Eu estava com raiva de mim mesma por ter me atrasado. Não era minha culpa, ônibus aos domingos são complicados. Não fui para o meu compromisso, uns cinco minutos antes de chegar ao meu destino, desviei minhas cordenadas e fui a pé até O Parque.
Não tinha nada demais, ninguém demais, o dia nublado e choroso era oportuno para uma caminhada solitária entre as árvores musgadas e chão úmido. Explorei o que me interessava — e o que dava — com os olhos e os pés. Subi ao segundo andar e lá me encaixei no chão; pernas cruzadas em frente a uma lanchonete fechada. Não havia muito entretenimento além dos meus pensamentos e meu celular.
Duas mulheres que estavam lá, provavelmente para correr, subiram. Me senti um bichinho acuado e assim que desceram me senti um bichinho acuado estranho. Não pensei nisso antes, mas porque alguém estaria sentado no chão ali sozinho? Que menina estranha.
Ja ia embora quando lembrei dos meus cigarros guardados na minha bolsa de coro preta. Estavam dentro da embalagem, o maço largado entre o meu livro emprestado da biblioteca, minhas chaves, um folheto de museu, minha carteira, um protetor labial com cor, um isqueiro e meu guarda chuva. Wicked, super indico; minha mae e meu irmão sairam de casa; o museu da lÃngua portuguesa parece ser lindo; uma pessoa adulta precisa levar para todo lugar; não estava usando maquiagem e precisava ao menos disso pros meus lábios não ficarem secos; seu colega estava ali; dia nublado e choroso.
Eu não gosto de cigarros. Não os indico. Mas, em uma promessa estúpida pra mim mesma, resolvi que acabaria com um maço inteiro para honrar os dez reais gastos. Malboro. Uma cartela com 20.
Comprei no mercado perto de casa aonde todo mundo conhece a minha mãe. Usei pela primeira vez em outro parque, acho que só fumei um e gravei um vÃdeo sobre, tentando fazer graça. Alguém do mercado ou o sogro do meu irmão, que me viu escondida em um canto do lado de fora do parque deve ter contado para a minha mãe, que me deu uma bronca.
Não vou descrever a primeira vez usando. Nem sei mais descrever. Mas vou dizer como foi a segunda e terceira vez.
A segunda foi a mais cunt. Estava toda gótica, me sentindo muito bem com quem eu era, sentada em frente a uma entrada da biblioteca, havia algumas pessoas por ali fazendo propaganda polÃtica. No chão, liguei alguns cigarros e fumava porcamente. Nao traguei, apenas enchia a boca de fumaça e soltava, sujando a bituca do cigarro de batom preto, o chão ao meu lado de cinzas e deixando a minha garganta seca. Meu almoço nesse dia foram três cigarros.
Demorou muito para eu resolver fumar de novo. Levou tempo até ser oportuno, em um parque, eu lembrar de estar sozinha sem julgamentos dos que fumam sabendo que não sei o que estou fazendo e os que não fumam sabendo o que eu estou fazendo. Poluindo o ar e meus pulmões. Debravando o meu corpo e o deles.
Me encostei na parede pixada atrás do vestiário e em frente a sacada que dava a vista para a extensa pista de skate e entrada do parque. Ao meu lado uma placa de "proibido fumar neste local" ao qual eu tirei uma selfie para ser rebelde. Ai como eu sou "rebelde 😜" [risos]. Isso é tudo muito bobo, muito bestinha. E ali, sozinha, fumava um cigarro encostada na parede ao lado da placa e quando terminava colocava a bituca em cima do batente da sacada. Foram quatro cigarros e algumas fotos. Achei que pela primeira vez tinha aprendido a tragar mas depois desaprendi e a fumaça que não saia da minha boca saia pelas minhas narinas.
Resolvi dar uma passeada pela extensão da sacada e vi uma pessoa de longe, parecia uma mulher. Estava de costas para mim, ignorante da presença de outra pessoa em um lugar tão solitário. Voltei a me esconder de trás do vestiário, terminei meu cigarro e escondi as bitucas na minha mão fechada. Teria que passar pela pessoa para descer as escadas e ir embora. Ao me aproximar, percebei que era um homem, todo de preto com uma mochila nas costas e com o redemoinho na cabeça sem muito cabelo. Ele olhou para mim após perceber a minha presença e eu fingi ignora-lo e desci as escadas sem exitar. Passei pela catraca d'O Parque como uma criminosa levando as provas de seu delito nas mãos.
Nunca gostei muito do cheiro de cigarro, ainda não gosto do odor da maioria deles, mas Malboro eu usava como uma marca de perfume. O sentimento é idiota mas o cheiro me fazia se sentir adulta, uma Mulher.
Desfilando para mim mesma, passei por dois cachorros em que um sem se importar muito deixou eu fazer carinho em sua cabeça. Joguei as bitucas em uma lixeira na rua. Comprei um sorvete no Mc Donald's, baunilha com recheio de chocolate, não me julgue, sou free palestine, mas eu precisava limpar a gargante e era o único estabelecimento aberto. Inclusive, um boicote só funciona se for feito por muitas pessoas e muitas pessoas não parecem se importar muito.
Entrei no ônibus, me sentei em um assento solitário — como podem ver eu gosto muito de ficar sozinha — e um homem ficou em minha frente. Parecia ter interesse em mim, ou talvez eu tenha um ego muito grande, só sei que ao descer do ônibus e olhar para ele, ele olhava para mim de volta lá de dentro. Era bonitinho até, mas senti uma certa repulsa do desejo dele.