POV: Parrish | Only love can hurt like this
—So… I presume I should start calling you Emma Sinclair now?—
A pergunta veio carregada de sarcasmo, mas não escondia o amargor que pesava na voz de Kael.
— Kael… — Emma sussurrou, dando um passo cauteloso na direção dele, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-lo desaparecer.
Ele recuou quase no mesmo instante, um riso baixo e desacreditado escapando de seus lábios enquanto balançava a cabeça. Seus olhos fugiram dos dela, vagando pela arquibancada vazia, como se encontrar qualquer outro ponto fosse mais fácil do que encará-la.
Claro. Era óbvio, não era?
Callum não levaria anos após Hogwarts para oficializar aquilo. Não com Emma. E, no fundo, Kael odiava admitir… mas entendia. Se fosse ele, teria feito o mesmo. Era irritante como Sinclair a conhecia tão bem. Ao olhar para o anel de noivado no dedo delicado de Emma, percebeu que era perfeito, provavelmente feito sob medida para ela.
— E você esperava que eu descobrisse isso pelos jornais, hum? — continuou, agora com a voz mais firme, ainda que cortante.
Ele finalmente a olhou, e havia algo ali que Emma não via há muito tempo: mágoa crua.
— Ou tinha algum plano de me contar, loirinha?
A forma como disse o apelido não teve a leveza de antes.
— Tenho certeza de que a família do seu noivo já deve estar preparando um anúncio impecável pra mídia. Eu ainda não acredito que você vai ser uma Sinclair…
Parrish vinha de uma família tradicional europeia de bruxos e, apesar de nunca ter gostado de Callum, suas famílias também poderiam ser consideradas rivais nos negócios.
“Noivo” veio carregado de desdém.
O silêncio caiu pesado entre os dois, e Kael passou a mão pelo cabelo, soltando o ar devagar, como se tentasse conter tudo o que estava prestes a dizer mas, dessa vez, não recuaria, mesmo que ela estivesse noiva.
Quando voltou a falar, havia menos defesa na voz.
— Sabe… — ele apertou os olhos por um instante, como quem busca coragem no escuro. — Eu não vou mentir pra você, Emy.
Emma sentiu o coração apertar só de ouvir o apelido daquele jeito.
— Eu já me imaginei no lugar dele. Não sei quantas vezes… mas com certeza em todas as vezes em que você comemora uma vitória e corre pra me abraçar, quando me liga de madrugada com insônia ou quando treinamos juntos.
Ela não se moveu, ainda absorvendo cada palavra que saía, quase sem controle, da boca do sonserino.
— Como se, em alguma realidade… eu pudesse ter você. Como se, em algum universo, eu não tivesse te afastado quando você era apaixonada por mim e eu simplesmente fosse sincero, parando de reprimir o que sinto.
A mão dele subiu quase sem permissão, tocando o rosto dela com uma delicadeza que contrastava completamente com a tensão em seus dedos. Emma não recuou, mas seu corpo inteiro pareceu travar sob aquele toque.
Um quase sorriso surgiu, pequeno, involuntário. Algumas coisas nunca mudavam.
— Eu sei que naquela noite em Hogwarts… — ele respirou fundo, o polegar deslizando levemente pela pele dela, quase alcançando seus lábios — quando nós nos beijamos…
O olhar de Emma se arregalou em protesto, e ele soltou um sopro breve de riso, corrigindo:
— Certo. Quando eu te beijei. Mas você me beijou de volta… eu lembro disso.
Os olhos dele suavizaram por um instante.
— Eu ia te contar tudo naquela noite. Ia falar o que eu sentia. Eu só… — ele soltou um riso sem humor — estraguei tudo porque estava bêbado. E talvez eu nunca me perdoe por isso.
Sua expressão endureceu por um segundo, como se revivesse a própria falha, como se tivesse sido ele mesmo quem impediu a própria felicidade. Sempre pensou que não merecia Emma, que era um erro sentir amor.
— Eu disse que era só um beijo… mas você sabe que entre a gente nunca foi só isso, loirinha. Mesmo assim, foi tarde demais, não foi?
Kael não deixou de perceber a confirmação silenciosa nos olhos de Emma.
— Nessa altura, o seu principezinho já havia te conquistado… e foi aí que eu perdi essa luta.
O silêncio entre eles agora parecia pulsar.
