VIII: Relacionamentos
3 de fevereiro, 11h52min AM, segunda-feira (Calabasas, CA) — Casa do Justin Bieber — Ponto de Vista: Geórgia Uhora
Abro os olhos.
Minha cabeça lateja, como se eu estivesse bebido muito, mas eu não fiz. Na verdade, tomei uma dose do meu vício favorito; Ele. Lembro-me, vagamente, do ocorrido de ontem à noite. Seu rosto sereno, como se estivesse, apenas,
Ouço meu celular apitando. Mensagem do Scooter:
S Braun: Assim que você acordar, me avisa. Eu tô perto da casa do Justin, quero conversar com você.
Eu: Acabei de acordar.
Acho muito estranho o jeito com que ele fala. Sabe, não é a sua casa, Scooter, é a casa do Justin. Mas tudo bem, eu não digo nada. Isso não é problema meu.
Passo no quarto do Justin, mas ele continua dormindo. Balanço a cabeça para tentar afastá-lo da minha mente e volto a minha corrida matinal. — É impossível esquecê-lo, esquecer de ontem.
Corro mais rápido ainda, para prestar mais atenção em cada passo que dou. São inúmeras pedras no meu caminho, então tenho de estar focada pra não tropeçar em nenhuma.
Justin, corrida, acelerar; Justin, corrida, acelerar; Justin, corrida, acelerar; Justin, corrida, acelerar. Mais, mais, mais. Parar.
Suspiro, já cansada. Meus pulmões sobem e descem pela falta de ar. Bato nos bolsos, em desespero. Por fim, agarro o objeto e coloco-o na boca. Às vezes eu esqueço que não posso pegar pesado na corrida por conta da asma. Merda.
Respiro fundo. Uma, duas, três, quatro, cinco. Pronto.
Já aliviada, volto para a casa do Justin, dessa vez sem correr tão rápido. Abro a porta e vejo Scooter.
— Ei, Geórgia! — ele vem em minha direção para me cumprimentar, mas eu gesticulo pra ele parar.
— Não encosta em mim, por favor. Eu tô muito suada e nojenta.
Scooter ri e dá de ombros.
— Fazer o quê?
Dou um riso forçado e ele me chama pra segui-lo. Estamos em direção à sala de leitura do Justin. Tem uma mesa um pouco grande, na mesma, então ele usa como escritório, às vezes.
— Você queria me mostrar algumas coisas sobre o projeto, mas acabamos nem conseguindo nos falar, ontem.
— Sem problemas.
Então eu mostro a ele tudo que consegui ontem, todas as provas de que Justin é a vítima. Em seguida mostro outras coisas, pra futuros processos que eu também descobri sobre outra história cabeluda que envolve ele. Scooter tira dúvidas e troca ideias comigo. Em algumas coisas ele concordou, em outras, não. Também discordei dele milhares de vezes, mas nós chegamos num acordo, por fim. — ainda bem.
— Queria colocá-lo de volta na mídia... — ele comenta.
— Scooter... — repreendo assim que paro de usar o computador. — Você sabe dos riscos. Ele tá muito vulnerável.
— Eu sei, eu sei. Por isso eu queria tua ajuda.
— Com o que, exatamente?
Scooter se ajeita na poltrona. Parece incomodado com o assunto; Eu também estou.
— Bem, na verdade, eu queria mesmo que você ficasse aqui com ele. — pede com a voz mais baixa que o normal — Eu posso te pagar por isso.
Eu posso te pagar por isso. Encaro-o incrédula com o seu pedido.
— Perdão, Scooter, mas eu não sou esse tipo de pessoa. Com licença.
Sem que dê tempo dele responder, eu me retiro do cômodo. Que tipo de pessoa ele acha que eu sou? Alguma prostituta? Nada contra, até porque esse é o trabalho delas, e a pessoa que as contrata está ciente disso, mas eu não seria capaz de passa o tempo com alguém por alguns trocados. O que Scooter tem a me oferecer, tenho certeza, não é nada demais para ele. Aliás, ele é empresário do Justin Bieber.
Decido ir ao quarto do Justin, para ver como ele está. Deve fazer pouco mais de uma hora que eu tô acordada e ainda não o vi.
Dou duas batidas na porta, espero, mas ninguém responde. Por isso, abro a porta devagar. Olho para o lado e ele está dormindo, sereno. Meu coração acelera e meu estômago parece estar em chamas. Sento com cuidado do lado da cama e acaricio o rosto dele.
Ao olhar para o seu rosto, percebo: macio, calmo, remansado, tranquilo. Este é Justin agora. Fico imaginando como alguém pode querer machucá-lo, magoá-lo ou feri-lo. Ele é uma pessoa de ouro.
