Do morro do careca à Pium
Domingo, 30 de junho de 2019, 4h da manhã. Estou enjoada. Não consigo dormir. O dia vai clareando, e nada mais enlouquecedor do que você está cansada e com sono e apenas não conseguir apagar porque sua mente não silencia. 06:30h. Lembrei que há meses tento realizar um pedal que surgiu em minha mente. Mas não estava pronta para ele. Estava cansada, mas pensei que deveria pedalar. Levanto, tomo café. Minha mãe diz que vai chover, eu digo que é só uma nuvem. E, daqui a pouco estou debaixo de uma baita chuva indo de encontro ao mar. Mas, só quem pedala sabe: me senti como na música de Novos Baianos: “ Faça como eu que vou como estou, porque só o que pode acontecer...É os pingo da chuva me molhar!”. Estava grata por enfim meu corpo ter me obedecido. Se você ver o mar você sabe como ele te chama. Chego no morro do careca, uns pescadores estão trazendo sua embarcação, e de repente, estou eu, averiguando a possibilidade de realizar aquele meu pedal. Bom dia! Vocês acham que dá para eu ir de bicicleta até Pium por aqui? A maré tá baixa, né? O primeiro Senhor afirma logo que não. Mas o segundo Senhor, com bem mais idade, afirma que sim, a maré está baixa. Ele ver eu abrindo o sorriso e logo interrompe: mas não vá pensando que é simples assim não. Ele fez uma cara do tipo, melhor você não ir. Eu saí rapidinho para não ser convencida do contrário. Esqueci totalmente que estava de ressaca, com uma garrafinha de água e uma banana. Só pensava: Iaiá, como por ali deve ser lindo!
Mal inicio a jornada passando pelas pedras, dou bom dia a um casal que está voltando da trilha, e o homem me interroga: Está perdida? Precisa de ajuda? Respondo: Não, estou indo à Pium! É sempre igual, uma mulher sozinha de bicicleta atravessando umas pedras pelo mar, certa do juízo não deve tá! Ainda esbarro com dois pescadores, mas esses se limitam a responder meu bom dia. Sigo, entre chuva e sol, sentindo todo o poder desses e do mar. Encontro um lugar perfeito para o banho. Entoo minhas preces e meus cantos. E a chuva vem mais uma vez me banhar. Lavar minha cabeça e meu coração. Sou filha do mar.
Percebo um dos pescadores passando no caminho, mas ele não me encara, mas meu coração dispara. Só quem é mulher pode entender. Foi um lembrete me avisando que eu não tinha ido preparada. Eu ia levar muita água, comida e um canivete. Uma mulher deve sempre ter um! Saio logo da água para voltar a minha empreitada, que na verdade só estava começando. Logo percebo que não dava para pedalar. Estava contra o vento (imagina a ventania que batia com a chuva) e a areia me dava rasteiras sem parar, até eu entender que tinha que caminhar. E caminhei, ah se caminhei. Paro um momento quando a chuva desaba, depois me protejo contra um sol radiante. Quando o cansaço começa a bater e água a acabar, a ficha cai: Evelinny, por que você tem sempre esses supetões?! Fingi que não estava reclamando comigo mesma, mas sim com Espertirina (minha bike), que estava fula da vida comigo pois não se dá muito bem com a praia.
Avisto os rochedos onde logo depois deve está Pium. O problema é que ali, já pressentia que a maré já não estaria mais tão baixa. Demorei demais caminhando. Aí percebo que estou falando demais sozinha. Mas, quando começa as risadas, é meus amigos, nas enrascadas que me meto eu não consigo parar de rir de mim mesma (desespero). Percebo um caminho que passa carros, já me animo, epaaaa descobri a mina de ouro. Um caminho de Pium a essa praia. Quando avisto algumas pessoas ao longe e um local como uma casa. Minha gente, chego, tem uma pista, com vários carros, um rapaz me olha com uma cara: que diabos essa boy está fazendo aqui? Sigo a pista, feliz, que maravilha descobrir esse caminho. Dou de cara com um portão. Simplesmente, acho que é um ponto da aeronáutica que protege a área de preservação, e o pessoal na praia são pesquisadores. Tenho duas opções: pedir socorro (jamais!), tentar ir por baixo pela praia pra ver se ainda dava para passar pelas pedras ou acreditar que havia um caminho por cima do penhasco.
Neste momento já estava pensando na possibilidade de ficar presa esperando a maré baixa e morrer desidratada e com fome (minha glicemia é baixa). Espertirina: Você vai morrer e a gente só vai ser achada quando os urubu estiver sobre seu corpo. Amiga, ela!
Quem me atraía? Os rochedos, aquela paisagem lá de cima claro. Realmente parece haver uma trilha. Termina uma parte do rochedo e tenho que me embrenhar nos matos. Havia uma trilha curtinha. Os empecilhos de passar a bicicleta é complicado. Exige força. Escorrego com ela em um barranco. Perna ralada. Mais uma trilha no mato e visualizo Pium. O caminho ainda é difícil. Quase me jogo ao chão ao chegar na praia! O desafio final: voltar com fome, sede, perna ralada, ombros doloridos e pés arrasados, de volta para minha casa!
Superei um ciclo de muita dor e voltei para mim! Essa sou eu! Grata por todos os espíritos que caminharam comigo e não me deixaram na escuridão! S2