numa tarde de treze de janeiro de dois mil e vinte seis
Houve um tempo em que eu acreditei ter todas as respostas na ponta da língua. Era óbvio, eu dizia a mim mesma. Tudo sempre esteve ali. Eu é que dormi demais para perceber. O erro era sempre o mesmo: o tempo errado, a roupa errada, o detalhe fora do lugar. Se meu cabelo estivesse um pouco diferente, se meu corpo ocupasse outro espaço no mundo, tudo teria dado certo. A culpa era minha, claro que era. Se eu tivesse olhado na direção certa, no instante exato, meu coração teria sabido o caminho. O destino deixaria de agir escondido, nos bastidores, e finalmente pisaria no palco. E então eu teria o que sempre quis: uma grande história de amor. Daquelas que fazem a gente prender a respiração, com medo de que tudo desmorone no último segundo.
No fundo, porém, a verdade era simples demais para ser dita em voz alta: eu só queria ser amada de volta. Amada de um jeito que desse para sentir no peito, mesmo sem toque só de olhar, só de pensar. Durante muito tempo, achei que isso fosse impossível. Acreditei que meu coração já tinha aprendido tudo o que precisava aprender, que nunca mais bateria mais forte. Porque, para mim, uma boa história exigia dor. Amor, sim, mas também sofrimento, drama, cicatrizes. Como se a felicidade precisasse ser conquistada à força.
Eu repeti isso por meses, dentro da minha própria cabeça. Convenci-me de que tinha decifrado o enigma. Ninguém mais me enganaria. Eu estava preparada.
Então, ela apareceu. A mesma de anos atrás, mas ainda sim, diferente.
Ainda lembro do instante em que o mundo parou. Alguns segundos apenas mas suficientes para mudar tudo. No meio da igreja, minhas mãos frias, o coração descompassado, e aquele olhar. Às vezes, eu queria ser uma mosca só para viver aquilo de novo. Nunca foi pouco. Nunca foi comum. No fundo, eu sempre soube que era diferente, mesmo quando precisei fingir que não sentia nada.
É curioso como o universo age quando decide agir de verdade. Nada foi exagerado, nada faltou. Os menores detalhes se tornaram essenciais. Tudo se encaixou com uma delicadeza quase impossível. O sentimento era real, inteiro e eu jamais imaginei ser tão amada, tão escolhida, tão desejada.
Ah, minha querida… como é bom admitir que eu estava profundamente errada. Como é bonito errar quando o erro leva exatamente ao lugar certo. Sem nunca ter esperado, encontrei o que faz sentido em todas as direções. Hoje, vivo um amor entregue, tranquilo e vivo. E ainda me pergunto como posso ser tão sortuda: amar tanto e ser amada de volta.
Achei que o amor só machucava, que era preciso sangrar para aprender. Desta vez, não. Desta vez, apenas existir basta. Tudo funcionou como deveria funcionar.
A vida se torna mais mágica quando você é livre para ser quem é porque alguém te ama. Mas ser amada pela minha mulher… isso é outra coisa. Isso é tudo.
Não quero você de volta (mesmo que tenha voltado). Eu até que tinha esperado, mas não o suficiente para me humilhar por um amor que nunca foi inteiro. Hoje, eu vivo o melhor da vida ao lado do amor da minha vida.
No fim, essa mensagem não é para ninguém além de mim mesma.
Ou, talvez, para a versão de mim que idealizou cenários impossíveis onde o amor só chegaria depois de muito sofrimento, como uma recompensa tardia pela dor suportada. Ela não sabia, ou não acreditava, que eu poderia ser amada sem precisar sangrar, sem me provar, sem me esvaziar para merecer migalhas.
Essas palavras sempre foram minhas. Um diálogo íntimo com quem fui, com quem esperei ser, com quem achou que amar significava resistir. Aqui, eu encerro capítulos inteiros de dor e aprendizado forçado. Fecho portas que me ensinaram a confundir sofrimento com profundidade.
Este é, finalmente, um final feliz de verdade. Não daqueles que machucam antes de acontecer, mas daqueles que acolhem. Um amor que eu jamais imaginei merecer e que agora escolho viver pelo resto da minha vida.