— Eu sempre me virei sozinho. Sempre foi assim. Mas depois de você… — ele balançou a cabeça, incrédulo — até aquele dia em Hogwarts. Você me desafiou, Fawcett. Ninguém fazia isso comigo. Não daquele jeito… não desde Alice.
Emma estremeceu levemente sob o toque dele, e aquilo fez algo dentro de Kael apertar e, ao mesmo tempo, aquecer.
Ela ainda era a mesma.
— Você era irritante — ele murmurou, quase com carinho — derrubando cada uma das minhas barreiras como se fosse fácil.
Ele ergueu levemente as sobrancelhas, como se confirmasse que ela sabia exatamente do que ele estava falando.
— E eu não sabia lidar… e ainda não sei… com o que você causa em mim, Emy.
Ele se aproximou, murmurando isso próximo ao ouvido dela, depositando um beijo em sua bochecha, perigosamente perto dos lábios. Nada parecia mais difícil do que admitir aquilo. Por um momento, desejou estar bêbado, não para esquecer, mas para que as palavras saíssem com mais facilidade.
A mão dele se afastou do rosto dela, devagar.
— E talvez seja exatamente por isso que eu sei… que ele é a melhor escolha pra você.
Emma franziu o cenho, já sentindo a mudança.
As palavras caíram pesadas. Kael soltou um riso curto, inquieto. Podia sentir o gosto amargo em sua boca. Ciúmes.
— Callum é estável. Seguro. Ele não vai te colocar em perigo por impulso, nem te arrastar pras confusões que parecem me seguir naturalmente. Eu sempre fui um risco pra você, Emy.
Emma abriu a boca para responder, mas ele negou com a cabeça, pedindo silenciosamente que ela deixasse.
— E você merece alguém que não faça você escolher entre o coração e a sua própria segurança.
A voz dele falhou quase imperceptivelmente.
— E eu sei que esse alguém nunca fui eu. Por mais que eu tentasse ignorar isso em Hogwarts… como eu poderia pensar que poderia ter você? Eu lidava com magia negra, Emma. Havia sequestradores atrás de mim, que sequestraram seu pai. Eu nunca poderia deixar que isso acontecesse com você.
O peito dela apertou, como se quisesse reprimir toda a culpa que ele sentia.
— Eu não…
Ele respirou fundo, interrompendo-a, porque sabia que, dependendo do que ela dissesse, não responderia por si.
— Talvez isso seja um sinal… Eu recebi uma proposta. Um clube de quadribol japonês.
Disse, desviando os olhos da loira.
Emma piscou, surpresa, tentando entender.
— Japão…?
— É. — Ele assentiu, os olhos ainda evitando os dela. — E eu preciso aceitar.
O mundo pareceu se deslocar sob os pés de Emma.
— Por quê? — a pergunta saiu mais fraca do que gostaria. — Você nem falou comigo sobre isso…
Kael riu baixo, sem alegria.
— Porque, se eu falasse, loirinha… eu ia arrumar um motivo pra ficar.
— Você não precisa ir embora por causa disso—
— Eu preciso.
Dessa vez ele foi firme, mas não duro.
— Eu não quero atrapalhar esse momento da sua vida.
Ele deu um pequeno passo para trás, a contragosto, criando espaço como se a distância física pudesse sustentar a decisão.
— Kael… você não pode ir. A nossa amizade… o time… — a voz dela tremeu, apesar do esforço para manter firmeza. — Isso não pode simplesmente acabar.
Kael hesitou. Foi sutil, mas visível.
Então passou a mão pelo rosto, cansado.
— Eu não quero que acabe. Mas eu não sei como continuar sendo só seu amigo, Emma…
Será que ela não conseguia entender o quanto aquilo estava sendo difícil?
Emma sentiu os olhos arderem.
— Então você vai embora e pronto?
— Eu preciso de um tempo — ele respondeu, mais baixo. — Distância suficiente pra esses sentimentos deixarem de existir… ou serem enterrados.
Ele completou quase num sussurro.
Ela balançou a cabeça, tentando impedir que as lágrimas caíssem.
— Eu só… — a voz dele falhou antes de se firmar — não sei como ficar perto de você sem querer mais do que eu posso ter.
E dessa vez não havia sarcasmo.
Não havia defesa.
Só a verdade inevitável entre eles.