Retomo os pensamentos à realidade quando o vejo abrindo os olhos. Meu coração bate mais forte ainda.
Ele sorri, eu sorrio de volta.
— Como é que você tá? — eu pergunto.
— Zonzo, exausto. — pisca os olhos e passa a mão pela cabeça.
— É normal. O médico disse que isso iria acontecer.
Vejo em seus olhos resquícios de culpa. Quero dizer que eu estou com ele, que ele não está sozinho, mas acho que ele já sabe. Penso em falar de Scooter, mas é melhor deixar esse assunto de lado. Justin o odiaria mais ainda.
— No que tá pensando? — pergunta.
— Em você. — ele sorri quando eu digo.
Estou olhando em seus olhos. O que antes era culpa, agora, é brilho. Sim, brilho nos olhos. Ele se aproxima de mim, nossas respirações também. Suas mãos vão para o meu rosto, acariciam-no, e ele beija minha testa. Eu sorrio.
— Você tem sido tão boa comigo, Geórgia... — deixa a frase no ar.
Não respondo, nem sei o que dizer. Ele tem o dom de me deixar sem palavras mesmo não querendo. A verdade, é que Justin tem um poder sobre mim que ele não faz idéia. É bom que não faça.
Ouço meu estômago roncar. Faz horas que não como.
— Ei, tá com fome? — pergunto.
— Um pouco. Faz tempo que acordei. — olho-o confusa — É eu já tava acordado. Só fingi que não porque isso é engraçado.
Pego o travesseiro que está ao lado dele e acerto seu ombro. Antes que ele proteste, Scooter aparece dando duas batidas na porta.
— Eu tô indo. — avisa, não sei por que — Geórgia, pode me acompanhar até a porta? — Olho pro Justin e assinto levemente com a cabeça. Ele entende o recado e faz a mesma coisa, em resposta. Levanto-me da cama e sigo Scooter até a porta.
Descemos os degraus da casa em silêncio. Não sei se devo dizer algo, também, mas sei que terei de fazê-lo. Ele não me chamou aqui à toa. Por fim, chegamos à porta.
— Sou todo ouvidos. — dispenso enrolações da parte dele.
— Bem, eu... —se enrola com as palavras. Parece constrangido.
— Sim...? — gesticulo para ele prosseguir.
— Queria me desculpar por mais cedo. — não faz meia hora... — Eu já deveria saber que você não faz esse tipo. Meu Deus, Geórgia, mil desculpas...
— Sem problemas. Eu sei bem como é esse meio. — Nos despedimos e ele vai embora.
Achei legal ele ter se desculpado, mas Scooter já deveria saber quais eram, e são, minhas intenções com o Justin. De qualquer forma, eu entendo o que é isso. Já vi meus pais lidarem com isso, infelizmente.
Ouço um barulho de água, tenho uma idéia.
— Justin! — grito o nome dele.
— Eu! — responde no mesmo tom que o meu.
— Vem até aqui, por favor!
Uns segundos depois, ele aparece todo animado. Nem parece o garoto de semanas atrás. Acho que esses remédios estão funcionando...
— Vamos à cachoeira? — sugiro.
— Agora? — sua feição fica confusa.
— Sim, ué.
— Por quê? — ele pergunta.
Acho esquisita essa preocupação de uma hora para outra. Estava tão feliz hoje, pela manhã e quando eu mencionei sobre a cachoeira, ele fecha a cara. Mas o que é mais esquisito, é que ele parece preocupado com alguma coisa. Como se tivesse feito algo terrível.
Ele respira fundo e sai e volta para o segundo andar. Ouço eu estômago roncar novamente. Vou até a cozinha. Pego pão, queijo e faço o meu lanche. Abro a geladeira e pego o suco de acerola.
Espero uns cinco minutos e o meu pão e do Justin já estão prontos. Ele aparece logo em seguida. Engulo em seco só de olhá-lo. Meu coração bate mais forte e minhas mãos fraquejam. Seu rosto está abatido, sem vida. A cabeça está baixa.
Agora sei o porquê da preocupação de antes. Seu corpo está todo marcado pelos cortes. Eles são horríveis. As tatuagens escondem a maioria — que são nos braços e pulsos —, mas não escondem os poucos do abdômen. Meu estômago revira ao encarar isso, mas esqueço, quando vejo uma lágrima escorregando pela bochecha dele.
Abraço-o imediatamente, apertando-o contra mim o máximo que posso. Ele retribui o gesto. Em seguida pouso minhas mãos em seus ombros, encaro seus olhos.
— Desculpa. — ele diz.
— Não precisa pedir desculpa pra mim. Vamos esquecer isso. — Ele assente eu beijo sua testa.
