colocado em seus ouvidos e ele finalmente se encontrou em silêncio. Embora sentisse uma ânsia para falar, mesmo que não soubesse o que queria colocar para fora, limitou-se a escutá-la. E conforme as palavras deixavam os lábios da Dashkov, ele começou a sentir-se mais calmo.
Agora que a raiva não apitava em seus ouvidos e em seu peito, conseguia pensar com mais clareza. E sabia que não estava assim por causa do cancelamento dos jogos. Ou pelo menos esse não era o único motivo.
Já fazia um bom tempo desde que o Weasley não seguia uma rotina. E nunca imaginou que algum dia fosse sentir falta de encontrar-se com tédio. Tudo fora virado para cabeça para baixo desde a eclosão daquela doença abominável, e agora sentia como se estivesse andando em uma corda bamba. Nada mais era como antes.
Seu sétimo ano não estava sendo fácil. Além do surto que colocara a escola de cabeça para baixo, os exames se aproximavam cada vez mais rápido. Hugo não dormia direito há meses; distribuía seu tempo entre os treinos de quadribol e os livros. Não visitava os elfos da cozinha há semanas - um comportamento bastante atípico vindo de alguém que era conhecido por basicamente todos os empregados do colégio. E quando finalmente estava se acostumando com aquilo, um mural de regras esdrúxulas era erguido na escola. E mais: por ordem de uma das pessoas que o Weasley mais admirava.
Hugo sabia que Helenka estava certa. Algo havia acontecido. Sentia isso tanto quanto ela, embora não soubesse como interpretar tanta novidade de uma vez.
“Olhe para mim”, ele ouviu Helenka dizer. Nunca um pedido da loira soara tão difícil, mesmo sendo tão simples.
Estava com vergonha. Mas virou o rosto mesmo assim.
—– Tempos ruins estão se instalando, Hugo. E o melhor que você pode fazer é manter a mente limpa para procurar um jeito de escapar disso.
Ele comprimiu os lábios e assentiu lentamente,
—– Eu sei —– respondeu, simplesmente, finalmente tomando coragem de encará-la nos olhos. E então, desviou o rosto novamente.
Ficou alguns segundos em silêncio, sentindo o vento gelado arranhar seu pescoço suado. Engoliu em seco, percebendo com aflição a secura de sua garganta, e inspirou fundo mais uma vez. Era como se navalhas mergulhassem em seus pulmões. Não havia notado que estava tão gelado lá fora, até aquele momento.
Provavelmente ficaria resfriado, mas naquele momento não tinha energia ou paciência para se preocupar com isso.
—– Obrigado —– disse, enfim, com a voz rouca. E então não sabia mais o que dizer ou fazer, além de transmitir a ela um sincero olhar de gratidão. Nunca imaginara que algum dia teria esse tipo de conversa com Helenka, mas agora estava verdadeiramente grato por isso.
Como se o tempo ali fora soubesse o que estava acontecendo, o ar gélido era um dos mais parecidos com o inverno russo que já presenciara dentre seu tempo em Hogwarts. Sentia, claro, a secura ferindo suas narinas, e seus lábios tomando o aspecto pálido conforme passava mais tempo exposta ao frio que não pensava que ia enfrentar. Para ela, ia só andar até DIAM para aparatar mais uma vez. Tinha escolhido o caminho mais longo porque queria dar uma olhada no lugar que chamara de casa por muito tempo, e que já não via desde que tinha voltado de viagem.
Sentia como se alguém estivesse destruindo as paredes de sua casa. Tudo que Neville fazia, por mais que ainda encontrassem uma Helenka muito calma andando pelos corredores, ela andava mais afoita que nunca. Com muito estresse, precisando eventualmente aparatar para aqueles clubes de tiro americanos onde se registrara, e não só por conta das regras como também de seu novo drama com as pessoas que tinham matado seus avós. Tivera seu tempo de calmaria e não relaxara porque sabia que era apenas o intervalo dentre o caos. Agora estava ali, outra vez sem ter trégua. Perguntava-se frequentemente se algum dia sairia do ritmo frenético de fugir e lutar.
Era palpável o estresse nele. Já tinha visto Hugo, parvamente, pelos últimos meses, e por mais que ainda fosse a mesma pessoa, parecia carregar um peso nas costas. Não sabia o que era, mas também não atrevia-se a perguntar. Ele não perguntara de suas cicatrizes. Deixaria que falasse caso quisesse.
As íris de um azul profundo de Helenka pareceram vibrar em tranquilidade quando ele ia cedendo. A mão delicada foi ao rosto dele conforme o Weasley ia cedendo ao sentimento que o segurava de olhar nos olhos da Dashkov. Precisou só daquele olhar, mesmo que fosse seguido de um desviar, para o puxar para perto, esticando-se para dar o melhor de um abraço que a pessoa mais disfuncional com afeto físico saberia dar.
Ela era quase como um gato, solitário e individual, que ainda sim, calhava de mostrar seus momentos de carinho eventualmente. Se importava com o rapaz, e ali estava uma das provas mais verdadeiras. Foi se afastando devagarinho, dado espaço para seu agradecimento.
“Você sabe que eu estou aqui para você. Não sou a pessoa mais amável, tampouco mais paciente, mas você é importante para mim, Hugo. Só lembre disso. Mesmo que eu não saiba porque.”