Terminamos de comer. Eu nem troco de roupa. Primeiro porque não tenho biquíni e, segundo, porque estou com roupa de malhar. Um top e um short de lycra. Por fim, pegamos as coisas — toalha, cangas, etc. —, eu agarro a mão dele e nós vamos. Caminhamos de mãos dadas até a cachoeira, em silêncio.
Quando chegamos, eu estendo as cangas em uma pedra grande. Quando eu ia entrar na água, meu celular toca. Não presto atenção no número.
— Alô? — atendo.
— Geórgia? — é a voz dele.
— O que você quer? — respondo com desprezo, mas meu coração está flamejando.
— Conversar com você. — mais batidas do lado esquerdo do peito.
— A gente não tem nada pra conversar.
— Pelo amor de Deus, Geo.
— Não me chama mais assim.
— Me desculpa por ontem, sério, me perdoa.
Respiro fundo. Olho para o lado e Justin me olha curioso. Não queria que ele ouvisse isso, mas já é tarde.
— Tá bom, cara, só isso? — novamente, sou um pouco rude.
Espero quase um minuto. Ouço um suspiro, ele parece irritado.
— O que esse moleque fez com você, Geórgia? O que ele fez com a gente?
— Primeiro de tudo, não chama ele de moleque. E segundo... — dou uma gargalhada alta. — nunca existiu “nós”, não, Dylan. — esclareço.
— Car...
Antes que ele pudesse completar a frase, eu desligo. Bloqueio o número dele, também. Bufo, irritada com o modo como ele fala. Eu achava que Dylan era mais maduro, sinceramente...
— O que foi? — Justin pergunta.
— Nada não. Não precisa se preocupar com isso.
Ele não fala nada, mas revira os olhos. Em seguida, pega minha mão e me puxa pra cima. Em seguida, tira a bermuda. Fico um pouco em choque ao ver algumas marcas de cortes na perna. São poucos, pelo menos.
Respiro fundo; Esvair a mente. Um, dois, três.
— Vamos entrar? — pede.
Assinto. Tiro a blusa que usava, deixando apenas o top. Coloco a blusa em cima das minhas coisas e afundo meu pé na água.
— Isso tá congelando! — exclamo.
— Não — ri pelo nariz —, você se acostuma. É só entrar de uma vez.
Engulo em seco. Lembro-me da vez que eu quase me afoguei na praia. Quero deixar de entrar, voltar pra casa do Justin, mas não. Eu o fiz vir aqui e o fiz sentir vergonha das cicatrizes.
Respiro fundo. Um, dois, três. Corro, pulo.
O impacto da água com o meu corpo não é um dos melhores. Realmente, a água está bem gelada, mas suportável. Quando emirjo, esfrego minhas mãos em meus braços.
— Que gelo. — ressalto.
Justin ri de mim.
— Tudo bem, você vai acostumar.
Afundo-me na água novamente e me acostumo. Nado por um tempo indeterminado, até que eu fico sem ar.
— O que foi aquilo no celular? Era aquele Dylan?
— Como você sabe que o nome dele é Dylan? — encaro-o confusa.
— Tua mãe me disse — dá de ombros.
— Ah sim... — deixo a frase, na tentativa dele não insistir no assunto; em vão.
— Não vai me dizer, não?
Respiro fundo. Não quero dizer sobre o Dylan, sobre as péssimas coisas que ele pensa a respeito do Justin, mas não é justo ele ter que me contar sobre a vida dele eu não falar nem um pouco da minha.
— Não é nada demais, sério. Nós só brigamos ontem e ele tá assim. — sou sincera.
— Por minha causa? — pergunta após um silêncio de tempo indeterminado.
Suspiro. Não quero mentir, porque, se ele descobrisse, seria ruim, mas não posso dizer a verdade, pois ele ficaria triste, talvez decepcionado, até. De certa forma, a pergunta dele faz sentido.
— Justin... — não sei o que dizer a ele.
— Tá tudo bem, Geórgia. Pode dizer a verdade.
Suspiro, novamente.
— Não foi por sua causa, já que quer saber. Foi por causa dele. Quem começou tudo foi ele, eu juro.
— Como assim? — quer saber mais...
— Ele ficou com ciúmes, raiva, sei lá. Não sei definir.
— De mim?
— É. — respondo meio sem vida.
— Eu sabia...
— Não, não sabia. Só não era pra ser, Justin. Além disso, nem tínhamos tempo um pro outro, direito. Essas coisas acontecem em relacionamentos. Você deve saber como é...
— Não quero falar sobre isso.
— Tudo bem, perdão. — e eu finalizo esse assunto.
Eu achava que sabia bastante, mas há muita coisa escondida por trás dele.
Volto a acreditar que Justin é um enigma, mas, agora, sei que ele é muito mais inacessível do que eu imaginei.
Estou disposta a desvendá-lo.













